O porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) Seif Magango condenou, numa entrevista por telefone a partir de Nairobi, no Quénia, que pelo país têm existido ataques contra civis e respetivas infraestruturas "que aparentam ser deliberados".
"Os mercados foram atingidos, as escolas foram atingidas, as casas das pessoas foram destruídas. Isto é absolutamente inaceitável", salientou Magango.
"As partes em conflito continuam a atacar as posições umas das outras de forma indiscriminada, muitas vezes sem ter em conta a presença de civis nessas zonas", afirmou.
Magango destacou ainda o aumento recente do uso de 'drones' (aeronaves não-tripuladas), que tem intensificado o impacto dos ataques, embora tenha evidenciado que a violência sempre foi elevada neste conflito, independentemente dos meios utilizados.
"Mesmo com armas de menores dimensões, o impacto sobre os civis tem sido devastador", reiterou.
De acordo com o porta-voz, a ausência de responsabilização tem contribuído para a escalada da violência.
"Desde o início do conflito, quase não houve responsabilização por nenhum dos ataques contra civis. Isso criou um ar de impunidade que está a alimentar a guerra", indicou.
O porta-voz acrescentou que algumas das violações documentadas "constituem crimes de guerra e, nalguns casos, podem constituir crimes contra a humanidade".
Por outro lado, salientou que o Tribunal Penal Internacional (TPI) já indicou que está a analisar a situação, o que, para Magango, representa um sinal positivo, embora insuficiente no imediato, enquanto os combates decorrem.
"A investigação deve dar alguma esperança às vítimas de que um dia haverá responsabilização", declarou.
No plano regional, o conflito tem provocado deslocações massivas para países como o Chade, o Sudão do Sul - que enfrenta o seu próprio conflito interno - e o Egito, colocando pressão adicional sobre essas nações.
"O impacto [desta guerra] fez-se sentir na população civil que teve de fugir e noutros países que tiveram de se preparar, num muito curto prazo, para acolher refugiados", afirmou.
No entanto, questionado sobre se o conflito se mantém uma guerra civil ou se já se tornou em algo regional, respondeu que "as repercussões dos combates têm sido bastante limitadas" e que, em geral, estes "estão a ocorrer no território sudanês".
"Portanto, nessa medida, não, não vemos uma grande escalada do conflito em si [para outras regiões], mas das implicações e dos impactos desse conflito, especialmente em relação aos civis", reiterou.
Magango apelou ainda à interrupção do fluxo de armas para o país e a um maior envolvimento internacional na procura de uma solução política.
"Sem essas armas, haveria uma hipótese de a guerra terminar", considerou.
O responsável defendeu ainda que a única saída para a paz passa pelo diálogo entre as partes, que "têm de se sentar à mesa e resolver o conflito por meios diplomáticos", concluiu.
As RSF estão em guerra com o exército sudanês desde 15 de Abril de 2023.
Consequentemente, cerca de 33,7 milhões de pessoas necessitam de ajuda urgente para sobreviver no Sudão e mais de 24 milhões de pessoas sofrem de insegurança alimentar aguda, alertou a 09 de abril a Organização Não-Governamental (ONG) espanhola Ação Contra a Fome (Acción Contra el Hambre).
homepage












