Quando todo mundo virou mestiço

PorEurídice Monteiro,30 jun 2020 7:43

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​Admitindo que as ilhas de Cabo Verde estavam desertas quando do seu achamento, o encontrão entre povos e culturas europeias e africanas, iniciado no século XV no solo cabo-verdiano, marcou um processo histórico de crioulização, relatado como caso singular no quadro das antigas colónias portuguesas em África.

Essa experiência histórica foi narrada a partir do ponto de vista colonial, isto é, da imaginação colonial portuguesa, onde o presumível impulso aventureiro de homens brancos europeus sobrepôs-se à suposta passividade de mulheres escravas negras africanas. Tal narração da história reforçou a memória da expansão europeia e da história colonial, silenciando múltiplas violências imperiais, entre as quais o próprio tráfico negreiro e a gestação do crioulo resultante deste processo de violência.

É preciso notar que, em Portugal, havia uma forte onda de antimiscigenação na década de 1930, quando abundavam ideias racistas de pureza racial. Muitos académicos e líderes políticos portugueses acabaram por adoptar a tese de que o mestiço seria um grande mal. Antropólogos como Eusébio Tamagnini ou Mendes Corrêa foram expoentes máximos de tais ideias na academia portuguesa. Na expressão de Mendes Corrêa, «o mulato é saudade de si mesmo».

Neste contexto, as ideias do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre que viriam fundar a teoria do lusotropicalismo marcaram, desde a década de 1930, uma mudança expressiva em relação à forma degenerativa como se encarava a mestiçagem. A análise de Freyre saiu do campo racial para o campo cultural. Tanto é que Freyre caracteriza a sociedade brasileira pela «harmonia racial», não havendo, portanto, o racismo e sim uma sociedade mestiça (o mito da democracia racial), sendo o mestiço uma obra e um símbolo da engenhosidade portuguesa. Essa proposta freyriana é importante para o seu argumento, porque Freyre trabalha com a ideia de linearidade temporal que esconderia os absurdos fabricados pelo colonialismo português e afirmaria que entre um senhor e um escravizado não havia oposição (dominação) e sim diferenciação. E foi um erro crasso ao retirar do sistema escravagista o seu próprio motor: estrutura de exploração.

Esse argumento é mobilizado para entender o regionalismo cabo-verdiano nos anos de 1930. E vários escritores cabo-verdianos adoptaram a ideia do tempo como uma utopia (gerou a briga entre quem vai e não vai para Pasárgada), bem como a admiração pelo país (Portugal) que gerou o crioulo-mestiço-mulato.É im­portante esclarecer que as ideias de Freyre, embora foram apropriadas pela elite intectual em Cabo Verde já na década de trinta, seriam adoptadas pelo regime salazarista após à II Guerra Mundial.

Antes da década de 1950, o luso-tropicalismo foi rejeitado pelo governo português pela importância que Freyre deu também à herança africana e árabe ao povo português. Já na década de 1950, para barrar a crescente tese de autoderminação dos povos africanos, Salazar viu no argumento luso-tropicalista a possibilidade de explorar o sentimento de integração multirracial. Com o argumento que a África portuguesa fosse «parte orgânica de Portugal». E passam a exaltar a ideia de uma cultura universal. Gilberto Freyre acabou sendo bajulado e patrocinado pelo governo salazarista

O regime aproveitou as interpretações de Freyre sobre a identidade brasileira e a ideia da expansão portuguesa para justificar a contínua ocupação das colónias e proclamar uma nação plurirracial, pluricultural e pluricontinental do Minho a Timor. Encontrando-se numa situação constrangedora perante o cenário internacional, o regime salazarista concebeu estratégias para camuflar a situação das colónias. A reforma dos fundamentos político-institucionais e ideológicos constituiu a via encontrada para a manutenção do império. Dessa forma, em 1951, depois da revogação do Acto Colonial e da sua integração na Constituição Política da República Portuguesa, Gilberto Freyre iniciou a sua viagem de estudo a Portugal e ao ultramar português. Esta foi patrocinada pelo governo salazarista, visando simultaneamente a explicitação teóricoformal do luso-tropicalismo e a sua apropriação políticoideológica por parte desse regime. Freyre avançava com a ideia de uma contribuição portuguesa ímpar à civilização mundial, assente na vocação colonial benigna, pacífica e plena de intimidades entre colonizador e colonizado.

Realce-se que o discurso colonial do Estado Novista e a doutrina luso-tropical tiveram uma grande repercussão em Cabo Verde, onde a chegada do sociólogo brasileiro foi aguardado com elevada expectativa. Sabe-se que as interpretações iniciais de Freyre já tinham um impacto em Cabo Verde onde, a partir da década de 1930, não se coibia de exaltar a mestiçagem como característica do arquipélago. Estribando-se no luso-tropicalismo como modelo teórico e pragmático, a elite intelectual cabo-verdiana percepcionava o arquipélago como um exemplo singular e paradigmático de regionalismo cultural europeu e, sendo assim, uma parte essencial do imaginado mundo luso-tropical. Inclusive, a proposta inicial era que fosse uma ciência, a luso-tropicalogia, com o fito de estudar o modo português de se relacionar nos trópicos.

O mestiço, na conclusão da proposta, luso-tropicalista passaria a defender a cultura portuguesa. O mestiço passaria a defender os interesses do pai (Portugal). Ele passaria a reprensentá-lo. Ou seja, o mestiço seria a continuação do poder do pai. Na verdade, isso foi (e é) muito perigoso. Foi perigoso, porque na administração colonial, o mestiço (cabo-verdiano) ficou com alguns cargos administrativos e diplomáticos. (Lembrar da desconfiança entre o pessoal da Guiné-Bissau em relação ao de Cabo Verde). É perigoso, porque, ao olhar pela cor, reproduzimos práticas colonialistas de acharmos melhor, mais bonito, mais limpo que o outro. Na época colonial, esse tipo de política tinha nome: «Dividir para Reinar». A França soube melhor empregar isso entre os Tutsis e Hutus. E deu no que deu.

Porto isso, quando todo mundo virou mestiço, a escravatura e a pretidão passaram a gerar mal-estar em Cabo Verde, um arquipélago que foi entreposto de escravos e onde está situada a primeira cidade construída por europeus em África para servir o tráfico transatlântico. Segundo padre António Vieira: «Há aqui [em Santiago de Cabo Verde, em 1652] clérigos tão negros como azeviche, mas tão compostos, tão doutos, tão grandes músicos, tão discretos e bem morigerados, que podem fazer inveja aos que lá [em Lisboa] vemos, nas nossas catedrais.» Este testemunho é visto como uma prova da elevação cultural do negro de Cabo Verde. Não obstante a ascensão social do mulato e do negro à chamada categoria de «branco da terra» desde os primórdios da colonização, emergiu, então, com o lusotropicalismo de meados do século XX, o discurso de exaltação do mestiço, ostracizando o negro, projectado como o inferior e incivilizado da nação crioula e associado com o natural da ilha de Santiago, o «badio».

Com isso, configuraram-se várias camadas de dominação e poder. O branco subjugou o negro e renegou o mestiço. O mestiço desprezou o negro, associando-o ao natural de Santiago, o badio. O badio de riba-Praia (Plateau) distinguiu-se do badio de baxu-Praia e do badio-de-fora (interior da ilha), que por sua vez apontaram com o dedo: «Olha, os pretos da Guiné!» 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 969 de 24 de Junho de 2020. 

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Autoria:Eurídice Monteiro,30 jun 2020 7:43

Editado porSara Almeida  em  24 nov 2020 23:20

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