O País e o desenvolvimento, uma pista a explorar

PorSilvino de Oliveira Lima,3 mai 2021 7:47

Engenheiro Civil – antigo Ministro das Obras Públicas
Engenheiro Civil – antigo Ministro das Obras Públicas

Nos avanços e recuos do escalar da montanha, Cabo Verde, talvez pela necessidade de manter bem acesa a chama da alma e não perca o olimpo da ambição, tanto repete que no desenvolvimento o povo das ilhas é o seu melhor recurso que dizê-lo tornou-se um hábito, ainda que, visto de fora, um despropósito – recurso sujeito um compósito do mesmo processo.

De dentro, porém, refletindo os atropelos da história onde recuo na escorregadia escalada significa passado colonial e razias humanas de muitos milhares, o cabo-verdiano sabe que a ideia do melhor recurso de modo nenhum pode ser entendida como expressão vazia, antes, bandeira para acompanhar a corrente geracional e manter sempre viva a esperança de destino seguro, nem que na cerrada escuridão dos piores momentos. Compreende-se. Porém, outra evidência é a necessidade de acautelar circunstâncias que puxam para a contramão, uma vez que nem sempre o recurso estará a conjugar com os objetivos do coletivo da nação, o que já faz questionar se do facto de ter havido sempre um modo de sair do breu dos tempos não poderá resultar excessiva confiança a alimentar o relaxamento, consequentemente, todos os buracos se taparem e não haver luz para enxergar a trilha.

A perseverança nunca descarta o pior cenário e já por isso as nações, desde as mais fracas às mais poderosas, procuram forjar sua história no interesse nacional, eixo fundamental que alavanca a política de alinhamento com o mundo, o critério não sendo outro que não o modo como sopram os ventos. É assim desde os primórdios dos tempos. E Cabo Verde, ainda no patamar dos frágeis a consolidar a sua soberania, sabe, tanto ou mais que qualquer outra nação, que abraçar esta outra bandeira não é senão uma questão vital. Logo, é fundamental saber como jogar os ventos no tabuleiro dos interesses nacionais para acertar passo com a atualidade, o que obriga solução a dois problemas: mentalidade de flagelado de seca já dissonante com os avanços tecnológicos do mundo de hoje e não se destorça a visão do futuro; défice na orgânica político-administrativa – discutido já noutra abordagem –, ausente a previsão de estância para pensar o futuro e fornecer os instrumentos estratégicos necessários à ação governativa, o aproveitamento massivo da inteligência nacional a truncar-se.

Tão fundamental como desbloquear tal aproveitamento é a realização daquilo que a pandemia veio alertar, a necessidade de assentar a economia em bases seguras, desastres futuros como os atuais jamais venham a acontecer. É óbvio. De todo o modo, avançar nesse sentido requer ainda a criação de outras condições, entre elas a necessidade de reduzir ou anular a dependência da reciclagem da ajuda pública vinda do exterior, fonte de comodismo, relaxamento, uma plêiade de maus costumes que obriga a marcar passo, sem que isso venha a significar redução ou anulação de outro tipo de cooperação. O essencial nessa mudança já não seria a `manteiga´, mas a pedagogia para chegar ao `pau´ com que ela se mexe tendo em vista produto de lavra própria. Seria traição ao critério dos ventos fosse o asiático o parceiro escolhido para iniciar o bate-papo em torno da nova preferência? Não, se assim fosse talvez o ocidental não tivesse descoberto a corrente na direção leste que leva a ambiente que melhor serve para aninhar o seu capital, quando o lado de cá – descapitalizado, menos experiente menos esperto – o melhor a fazer é seguir a correnteza, porém, já para ir negociar tratamento de empreendedorismo e bem-fazer para que as escondidas ‘pérolas’ da nossa reserva venham já seres novos, aptos para confrontar os grandes desafios a que obriga o desenvolvimento dessas ilhas.

Seria certamente das melhores coisas que se possa fazer, pois mesmo que das ditas pérolas fossem enviadas 200, 300 ou 400 e só a terça viesse reconhecida com a etiqueta de ser novo, só isso já bastaria para levar a cabo uma pedagogia consequente, inundar essas ilhas de uma mentalidade nova, empreendedora, calculista no bom sentido, paciente acima de tudo, porque, vendo bem, o estágio superior de desenvolvimento que almeja o cabo-verdiano exige consonância com a reconfiguração do mundo em processo, potenciando nova geografia de oportunidades, nova geometria das rotas marítimas, vez à África, consequentemente, novo tempo a surgir para a centralidade de Cabo Verde, melhor oportunidade para a exploração da posição geoestratégica e o desejado salto para o progresso. Porém, uma reserva: se vamos todos no mesmo barco, há que cuidar, não só da vida dos que atualmente aí vão dentro, mas também doutros que nas várias etapas do salto vão entrando, cuidar do estado do barco, dos instrumentos que permitem driblar os escolhos de alto mar, pois só assim será possível chegar a destino seguro. É neste sentido que já se chamou a atenção para uma urgência, o buraco institucional preciso de tapar já que priva o país do essencial para ampliar a visão do futuro, livrar de atropelos a caminhada.

Estaremos efetivamente a cuidar do barco de forma correta? Mais explicitamente, estaremos a cuidar do território das ilhas de modo a suportar a carga futura do desenvolvimento já acompanhado, possivelmente, de uma população de alguns milhões? O que importa saber é como irão resistir à pressão as ‘joias’ que atualmente nos levam ao sonho de um turismo de excelência, as praias, os encantos do interior, se tudo continuará a ser nossas joias não comprometendo a sustentabilidade. Urge uma resposta. Porém, como diria o poeta, o território das ilhas precisa dum poema diferente para o território das ilhas, pois se as planas onde estão as praias ainda são aquelas onde a produção e a distribuição de água é mais factível, há que prever um diferencial de pressão que exige compensação, isso só podendo fazer-se com uma outra forma de olhar para as regiões mais montanhosas, particularmente, as que o poeta se acostumou a ver como rocha nua, outro modo de dizer, coisa que nada presta. Há que convir, no entanto: tal compensação bem poderia encontrar-se no sul das duas ilhas gêmeas do norte, pois aí os grandes avanços na técnica de desmonte já poderiam dar uma resposta.

Haverá melhor forma de responder a isso que deitar abaixo gigantescos volumes das montanhas ali existentes e ter toda a compensação necessária para equilibrar a geomorfologia do arquipélago? Ou assustar-se-ia com tamanho lixo resultante de parto tão cirúrgico, para se perder na noite dos tempos à espera de corajosos para derrubar as primeiras pedras? Não, sorte é que temos aí bem a mão outra joia, o mar profundo para acomodar ilimitadas quantidades de lixo rochoso e possibilitar vasta planície a unir as duas as duas ilhas, uma parte desenvolvendo-se no mar, outra nos territórios sul de S. Vicente e Santo Antão. Ora, fazendo isso, já muitas outras coisas boas poderiam acontecer: o Porto Grande já seria grande de facto e merecedor do nome que tem; campo para desenvolver uma grande indústria naval não seria um problema porque já haveria planície para isso; galo a cantar para a velha e pequena baía já não seria necessário porque já haveria bicho de maior fôlego que, tê-lo na região em abono da missão, já seria grande passo para no futuro resolver também a nudez de outras rochas, vesti-las de seda já produto de própria lavra. Sendo assim, por que não agir para ter cá o bicho quando mais fácil seria o escalar da montanha?  

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1013 de 28 de Abril de 2021. 

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Autoria:Silvino de Oliveira Lima,3 mai 2021 7:47

Editado porAndre Amaral  em  7 mai 2021 5:19

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