Histórias da Educação na Literatura III

PorAdriana Carvalho,14 mai 2019 8:55

[Chiquinho de Baltasar Lopes e Alma de Manuel Alegre]

Após ler num ápice o romance Alma de Manuel Alegre, senti o impulso de reler Chiquinho de Baltasar Lopes. Assim fiz. Porquê esta compulsão (in)consciente? Talvez pelas similitudes temáticas: registos autobiográficos de memórias da infância em contextos históricos que o mundo ficcional recuperou do mundo real.

Caleijão e Alma

Nas duas obras recuperei as vivências de alunos da escola primária: Chiquinho (Baltasar) na escola de Caleijão, no vale de Ribeira Brava, na ilha de São Nicolau em Cabo Verde e Manuel na Escola do Cruzeiro em Alma, na realidade Águeda, no Baixo Vouga, região centro de Portugal.

A guerra, a emigração e a paz podre

Chiquinho transporta-nos ao “espaço «sagrado» de S. Nicolau rural”, à casa onde nasceu, impregnada de recordações do pai que embarcou para a América “quando da seca de novecentos e quinze”. “E assim tudo na sua vida, a casa, as mobílias e as recordações, os nossos interesses, fazia uma reportagem sentimental, que dava a Papai uma presença quase física no meio de nós”. A seca que o privou da presença do pai, anos mais tarde quando professor na escola de Morro Braz, fez os alunos desaparecerem um a um e a escola morrer de inanição. O trágico ciclo ‘seca – fome – morte’ revoltou o povo que enfrentou o Administrador colonial aos gritos “Fome! Misericórdia!”. (Chiquinho, ed. 2006, pp. 35 e 37, 192, 198).

No outro lado do Atlântico, Manuel recorda o tempo da infância, “quando na Europa havia guerra e cá dentro uma paz podre, que era uma outra forma de guerra” 1. Revive um dos lugares mágicos da meninice, a casa em Águeda onde os pais e a avó, opositores ao regime de Salazar, recebiam os velhos republicanos “que ali vinham parlamentar e conspirar” e à noite ouvia-se a BBC, “uma forma de comunhão com os Aliados”. O narrador confessa: “foi assim que eu fiz aquela guerra: ouvindo a BBC, à noite, em minha casa (…) e a guerra acabou sem chegar cá”. (Alma, ed. 2008, pp. 35 e 39)

A escola primária

O saber escolar era uniformizado em todo o império português, igual em Cabo Verde e em Portugal. Nas escolas de Caleijão e de Morro Braz e na escola de Alma as mesmas lições, as mesmas redações que os alunos tinham de escrever sobre temas que desconheciam, os mesmos manuais, o poder discricionário das “palmatoriadas” e da delação exercida pelo professor e por alguns alunos, a mesma pobreza e indigência sociais.

Contra esta pedagogia coerciva pronunciou-se Nuno Miranda, em comunicação nos Colóquios cabo-verdianos (1959), ao dizer “não interessam no nosso caso as edificações da educação e ensino, esterilmente construídas, divorciadas de nós próprios e em que nos ensinam, por exemplo, a descrever o pinheiro e o sobreiro, o trigo e a rã, se o que informa a realidade é o milho maiz cuja presença é comida de povo (…)”.

Baltasar Lopes e Manuel Alegre resgataram e devolveram-nos o quotidiano escolar passado e vivenciado também por muitos de nós.

Em Chiquinho:

“– Vocês leiam!

Toda a classe leu em voz alta. O João-da-câmara2 tinha trechos muito bonitos. O sr. José Martins ficava de pé no estrado, com o ponteiro encostado ao ombro, a ouvir a leitura em coro.

– Dick, estás lendo com a voz muito fina. Um homem deve ter voz de homem…

A sala era pequena e não chegava para tanta gente. Eu, como era novo na classe, ficava com os outros junto da porta, quase na rua.

– Maninho, não sabes ainda a lição que te passei anteontem.

Seis palmatoriadas. Nasolino foi cumprir a ordem do professor. Os rapazes da 3.ª classe faziam-nos bioco, a troçar da nossa leitura. Um garoto veio condenar o companheiro que estava tirando penicos nas pernas. Quatro palmatoriadas. Nasolino cumpriu. Os decuriões3 foram tomar lições aos mais atrasados.

(…)

Mano vai ler. É aluno do 2.º grau e tem um João-da-cambrona já muito usado. O Sr. José:

– Faz o favor de forrar este livro! Menino impossível! É a terceira vez que te faço esta recomendação! Parece um rolo de contas em papel de embrulho…

O trecho do dia é “O pinhal”. Mano lê alto e depressa atropelando a pontuação.

– Não é encosta, é encósta, en-cós-ta!

– Vem descendo o pinhal pela encosta da montanha...

Redação O Pinhal

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(Texto de um aluno do ensino elementar. Fonte primária, Fundo da Secretaria Geral do Governo, Arquivo Nacional de Cabo Verde)

(…)

Fomos dez que o professor deu para o exame do 2.º grau. Tói Mulato era o primeiro e eu o segundo da aula. O Sr. Carvalho disse-nos:

– Vão com sossego para o exame, que vocês dois têm obrigação de apanhar uma distinção.

Tói Mulato andava muito triste por não ter fato novo para vestir no dia do exame, na Vila. Ele mesmo botou umas chapas nas calças de cotim militar. Nos últimos dias o professor dava-nos aulas extraordinárias à tarde, intensificando a nossa preparação em Aritmética e História. Levei para Estância calção azul e blusa branca em que Mamãe bordou os emblemas de Fé, Esperança e Caridade. (…)
Não apanhei distinção porque me atrapalhei um pouco na prova de Aritmética. Mas o meu exame de Leitura e História foi cheio. Toi Mulato é que foi o herói do dia. (…)

À tarde tivemos festa de exame. E como nha Totona não podia festejar a distinção de Tói Mulato, ele comeu um bolo de mel em nossa casa, guardou outro para ela, e foi cedo para casa, porque a dona era velha e não podia ficar muito tempo sozinha”. (Páginas 56, 68 e 69)

Em Alma:

“Ali estávamos [na Escola do Cruzeiro], lado a lado, com os retratos de Salazar e Carmona na parede, naquela sala que cheirava a tinta, a raposinho, a peido. Era o cheiro da pobreza, naquele Outono de mil novecentos e quarenta e cinco. Contavam-se pelos dedos os que tinham sapatos. Alguns vinham de chancas, outros de tamancos, a maior parte descalços. Vestiam calças e camisas de cotim, a saca que traziam a tira colo era da mesma fazenda, todos os anos oferecida por um benemérito do Brasil. No inverno os dedos das mãos e dos pés inchavam com frieiras e os lábios ficavam gretados pelo cieiro. Havia doenças estranhas, a tinha, que provocava grandes peladas na cabeça, as impingens, que abriam feridas na cara, nos braços e nas pernas. Eram as doenças e as feridas da pobreza, da fome, do frio, do pouco. (...)

Aprendia-se a tabuada a cantar e os verbos à palmatoada. Quem ganhava batia e quem perdia estendia a mão. A classe ficava sempre à espera de ver quem é que no fim ficava a arriar em quem: se o Júlio em mim, se eu no Júlio, embora em gramática, sobretudo nos verbos, mas também no ditado, na leitura e na redacção eu fosse o mais forte. Mas ele, apesar do fato de cotim e dos pés descalços era o melhor aluno, o que estudava mais, o mais atento, talvez o mais capaz. Eu não gostava daquele jogo. De ganhar, sim, mas não de dar palmatoriadas nem de as levar. A palmatória, a que o professor chamava a menina-dos-cinco-olhos, era para mim um símbolo do mal, algo como a cruz suástica que via nos filmes e nas revistas.” (Páginas 56-59)

Mais uma vez, a literatura e o arquivo se cruzaram e recuperaram, com a mesma verdade, o tempo histórico passado. Compõem esta linguagem literária elementos caracterizadores da educação no Estado Novo português transferida para as colónias num contexto político de “paz podre” e indícios de sublevação social: republicanismo, fascismo, oposição, repressão, denúncia, pobreza vivida e consentida, fome, doença, emigração, prémio e castigo, o querer ficar e ter de partir.

Vale a pena ler Alma de Manuel Alegre e (re)ler Chiquinho de Baltasar Lopes!

1 Excerto da intervenção de Manuel Alegre no lançamento da 1ª edição de “Alma”, em 19 de janeiro de 1996.

2 Livro de Leitura para o ensino elementar da autoria de João da Câmara. As “Leituras” de João da Câmara, para a 2.ª, 3.ª e 4.ª classes custavam 15$00 (Cf. Lista de manuais de 7 de outubro de 1913. Doc. do Fundo da SGG, ANCV).

3 Os decuriões eram os “bons” alunos que substituíam os professores nos interrogatórios e na aplicação de castigos corporais nas aulas. Esta prática, recuperada do ensino jesuítico, baseia-se na divisão da classe em grupos (decúrias) coordenados por um aluno considerado distinto.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 910 de 08 de Maio de 2019.

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Autoria:Adriana Carvalho,14 mai 2019 8:55

Editado porAndre Amaral  em  20 mai 2019 23:23

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