Não há clima

PorEurídice Monteiro,23 dez 2019 8:43

Na cimeira do clima de Madrid ficou claro que os países onde ainda há quem cozinha à lenha, sobrevive à custa da apanha de areia ou corre o risco de ficar sem tecto por causa de algum ciclone estão de longe com maior predisposição para colaborar do que os países que na prática mais contribuíram para a actual situação de emergência climática.

Isto está cristalino, até porque muito por causa dos mais poderosos não se chegou a um acordo político satisfatório sobre a urgência da acção climática nesta que foi a 25.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas. Adiar para 2020 a resolução de um problema reconhecido por todos é a pior das soluções, como tem sido apontada por muitos cientistas e activistas. 

Perante a iminente catástrofe ecológica à vista de todos e diante da inércia dos países que mandam, está claro agora que apenas a sociedade civil organizada poderá salvar o planeta. Greta Thunberg simboliza este momento histórico em que as novas gerações (adolescentes e jovens) estão a acordar para o problema deste tempo e a assumir o seu protagonismo na luta por uma das causas que nos deverá unir se quisermos ainda fazer parte deste planeta. 

Greta provou que a idade não é documento. Ter ou não ter idade não serve de justificação para a passividade. Apoucar a acção de mobilização social desta nova geração de activistas mais não é do que justificar a inércia que nos conduziu aonde chegamos. Que haja sim cada vez mais adolescentes e jovens livres e conscientes de que é tempo de agir e de que, em vez de se perderem no mundo do álcool e das drogas, podem envolver em causas nobres como esta e salvar o planeta para todos nós e pelas futuras gerações.

É preciso acreditar que seja onde estivermos, o pouco que ainda podemos fazer muito será quando feitas as contas a uma escala global. Não vale a pena nos desculparmos de que não temos meios para fazer nada, porque cada gesto faz a sua diferença. É certo que não podemos sozinhos fazer tudo, mas o que for possível fazer hoje terá o seu impacto amanhã. Os cépticos dirão que será em vão, mas sabemos que não. 

É Natal e o ano está prestes a findar. É tempo de traçar novos planos para o futuro. Que esta seja uma causa para o ano que vem aí.

Por um Natal mais ecológico e social 

Dizem que o dia 25 de Dezembro foi fixado pelo Papa Júlio I, no século IV, para se festejar o aniversário de Jesus. Entre os cristãos, o Natal assume um significado especial; faz o ser humano sentir-se mais humano, vivendo de um modo mais intensamente o dito mandamento novo do Messias: «Que vos ameis uns aos outros. Como eu vos tenho amado, amai-vos assim também vós mutuamente» (Jó, 13, 34). Por esta razão, o Natal caracteriza uma época de redenção e reconciliação. 

James Carrier, no seu clássico ensaio sobre The Rituals of Christmas Giving, mostra como o Natal se tornou uma cerimónia de afecto e estabilidade e passou a ser celebrado no núcleo central da família. O Natal faz nascer o espírito da família, pois os familiares juntam-se para o festejarem na paz e no amor. O presépio, o pai Natal e a árvore de Natal têm destaque entre os símbolos natalícios. A troca de presentes e os votos de boas festas já são práticas arreigadas. 

O presépio corresponde à representação da cena de adoração do Menino Jesus na gruta de Belém. Jesus, Maria e José são figuras humanas obrigatórias. Entre os animais, o burro e o boi são os que mais se destacam. Pode ainda figurar os três Reis Magos, pastores, anjos ou ovelhas, que ornamentam igrejas, residências, locais de trabalho e vias públicas durante as comemorações natalícias. A criação do presépio é atribuída a São Francisco de Assis. 

A imagem do pai Natal corresponde a um velhinho gorducho, de barbas brancas, que usa roupas vermelhas e longas botas pretas. Em muitas sociedades, é ansiosamente esperado pelas crianças que aguardam receber dele os presentes de Natal, alguns, inclusive, pedidos por meio de cartas endereçados ao Pai Natal. 

A árvore de Natal é, principalmente, um elemento decorativo que, através do colorido de bolas, velas e luzes empresta um ar mais festivo. A introdução da árvore de Natal nas festividades do nascimento de Jesus deveu-se a São Vilfrido. 

Como festa de confraternização, sobressaem no Natal, a troca de mensagens e de presentes. Embora de carácter comercial, esta manifestação do ciclo natalício, merece incentivo e louvor, enquanto motivação a uma melhor e mais intensa comunicação e fraternidade entre as pessoas. A troca de cartões de boas festas vem sendo muito difundida. A troca de presentes tornou-se um costume natalício, a partir do século XV quando, na Inglaterra, ficou estabelecida a noite de 24 de Dezembro para se dar e receber presentes. 

James Carrier diz ainda que, as prendas são coisas materiais com alguma utilidade que servem para expressar um conjunto de valores sociais; são objectos úteis que resultam de uma transacção impessoal e denotam afecto nas relações pessoais. As prendas surgem como um acto de ternura ligado a um sentimento privado na esfera de relações pessoais e familiares. A acusação de materialismo reside no facto de que as pessoas prestam mais atenção ao acto de dar uma prenda do que nos sentimentos e relações sociais que deveriam reflectir. Por causa disso cria-se um conflito relativamente a que objecto oferecer. 

Associa-se o Natal à época em que tudo se compra, tudo se vende e tudo se troca. Os resultados obtidos por alguns centros comerciais mostraram que no Natal as pessoas compram mercadorias intencionalmente e intensivamente e há movimento de trocas de presentes. Ano após anos, os consumidores têm-se mostrado que estão a organizar cada vez melhor para fazerem compras de Natal. Os presentes que são dados às pessoas que se amam, são símbolos de gratidão e reforçam os laços sociais.

O ar materialístico e comercial do Natal entra em conflito com importantes valores religiosos. Neste contexto, há pontos de vista que consideram as compras como parte integrante do Natal e a razão de um incremento da actividade comercial no núcleo de um verdadeiro ritual ligado à família. Para entendermos este ponto de vista é necessário distinguir prendas de objecto útil. A grande maioria dos objectos oferecidos são objectos úteis ou mercadorias. Estes objectos são convertidos em objectos de posse para criarem uma identidade pessoal distinta e incluírem relações sociais distintas com vista a serem usados nos diversos lares. O acto de fomentar as compras transforma objectos pouco visíveis em formas simbólicas cheias de significados distintos da concepção prática da mercadoria. Associado a este acto está presente a questão das funções latente e manifesta, segundo o qual a utilidade dos objectos é a função latente e a simbologia associada a função manifesta. 

Pode-se dizer que vive-se hoje, não só no ocidente, numa era de consumo desenfreado, que por vezes deturpa o espírito do Natal, e são os adultos que mais contribuem para isso. O acto de embrulhar ajuda a transformar os objectos em prendas. As prendas caseiras que incorporam um sentimento puro de amor não são consideradas satisfatórias porque negam o ritual das compras de Natal. 

Em muitos países, existem grupos de educação financeira e de educação ambiental que apelam as pessoas para meditarem um pouco antes de gastarem tudo o que têm e o que não têm e para fazerem opções mais ecológicas nas decorações, nas prendas, nos embrulhos e nos festejos. Que assim seja também por cá, que o espírito de Natal prevaleça entre nós e que seja celebrado com fartura e consciência social e ecológica. 

Boas festas!

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 942 de 18 de Dezembro de 2019. 

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Autoria:Eurídice Monteiro,23 dez 2019 8:43

Editado porSara Almeida  em  7 abr 2020 23:20

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