DIA DE ÁFRICA Hoje eu sou uma Menina do Sudão. Parabéns África!

PorDina Salústio,25 mai 2020 7:12

Para o dia de África, que se aproxima, escolhi o Sudão como bandeira para as comemorações. É certo que nestes tempos em que a pandemia da Covid-19 constitui uma ameaça generalizada, as celebrações obedecem a critérios especiais para se manifestarem.

Mas a alma tem essa caraterística única de permitir o júbilo ao lado do desassossego, a alegria a par da saudade, a leveza junto do constrangimento. Tudo porque a vida não para nem é feita de compartimentos estanques: – Nós somos uma mistura de sensações, uma orquestra de sentidos, uma fusão de decisões e escolhas. Somos, afinal o sim e o não.

Escolhi o Sudão por várias razões: porque é um dos países africanos em que, diz-se, cerca de noventa por cento das mulheres sofreram a mutilação genital; porque as propostas para a criminalização do ato foram sistematicamente impedidas por grupos sociais, culturais e religiosos do país e porque agora no mês de abril foi aprovada essa proposta.

Em celebração do dia de África sinto-me uma menina do Sudão e louvo o governo desse país pela criminalização do ato da mutilação genital das meninas. De louvar igualmente a Organização das Nações Unidas, particularmente a UNICEF, pelo papel mobilizador. Estão de parabéns as ONGs pelo seu longo percurso na luta pelos direitos humanos e ainda o Parlamento do Sudão por esta lei e pelo contributo que ela vem trazer na construção de uma consciência para uma atuação política democrática e, em sequência, pensamos, para a defesa de novos comportamentos individuais e sociais rumo à liberdade das mulheres e, logo, de uma sociedade mais justa.

Entendemos que essa lei é, ainda e decididamente, um passo importante para a erradicação da VBG, violência na base do género, e que servirá igualmente como um instrumento de trabalho, um suporte fundamental na educação das populações, nomeadamente, da juventude.

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Mari Malek, refugiada do Sudão do Sul

É verdade que a decisão, agora lei, não significa o fim dessa antiga e abjeta prática que tem na base fatores económicos, culturais e religiosos e que resulta da dominação suportada pelo abuso do poder e pela escravatura como sua máxima e hedionda expressão. Interesses de várias origens e de vários grupos vão procurar manter o status quo, como tem acontecido aliás, em países, como por exemplo, o Egipto onde, apesar da criminalização, a prática se mantém como das mais vulgarizadas no nosso continente. Mas é um passo importante.

Há poucos meses perguntava-se num encontro internacional no continente qual o papel da literatura para o desenvolvimento da África. Cada um de nós terá a sua honesta opinião e possivelmente alguns poderão pensar que pouco terá a ver uma coisa com outra. Poderá ser, mas, em nome do sonho, vai nesse dia um maior reconhecimento aos jovens africanos e africanas, concretamente esses, que continuam a escrever, a dar voz na música, no teatro e na dança, na pintura e em todas as artes, sobretudo as mais populares, em defesa de sociedades mais progressistas e mais justas.

Pela nossa parte, e falo pelas intervenções sobre os direitos humanos dos jornalistas, escritores, artistas, políticos, ativistas, fazedores de opinião e influenciadores, gentes e vozes sem fronteiras, continuamos a dizer que a nossa atuação não muda comportamentos, mas sem dúvida que é um instrumento de denúncia, de mobilização e de louvor.

Hoje e ainda na comemoração do Dia de África vai uma saudação especial ao Instituto Cabo-verdiano para a Igualdade e Equidade de Género, ICIEG, por ter aderido à plataforma mundial dos direitos das pessoas LGBTI. De registar que Cabo Verde é o primeiro país africano a assinar a Coalizão de Direitos Iguais, ERC, para a proteção e defesa dos Direitos Humanos das pessoas LGBTI.

Ainda, porque estamos em tempo de enaltecer, um cumprimento às associações da defesa dos direitos LGBT em Cabo Verde que há muito estão na luta contra a discriminação e pela igualdade.

Ao trazer para as comemorações do dia de África (que vai acontecer a 25) esses temas que incomodam e que, se calhar, alguns preferissem, em nome de um conforto imaginário, manter longe das páginas dos jornais, a intenção é tão só mostrar que nenhum de nós é melhor do que o outro e que o mundo é de todos e “ Lei/ Tud cristom, tud cimbrom/ tem direit na sê gota d’ága”, como escreveu Renato Cardoso. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 964 de 20 de Maio de 2020.

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Autoria:Dina Salústio,25 mai 2020 7:12

Editado porClaudia Sofia Mota  em  4 mar 2021 23:20

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