John

PorCésar Isabel da Cruz,25 nov 2020 6:43

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​Não é cristão alegrar-se com a desgraça alheia. Mas, não terá havido, na ilha, fiel cristão que não se tivesse alegrado com o inglório fim de John, na fatídica madrugada do dia 25 de Novembro de 1947. O acontecimento foi, até, considerado por muitos, crentes, uma bênção mandada pela mão de Deus. Para outros, fantasiosos, "Face à recusa do governo de Salazar em permitir a descarga em Cabo Verde, o capitão, condoído, agiu intencionalmente, para salvar o povo faminto". Mas, na verdade, o encalhe de John se ficou a dever a inexplicada e grosseira negligência do seu imediato. Bendita negligência!

Construído no Bethlehem-Fairfield Shipyard, Baltimore, Maryland, em 1943, o SS (Steam Ship - navio a vapor) John E. Schmeltzer era um cargueiro da família “Liberty Ships” (Navios da Liberdade), produzidos em série nos Estados Unidos, durante a II Guerra Mundial, para suportar o esforço de guerra, no transporte para a Europa, de tropas, armamento, equipamentos e provisões. Em 4 anos, foram construídos 2.710 navios dessa categoria. Os 8 estaleiros montados para o efeito chegaram a entregar, em média, um navio por dia. A ideia era, construir muitos mais navios do que a marinha de guerra alemã, especialmente os temíveis submarinos, conseguisse afundar. Finda a guerra, os que conseguiram escapar foram afectados à marinha mercante. 

É assim que, na noite de 24 de Novembro de 1947, se encontrava navegando em águas de Cabo Verde, viajando de Rosário, na Argentina, para Gotenburgo, na Suécia, o SS John E. Schmeltzer, transportando um carregamento de cerca de 9.000 toneladas de milho a granel e alguma quantidade de ração animal em sacos. O Capitão, antes de se "retirar" (para o seu camarote), por volta da meia-noite, informou o imediato, que estaria no serviço de quarto das 4H00 às 8H00, que, por volta das 4H00 seriam avistadas as luzes de Ponta Machado (Farol Dona Maria, em São Pedro, na Ilha de S. Vicente) e que, nessa altura, o mandasse chamar. Algumas pessoas, que leram a acta da decisão do Comandante da Guarda Costeira dos E.U., sobre o recurso apresentado pelo imediato, contra a pena que lhe fora aplicada, por negligência no encalhe do navio, entenderam, por tradução descontextualizada do termo inglês "retire", que o capitão estava para se "reformar", o que não vinha ao caso. O que está escrito é que, "Around midnight, Appellant had been told by the Master, who was about to retire, that Point Machado Light should be sighted about 0400, 25 November, 1947, and directed to call the Master when the light was sighted. ". Aí, "retire" está no sentido literal, de se retirar para os seus aposentos. Mas o imediato não deve ter visto luz nenhuma. Ou, se viu, não fez caso, e não mandou chamar o capitão, como instruído. Durante o seu quarto de serviço não procurou determinar a posição do navio; não olhou para o radar, para ver se havia terra nas proximidades; e quando viu "terra ou nuvem em frente", não encetou nenhuma diligência, como inverter a marcha, e/ou mudar o curso do navio. Limitou-se a mandar chamar o capitão. Este, até conseguir chegar à ponte, adaptar a visão à escuridão da madrugada, sem lua, e ordenar, tudo à direita, depressa (hard right)!, já era tarde demais. Terminava assim, às 05H49 da madrugada do dia 25 de Novembro de 1947, a derradeira viagem do SS John E. Schemeltzer, encalhado nos lajedos de Canjana, nas proximidades de Praia Formosa, no extremo sudoeste da ilha de Santo Antão. Apesar da madrugada escura, sem lua, fazia bom tempo.

As ilhas atravessavam nesse ano o pico de mais um dos períodos de seca que, ciclicamente, atormentavam o arquipélago. A seca e a fome de 1947-1948 são consideradas as mais terríveis de que se tem memória. Citando Benilde Justo Caniato, da Universidade de S. Paulo, na sua obra, Cabo Verde – a fome em sua literatura: “Nas crises do seculo XX, Carreira (o historiador António Carreira) destaca a de 1921-1922, em que o povo se achou no ‘último estágio de miséria nua’, por ter consumido roupas, terras e jóias, acrescido por um obituário de 1921 de mais de 23 mil pessoas; também, a de 1941-1943, em que houve mortalidade pela fome de mais de 24 mil pessoas; e a de 1947-1948, cujas perturbações causadas pela deslocação de famintos impossibilitaram o controle do obituário”.


Dada a nova do encalhe de um navio carregado de milho em Canjana, hordas de famintos, provenientes de todos os recantos da ilha, para aí convergiram. Debilitados, sem forças para resistir à longa e penosa jornada, muitos sucumbiam pelo caminho. Dos que conseguiam chegar, esfarrapados uns, completamente nus, outros, muitos se afogaram, atirando-se ao mar, tentando recolher milho do fundo. Outros morreram arfados, devido à fermentação de milho cru no estômago, ou de disenteria provocada pelo consumo de milho já apodrecido. O milho de John também matou muitos famintos. Mas, não fosse ele, muitos mais não teriam escapado a uma morte certa.


O navio, de início, ficou preso aos rochedos, pela proa. Na tentativa de o fazer ficar mais leve, e soltar-se, foi alijada parte significativa da carga do porão de vante. Mas as vagas acabaram por o atravessar sobre os rochedos, pondo fim a qualquer esperança de prosseguimento da viagem.

À volta do acontecimento surgiram muitas narrativas fantasiosas, incluindo umas dando conta do estabelecimento de uma comunidade de troca entre os famintos e a tripulação do navio, de milho por lata de água, e do pagamento de um binde de cuscus pelo sepultamento de cada cadáver de faminto. Mas isso não tem o mínimo cabimento. Um navio é uma pequena cidade flutuante, que tem depósito de água para toda a viagem, podendo mesmo dispor de destilador, para produzir água doce. A estória de binde de cuscus enquadra-se noutro contexto, no das epidemias que assolaram as ilhas noutras épocas. As famílias que tinham condições preparavam um binde de cuscus para as pessoas que iam sepultar o corpo do ente querido. O local do encalhe ficava na rota dos "vapurin d'água" (navios-cisterna que abasteciam de água doce a ilha de S. Vicente) na sua viagem diária Mindelo/Tarrafal, de modo que, mesmo que o navio não dispusesse de modernos meios de comunicação, seria facilmente visto.

Segundo o Comandante Alberto Pancrácio Lopes, à altura, jovem com 22 anos, residente em Tarrafal de Monte Trigo, e tripulante dos "vapurin d' água", ele foi dos primeiros a subir a bordo, logo ao primeiro dia do encalhe, acompanhando o Cônsul inglês, Sr. Winston, o Chefe da Alfândega, Sr. Arnaldo Santos, e outras autoridades, idos de S. Vicente no "vapurin d'água", e que ele transportou de bote para o costado de John. O Comandante Pancrácio diz que o navio devia estar a fazer também o papel de navio-abastecedor para a frota da sua companhia, pois levava “uma fortuna” em louças, talheres, e rouparia. Segundo o mesmo, o Capitão do navio quis oferecer uma máquina de escrever ao Cônsul, ao que se opôs firmemente o homem da Alfândega. A carga, e todos os pertences do navio, eram material não despachado, agora sob custódia da Alfândega, pelo que nada saía do navio. Disse mais, o Comandante Pancrácio, que o cenário dos famintos descendo para Canjana se assemelhava às cenas de ataques de hordas de índios, que mais tarde veríamos nos westerns, no cinema. Afirma, ainda impressionado, que nunca vira na vida tantos piolhos quantos os que “ferviam” na cabeça de uma rapariga, que se atirara a uma porção ração animal (tipo sêmea), acabando por morrer engasgada.

Contrariamente ao que se possa pensar, não se fez móia da carga do navio. E não houve nenhum programa de distribuição de milho aos famintos. O navio ficou encalhado sobre os rochedos com mar a separá-lo de terra. Para além de ser preciso nadar para se chegar perto, não havia como escalar um navio tão alto. O milho de que as pessoas se apoderaram foi o inicialmente atirado borda fora, na tentativa de fazer soltar o navio, e o que cairia ao mar, depois, durante as operações de transbordo da carga.


Não havendo mais nada a fazer, a tripulação do navio foi, poucos dias depois, evacuada, para S. Vicente, e depois para os Estados Unidos. Os salvados, o navio e a sua carga, eram agora pertença dos seguros, cujos representantes em Cabo, se encarregaram de recuperar, como é norma nesses casos.

O Sr. Alhinho, Alexandre Maria Alhinho, ‘metropolitano’, alentejano da cidade de Moura, ex-sargento do exército, residente em S. Vicente, foi contratado para a operação de recuperação dos salvados do naufrágio. Constituiu a sua equipa com gente levada com ele de S. Vicente, sendo o seu braço direito o Sr. Marciano (que anos mais tarde viria a ser funcionário da JAPA – Junta Autónoma dos Portos do Arquipélago, antecessora de Enapor) e gente contratada nas comunidades próximas. Do Tarrafal, contratou para cozinheira “Nha Zabel d’ Aninha”, que se mudou para Canjana, com os seus filhos, incluindo uma filha na casa dos 17 anos, Zeferina Isabel Fortes (Dona Pinga), que viria a ser mãe de 4 filhos seus. Contrariamente ao que se chegou a escrever em artigo de jornal, supostamente citando a Dona Pinga, Carlos Alhinho, o primeiro filho, não nasceu em Canjana. Ele veio nascer a S. Vicente (10/01/1949). O segundo filho é que nasceu aí, a 07/12/1953, durante a fase de desmantelamento do navio.

Sob o controle do funcionário da Alfândega, para aí destacado, o milho dos porões do navio foi transferido para botes e lanchas, que o levariam para os navios Carvalho e Bita que, por sua vez, o transportariam para S. Vicente. O Sr. Alhinho construiu um engenho, com um cabo e um cesto, tipo teleférico, para estabelecer a ligação terra/bordo. Para o transbordo do milho, construiu uma rampa, tipo funil, onde se lançava a carga, para cair dentro dos botes. Nessas condições precárias, parte significativa da carga ia caindo ao mar. Não é de descartar que o Sr. Alhinho tenha sido intencionalmente menos eficiente nesse aspecto, para permitir que houvesse milho suficiente a cair ao mar, para ser recuperado pela população faminta de Canjana. O Sr. Manuel Fortes, Ti Manel, filho de Nha Zabel d’ Aninha, não esconde, ainda hoje, a sua grande admiração pelo Sr. Alhinho, pela sua engenhosidade, capaz de inventar soluções originais para os mais variados problemas.

Em Canjana foram chegando, e se estabelecendo gente de todos os recantos da ilha, às vezes famílias inteiras (ou, o que delas restava). Em Santo Antão, quase todo o mundo ouviu falar de John, teve um parente que esteve em Canjana, ou que aí morreu. O milho era recuperado do mar, essencialmente por marinheiros e mergulhadores das comunidades piscatórias de Janela e de Cruzinha. Muitas pessoas morriam por problemas causados pelo consumo do milho cru, ou já apodrecido. Conta-se que, um faminto de Penedo de Janela pediu a marinheiros dos botes que o levassem para Canjana, para ele saciar a fome, para comer, mesmo que comida o “comesse”. Eles fizeram-lhe a vontade. Levaram-no. Ele comeu, encheu o estômago de milho cru, e morreu inchado. Tinha-se satisfeito o último desejo de um faminto. Havia uma grande mortandade. O Sr. Alhinho mandou construir um cemitério com cerca de 340m2, a uns 300 metros a noroeste do local do encalhe. O cemitério, bem como as ruínas das habitações, são bem visíveis através do Google Earth.

Para além das pessoas que se fixaram em Canjana (provisoriamente), muitas iam para lá adquirir algum milho, por compra, ou por troca, por água, lenha e produtos agrícolas, percorrendo longas distâncias. Botes de Janela voltavam carregados de milho, numa penosa travessia. Foram botes até, de Salamansa, em S. Vicente. O milho transbordado para os botes, e depois para os faluchos, foi transportado para S. Vicente e armazenado no “Canalin” da Millers, (na zona da ex-Retimar). Muito desse milho apanhou água do mar, e não prestava para o consumo humano. A casa do Sr. Alhinho comercializou parte do milho. Dona Birita, jovem caseira da família, me disse que tinha instruções para vender às pessoas milho bom. O milho ardido pela água do mar, ela podia dar, para as pessoas alimentarem os seus animais. Muitas vezes, condoída, dava milho bom, a quem não podia comprar, e dizia à Dona Auta (mulher do Sr. Alhinho) que era milho estragado. Para Dona Birita, o Sr. Alhinho era um homem bom, um santo homem.

As operações de descarga atravessaram o ano de 1948. Nesse ano houve alguma chuva, pouca, mas cultivou-se milho do John, e diz-se que houve colheita nas zonas altas. Ainda hoje, há quem se gabe de ter sementeira, e de comer milho descendente do milho dos porões de John (se calhar, isso valoriza mais as espigas de milho, e contribui para a criação da tal narrativa turística que alguns advogam).

Finda a descarga, e a recuperação do que era recuperável no navio, o Sr. Alhinho e equipa voltaram para S. Vicente, seguindo mais tarde para Janela, para o desmantelamento de D. João de Castro, navio hidrográfico português, que encalhara na praia do Penedo, menos de 2 meses antes do encalhe de John, a 2 de Outubro de 1947.

Em Julho de 1952, terminado o desmantelamento do navio Dom João de Castro, o Sr. Alhinho e equipa, agora reforçada, regressariam a Canjana, para o desmantelamento de John. De janela foram Nhô Tiôfe (Sr. Teófilo do Rosário, que para aí fora com o Sr. Alhinho, como apontador) com esposa, dois filhos, e um sobrinho; Lela Penha e esposa; Eduardo Silva (Gêgê d’ Eduardo), esposa e filho (Espírito Santo silva); Eduíno Silva (Eduíno d’Bia d’Eduíno, de Rua de Matijim); Custódio Silva (ainda criança), irmão de Eduardo e de Eduíno Silva, e a mãe deles; O Sr. Alhino levou a casa toda (mulher, filhos e empregada).

Canjana voltava assim a ser repovoada, pela equipa do Sr. Alhinho e respectivas famílias, e por outros trabalhadores contratados das redondezas. Foram levadas três crianças em idade escolar, que deixaram a escola em Janela com a 3ª classe: Valdemar (Sr. Val, ex-funcionário das Finanças), Teófilo Menezes (o Falecido Dr. Menezes), filho e sobrinho do Sr. Teófilo Rosário, respectivamente, e Custódio Silva, o irmão mais novo dos Silvas. O Sr. Teófilo, que tinha o 5º ano dos liceus, dava-lhes aulas de preparação, para irem fazer o exame externo da 4ª classe em Porto Novo, na Escola d’Rei. Para esse fim se mudou da localidade de Baboso para Canjana outro rapazinho ( o Sr. Pio, ex-funcionário dos Serviços de Viação em S. Vicente, e ex-polícia). Não é que houvesse “escola” em Canjana, como alguns afirmam.

Foi durante o desmantelamento de John que o Sr. Celestino Conceição, conceituado comerciante mindelense, perdeu o pé, ganhando em seu lugar uma prótese, que lhe valeria a alcunha de “Celistine-pê-d’pau”. Segundo Dona Birita, ele tinha acabado de passar pela cozinha para tomar um “gulin d’cafê”, como habitualmente, antes de pegar no trabalho. Alguém bateu numa chapa, que se soltou e o atingiu numa perna. O Sr. Alhinho tirou um homem para o Porto Novo, com um telegrama para S. Vicente, a pedir um navio para o evacuar. Passámos o dia todo a colocar-lhe panos para estancar o sangue. À tardinha chegou o navio. Agora nós todos, a Dona Auta, filhos, e eu, regressámos a S. Vicente, a acompanhá-lo. É que, sabe, a Dona Auta e ele eram irmãos!

John foi totalmente esquartejado, e enviado para S. Vicente, aos pedaços, e posteriormente para Portugal, para refundição e, quiçá, dar origem a um novo navio. Por lá ficaram apenas alguns poucos pedaços de chapa e cabos. O veio, muito pesado, difícil de recuperar, com os meios técnicos então disponíveis, ficou no local. Mas Ti Manel não duvida que, com os meios de que disporia hoje, o Sr. Alhinho não o deixava para trás. O Sr. Alhinho livrou assim o SS Joh E. Schmeltzer, um combatente sobrevivente da II Guerra Mundial, de ficar sobre os rochedos, e se transformar em “uma embarcação velha e deteriorada”, apresentando “um cenário desolado e triste em terra firme” (A mimese e a magia dos naufrágios na literatura – Elvira Reis e Wlodzimierz Szymaniak).

Há quem defenda a protecção do local, como sítio histórico, a construção de vias de acesso, a construção de uma narrativa do acontecimento orientada para o aproveitamento turístico, e “sensibilizar as agências turísticas santantonenses com vista à transformação do naufrágio do navio norte-americano ‘John S. Schmeltzer’ em 1947, na Praia Formosa, num produto turístico de Santo Antão”. No ano passado, pelo 72º aniversário do encalhe, a Câmara Municipal do Porto Novo organizou uma excursão ao local, por via marítima, levando “empresários e alguns investidores ligados ao sector turístico para conhecerem toda a encosta litoral do sudoeste deste município e avaliarem a possibilidade de investimentos no segmento de sol e praia”.

Quanto a mim, o acontecimento deve ser divulgado, e a memória preservada, sim, mas, para o conhecimento do percurso sofrido da nossa Nação, pela actual e pelas futuras gerações de cabo-verdianos, para que possamos cuidar de não mais termos a nossa sobrevivência colectiva dependente de acontecimentos fortuitos, como foi o caso do encalhe de um navio. Devemos ter sempre presente que - e as cenas de distribuição de cestas básicas às famílias carenciadas, durante o estado de emergência devido à Covid-19, vieram-no-lo lembrar - nunca saberemos quando é que poderemos afirmar:

- Famintos, nunca mais!

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Autoria:César Isabel da Cruz,25 nov 2020 6:43

Editado porSara Almeida  em  30 ago 2021 23:21

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