O Futuro da África para lá da Ajuda

PorDina Salústio,30 dez 2019 6:17

…. Quando escrevo há duas marcas que faço questão atravessem a minha escrita: ser mulher e ser africana. Defino-me como mulher, independentemente de ter nascido menina, porque me identifico e luto ao lado das causas que defendem a equidade e o empoderamento da mulher. Defino-me como africana porque independentemente de pertencer ao continente e de ter riscado na pele a sua profunda presença, identifico-me e luto ao lado das causas que defendem o desenvolvimento e a liberdade da África.

Em novembro tive a honra de participar no Diálogo Presidencial “AFRICA, A FUTURE BEYOND AID” (África, O Futuro para Lá da Ajuda) da iniciativa de S. E. o Presidente da República do Ghana. Governantes de vários países da Região, dirigentes, influenciadores e o Diretor Geral das Nações Unidas para a África participaram dessa abordagem do desenvolvimento da África, incidindo na otimização do uso dos seus recursos, da criatividade e da inovação. Do painel das Indústrias Criativas cinco mulheres do Zimbabué, Africa do Sul, Ghana, Kénia e Cabo Verde diríamos como a nossa intervenção em Negócios, Cinema e Teatro, Música e Moda, Artes Plásticas e Literatura pode contribuir para o desenvolvimento dos nossos países e da África. A sala de conferências estava elegante nas cores promissoras e vibrantes do país. Os homens, mais contidos, estavam igualmente soberbos no estilo. A painelista com o tema Moda teve a vida facilitada. Eu falaria da Literatura.

Nos dez minutos da minha fala que chamei “África, Há Mais Futuro Para Lá da Ajuda”, na introdução, lembrei um episódio passado poucos anos depois da Independência. Na altura era corrente atribuirmos a culpa de todos os nossos fracassos ao antigo governo colonial. Um dia, numa reunião, um dirigente político, possivelmente arriscando a popularidade e uma certa bengala (política) para futuras desculpas, disse-nos: vocês não acham que já é tempo de nos responsabilizarmos por tudo o que fazemos, incluindo as coisas mal feitas? Como é possível que um buraco na tua rua seja da responsabilidade do colono que partiu há quase oito anos? Foste tu que não tapaste o buraco da rua onde moras”. Foi com esta história que tive definitivamente a noção do que é a independência total.

“…. Quando escrevo há duas marcas que faço questão atravessem a minha escrita: ser mulher e ser africana. Defino-me como mulher, independentemente de ter nascido menina, porque me identifico e luto ao lado das causas que defendem a equidade e o empoderamento da mulher. Defino-me como africana porque independentemente de pertencer ao continente e de ter riscado na pele a sua profunda presença, identifico-me e luto ao lado das causas que defendem o desenvolvimento e a liberdade da África. Por essa convergência de causas defendo que a África somente será livre quando houver liberdade e dignidade para as suas mulheres.

.… Escrevo e digo o meu país, ainda, em nome de todas as histórias que me contaram, oralmente ou por escrito… fossem verdadeiras e autênticas, fossem manipuladas, distorcidas e falsas. Todas elas contribuíram para a visão que tenho do mundo e obrigam-me a contar aquilo que vejo e me parece ser e a defender a construção de mentalidades que visam a justiça e o progresso.

E mesmo sabendo que a literatura não provoca mudança de atitudes ou comportamentos ao oferecermos com a nossa escrita a realidade em todas as suas nuances, pensamos que ela acaba por provocar a interação com o leitor, seu julgamento e crítica. A meu ver o papel do escritor para neste ponto e tudo o que vier depois é da responsabilidade de outros…”

Antes de continuar com recortes da minha intervenção no Diálogo Presidencial lembro nesta crónica um episódio que me aconteceu em Accra. Sem esperar alguém da nossa região subsaariana ou da pátria língua foi um prazer encontrar o amigo Alfredo Teixeira. Claro que não faz parte de uma crónica, nem de mim, abrir aspetos pessoais que não acrescentam nada à escrita, mas refiro-o porque a gratidão é um sentimento dos mais nobres que existem e gosto de o exaltar, sobretudo, em oferta aos leitores mais jovens. O seu apoio permitiu-me apresentar o meu texto em inglês correto e daí, hoje, a minha lembrança.

Os meus dez minutos de crónica estão a esgotar-se e o jornal já me está a contabilizar o espaço. Salto umas páginas e agora, outra vez no palco da Conferência, para terminar:

“- Senhoras e senhores: - Escrevemos também para denunciar a violência sobre as crianças, onde se inclui a brutal e criminosa mutilação genital das meninas em algumas regiões da África (para nos situarmos apenas no nosso continente) e fazemo-lo com o coração em raiva. Nós não queremos ter mais motivos para falar sobre essa prática e por isso rogamos às mulheres, aos homens, aos influenciadores e aos governantes dessas regiões que pensem no sofrimento das suas filhas deitadas numa esteira, expostas, abertas aos olhares dos outros, das outras, para a cortarem, sangrarem e coserem entre gemidos e gritos, na hipótese de um maior prazer sexual masculino. Estou a falar da mutilação genital feminina, sim, e estou a falar de dor, sim, de incapacitações e de morte.

Enquanto houver o poder que normaliza a mutilação genital – que não é prática no meu país – em qualquer parte do mundo onde estejamos, mas sobretudo dentro das nossas consciências, sentir-nos-emos sempre muito humilhados perante a humilhação dessas meninas.

E perguntamos:

- Quantos litros de veneno precisa uma mulher beber para entregar sua menina para ser mutilada?

- Quantos litros de veneno precisa um homem beber para imaginar sua filha sendo mutilada?

- Quantos litros de veneno precisa uma mulher beber para mutilar uma menina?”

Bom Natal.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 943 de 23 de Dezembro de 2019. 

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Autoria:Dina Salústio,30 dez 2019 6:17

Editado porSara Almeida  em  23 fev 2020 23:21

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