O desporto e Giovani

PorLeonardo Cunha,17 jan 2020 15:10

Luís Giovani dos Santos Rodrigues morreu a 31 de dezembro do ano passado no hospital, após ter sofrido uma agressão perto de uma discoteca em Bragança onde estivera com amigos. Giovanni de 21 anos, de origem cabo-verdiana, chegou a Portugal em outubro de 2019 para estudar Design de Jogos Digitais e na mala carregava muitos sonhos. No dia 21 de dezembro, quando foi brutalmente espancado, esses sonhos começaram a desaparecer com a sua entrada em coma e subsequente morte dias depois.

Na altura que escrevo este artigo foi adiantado que foram identificados alguns dos supostos agressores de Giovanni, mas, até agora ninguém foi detido e as autoridades estão ainda a interrogar testemunhas. A própria Polícia Judiciária em Portugal que lidera as investigações admite as hipóteses de ódio racial ou de um crime de motivo fútil.

Contudo, mesmo não sendo avançados muito pormenores sobre este assassinato, no passado dia 11 de janeiro, milhares de pessoas protestaram uma marcha pacífica em vários locais (em Cabo Verde e na Diáspora), pela clarificação das circunstâncias da morte.

Este legitimo pedido de justiça e clarificação das pessoas que se juntaram a esta marcha ocorre num cenário de acusação por descaso dos órgãos de comunicação social em Portugal a este homicídio e de até declarações de opinião publica consideradas de “teor infeliz” pela Ordem dos Advogados de Cabo Verde (OACV). Estas declarações suscitaram até à ponderação de instruir um processo crime contra a autora das declarações.

O quadro proposto de falta de interesse pelas autoridades e comunicação social em Portugal avançado por parte das pessoas que se manifestaram no passado dia 11, deriva do facto de poder considerar-se da hipótese de ódio racial.

Alem de vários estudos científicos confirmarem a hipótese da existência de racismo estrutural na sociedade Portuguesa e considerando a hipótese não comprovado de ódio racial nos motivos do homicídio de Giovani, é importante compreender de que forma o racismo se manifesta igualmente no fenómeno desportivo.

José Carlos Lima, professor na Universidade Nova, refere que a prevenção, a denúncia e a educação são campos que terão de caminhar em simultâneo na luta contra o racismo e identifica que “o desporto, infelizmente, em alguns momentos, foi e tem sido “utilizado” como um meio de instrumentalização e de afirmação de ideias que nada têm a ver com a dignidade da pessoa humana”.

Olimpicamente, depois dos Jogos Olímpicos de 1936 (em Berlim), o presidente do Comité Olímpico Internacional, Henri Baillet-Latour, faleceu em 6 de janeiro de 1942 com um ataque cardíaco ao ser informado da morte do filho durante o combate na II Guerra Mundial. Muitos dos desportistas que haviam participado em Berlim1936, acabaram como vítimas do conflito bélico, tais como os campeões olímpicos Ferenc Csik (100m livres e 4 x 200 livres) e os alemães Carl Long (salto em distância), Wilhelm Leichum (4 x 100 m), Rudolph Harbig (4 x 400 m) e Hans Woelke.

O Desporto e o movimento olímpico nessa altura pagaram muito caro por este ato de conivência com o ódio racial, e ele deverá servir de lição quando o tema envolve a dignidade humana e o combate pelos direitos do homem. O Desporto deve lutar pela neutralidade política, mas deve estar envolvido desde o primeiro momento na luta por um mundo melhor onde o ódio racial não tem lugar.

Estes devem ser os valores do Desporto, e, por conseguinte, de todos que o promovem, em todos os campos da sociedade.

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Autoria:Leonardo Cunha,17 jan 2020 15:10

Editado porSara Almeida  em  22 fev 2020 11:19

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