Faça favor de entrar senhor 2021

PorFrancisco Carapinha,11 jan 2021 9:05

​É habitual, no final de cada ano, fazer-se um balanço do que aconteceu, ou poderia ter acontecido, nesse mesmo ano.

Este é o período em que somos “bombardeados” com os balanços económicos, sociais, políticos, culturais, desportivos etc.

As mais diversas actividades gostam, nesta altura, de fazer o seu balanço e até algumas previsões ou desejos para o ano seguinte.

E se alguns aproveitam para pintar esses balanços com cores enganadoras, tal qual os vendedores da banha de cobra, ou os políticos em tempo de campanha eleitoral, há outros mais sérios, que além de fazerem o habitual balanço, conseguem também avaliarem-se e apresentarem-nos verdadeiros estudos sobre o que se passou, bem ou mal, no ano que finda. Alguns ainda acrescentam mais qualidade a esses balanços, quando também apresentam reflexões apontando caminhos para um futuro próximo.

Dos mais simplistas aos mais complexos, os balanços, fazem parte do nosso quotidiano de fim de ano.

Neste final de 2020, o “annus horribilis” para praticamente toda a humanidade, é quase certo que todos os habituais balanços anuais, apresentarão nas suas páginas, as palavras “COVID-19” e “pandemia”.

Em alguns sectores, os balanços serão diminutos e reduzidos a meia dúzia de palavras, já que praticamente estiveram todo este ano de 2020 sem poderem desenvolver as suas actividades.
Está incluído neste caso, o sector desportivo que, um pouco pelo mundo inteiro, teve uma paragem obrigatória, havendo casos de grandes eventos adiados e de outros cancelados.

Cabo Verde foi um dos países que suspendeu a sua actividade desportiva e, exceptuando o xadrez, todas as modalidades ficaram paradas a partir de Maio passado. Portanto, o balanço deste ano, para essas modalidades, é natural que seja reduzido a poucas linhas escritas e muitas em branco.

Embora não possamos dizer que seja um balanço de encher o olho, o certo é que o nosso xadrez consegue atravessar esta pandemia sem parar, muito por força do on-line, que nos permitiu estar sempre em actividade.

No entanto, essa actividade on-line trouxe-nos algo que não é habitual na modalidade: alguma descriminação social.
Enquanto que nas nossas actividades presenciais, para cada 2 jogadores necessitamos de material que é relativamente barato, tornando o xadrez numa modalidade de custos baixos. Nas actividades on-line, já cada participante necessita de ter um computador, na pior das hipóteses um telemóvel e de uma ligação à internet. Ou seja, o on-line, ao contrário do presencial, dificilmente pode ser praticado por quem tenha baixos recursos financeiros, colocando uma barreira praticamente inexistente nas actividades presenciais e criando assim, o que apelidei de descriminação social.

Em jeito de balanço, posso dizer-vos que quando 2020 entrou, estava convencido que iria ser um excelente ano para o nosso xadrez, pelos menos os indicadores assim o diziam:

• I Open de Cabo Verde, que já tinha garantido a presença de vários mestres estrangeiros, entre os quais o campeão da Europa de 2008;

• Jogos da CPLP com o xadrez a fazer parte, pela primeira vez;

• 44.ª Olimpíada de xadrez;

• Várias competições e formações programadas.

E o ano até começou bem, com a contratação e a apresentação do MI Mariano Ortega, como Director Técnico Nacional, para nos ir preparando para a competições internacionais que se avizinhavam e para outras actividades previstas; com a realização de um torneio com os reclusos na Cadeia do Sal, seguindo o programa social da modalidade; o com título de Árbitro Internacional que me foi atribuído pela FIDE (Federação Internacional).

Mas em Março, assim que nos apercebemos do que aí vinha, tratamos logo de cancelar o Open e começamos a olhar para o on-line como alternativa. Por isso, a Federação Cabo-verdiana de Xadrez (FCX) associou-se à Chess.com para que as nossas actividades decorressem na sua plataforma.

E foi com o on-line que se criou o lema: “Eu fico em casa, jogo xadrez”, organizando diversas competições nacionais e participando em algumas outras internacionais, inclusivamente em matches amigáveis (Angola e Ghana).

Mas a retoma do presencial foi sempre o objectivo, pelo que logo em Agosto, a FCX apresentou o seu plano sanitário para retoma das actividades presenciais.

Em Outubro, em plena pandemia, o xadrez nacional teve a coragem e a ousadia de realizar o seu Campeonato Nacional Individual Absoluto, retomando assim as competições presenciais e consagrando o MI Mariano Ortega como Campeão Nacional de 2020.

Este campeonato ficará para sempre na história do desporto cabo-verdiano, como sendo, de entre todas as modalidades federadas, o primeiro realizado em tempos de pandemia.

As actividades previstas para 2020, foram completamente enfiadas na gaveta e substituídas pelo possível para este ano pandémico, que não nos deixa muitas saudades e que queremos rapidamente ver passado, por isso só nos resta ter esperança que o próximo ano seja melhor e dizer-lhe:
“Faça favor de entrar senhor 2021.”

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 997 de 6 de Janeiro de 2021. 

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Autoria:Francisco Carapinha,11 jan 2021 9:05

Editado porAndre Amaral  em  12 mai 2021 23:21

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