Entre 13 e 23 de abril, Leão XIV visita a Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial naquela que é a sua primeira viagem apostólica organizada pelo seu Pontificado, e Tony Neves elogia a decisão "muito ponderada que mostra também o desenvolvimento que África está a ter em termos de catolicidade".
Ao longo da viagem, o missionário que está na direção dos espiritanos - uma congregação que tem missões em todos os países africanos incluídos na visita - espera ouvir mensagens sobre diálogo inter-religioso e discursos de defesa dos direitos humanos, até porque nenhum dos países a visitar é considerado uma democracia plena por várias organizações internacionais.
Em Angola, o terceiro país a ser visitado, Leão XIV vai ver um país com "indicadores de crescimento de catolicismo muito grandes", como mostram os estudos mais recentes, em que "praticamente metade da população angolana se define como católica".
"Os seminários estão cheios, têm vocações à vida consagrada muito numerosas e a Igreja é interveniente muito na saúde, na educação, no desenvolvimento e também sempre foi muito interveniente em termos políticos, económicos e sociais", explicou o sacerdote.
Exemplo disso é o facto de a Comissão de Justiça e Paz angolana ter lançado "um grande simpósio da reconciliação, por ocasião dos 50 anos da independência", mesmo que "o projeto tenha sido boicotado pela Presidência da República".
"Nenhuma outra força religiosa, política, económica teria capacidade de organizar à escala nacional um congresso sobre a reconciliação do país", salientou Tony Neves, que elogiou também os locais onde o Papa irá presidir a celebrações, na centralidade do Kilamba, no Santuário da Muxima e em Saurimo.
"São três locais novos numa visita de um Papa" e mostra a "vontade de mostrar uma nova Angola".
Em particular, Tony Neves destaca a Muxima, "que nasceu como uma capela militar dos portugueses no tempo colonial e era um sítio onde as famílias portuguesas gostavam de ir", mas que, depois da independência, "o povo angolano começou a gostar de ir para lá".
Contudo, "foi sempre uma capelinha à beira do rio", depois, começou a crescer "a ideia de se construir um santuário" e o próprio Presidente Eduardo dos Santos mostrou a Bento XVI, em 2009, a planta de "uma basílica integralmente paga pelo Governo do MPLA", que nunca foi construída.
Hoje, "o tema volta à agenda" e o "Governo dá sinais de que quer pagar à Igreja uma grande basílica", salientou Tony Neves, considerando que o assunto também pode ter "aproveitamentos eleitoralistas" a um ano de mais umas eleições presidenciais em Angola.
Também nesse campo, Tony Neves lamenta que o Papa não reúna com os partidos da oposição angolana. "É um bocadinho estranho", considerou.
Na Guiné Equatorial, membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) mas onde a população fala espanhol, Leão XIV irá ser recebido por Teodoro Obiang, o líder africano há mais tempo no poder.
"É um caso muito estranho a muitos níveis: é o único país de língua espanhola de toda a África" e, "em termos de desenvolvimento, é um dos raros países onde o desenvolvimento acontece" e onde é visível a "qualidade das estradas e das infraestruturas".
Mas tem um "Presidente cuja duração dos mandatos nunca mais acaba" e é "um dos países onde o Governo é acusado de não respeitar os direitos humanos", pelo que o "Papa irá falar disso, da liberdade e dos direitos humanos" num país onde "quase cem por cento da população é católica".
Malabo tem "um Governo musculado, um Governo que não é de partido único, mas trabalha como se fosse", um pouco à semelhança do que sucede nos vizinhos Camarões, que Leão XIV irá também visitar.
Os Camarões são um "país em pé de guerra", devido aos ataques no norte pelo Boko Haram, até contra comunidades muçulmanas que promovem o diálogo inter-religioso.
No norte, há um projeto, denominado Casa do Encontro, que junta católicos, protestantes e muçulmanos e o imã que faz parte da direção tem sido alvo de ataques por parte de terroristas islâmicos.
"Aí sim, podemos dizer que a situação é crítica porque o Boko Haram ataca de uma forma impiedosa", explicou o missionário.
Nos Camarões, o Papa irá "como um agente de reconciliação, um agente pacificador e é um bocadinho isso que esperam dele".
O diálogo inter-religioso que deverá ocorrer nos Camarões será também o principal tema da primeira paragem na viagem apostólica.
"Na Argélia, o Papa vai como agostiniano" ao local onde viveu Santo Agostinho, "mas também para mostrar abertura e diálogo" num país muçulmano em que as dioceses católicas só existem para dar assistência aos estrangeiros.
"Será uma viagem bonita e importante", concluiu o missionário.
Foto: depositphotos.com
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