1. Sumário executivo
2026 é o período mais intenso, mas a intensidade está concentrada. Em 101 dias foram publicados 314 movimentos (93.3 por 30 dias, mais do dobro de 2016 e 2021) e 123 saídas, contra 43 (2016) e 36 (2021) na mesma janela. Porém, 69 dessas saídas são fins de comissão de diretores de agrupamentos escolares e de delegados ministeriais (60 da Educação, 9 da Agricultura), quase todos publicados em agosto.
No topo da administração, 2026 não é mais agressivo que 2016. Retirando escolas e delegações, a relação saídas/entradas é de 30 saídas por 100 entradas em 2026, contra 42 em 2016 e 26 em 2021.
Alternância e continuidade deixam padrões distintos. Em 2021 predominam gabinetes (104 movimentos, 40%) e reconduções (18); em 2016 pesam dirigentes, institutos e diplomacia (13 movimentos de embaixadas e consulados); em 2026 a mudança desce à rede desconcentrada e às forças de segurança.
O contrato de gestão ganha terreno como forma de provimento: 3 (2016) → 9 (2021) → 21 (2026, em apenas 101 dias).
A retroatividade é estrutural. Entre 56% e 65% dos atos produzem efeitos antes da publicação; em 2021, 53 atos foram publicados mais de 60 dias depois de produzirem efeitos.
Poucas pessoas atravessam as alternâncias. Há 39 nomes comuns entre 2016 e 2021, 14 entre 2021 e 2026 (a maioria como saídas em 2026) e só 3 nos três períodos.
A comparação tem limites de período e de cobertura; a nota metodológica da secção 3 resume os cuidados adotados.
Figura 1 — Entradas e saídas publicadas nos primeiros 101 dias após a posse. À direita, sem diretores de escolas e delegados.
2. Enquadramento
Os três quadros registam, pessoa a pessoa, os atos publicados no Boletim Oficial que nomeiam, reconduzem, exoneram ou fazem cessar funções de membros do Governo, dirigentes, membros de órgãos de institutos e empresas públicas, pessoal de gabinete, chefias militares e policiais e diplomatas. 2016 e 2026 são mudanças de força política (o MpD sucede ao PAICV em 22/04/2016; o PAICV regressa após as legislativas de 17/05/2026, com posse a 19/06/2026). 2021 é a recondução do MpD, com um VIII Governo empossado a 20/05/2021. 2016 e 2021 cobrem seis meses; 2026 cobre, por enquanto, 101 dias. Para comparar, usa-se sempre que possível a mesma janela de 101 dias.
3. Nota sobre a comparação
Os dados de 2026 abrangem 101 dias, enquanto os de 2016 e 2021 cobrem cerca de seis meses. Para comparar o ritmo, foi usada uma janela comum de 101 dias. Como escolas e delegações foram registadas de forma mais completa em 2026, apresenta-se também um «núcleo comum» sem essas categorias. As conclusões são indicativas.
4. Análise política
A leitura política parte do que o Boletim Oficial permite ver — quem sai, quem entra, onde e por que instrumento — e não dos motivos de cada ato. As interpretações abaixo apresentam as leituras possíveis, sem juízo sobre o mérito das pessoas envolvidas.
4.1 Alternância versus continuidade
Os dados confirmam o padrão esperado. Nas alternâncias (2016, 2026) a relação saídas/entradas é elevada; na continuidade (2021) é baixa (27 por 100 na janela de 101 dias) e a atividade concentra-se na reconstituição dos gabinetes (104 movimentos) e em reconduções (18). A continuidade também gera mudança, mas de natureza organizativa: novos ministérios, novas secretarias de Estado e redistribuição de pessoal de confiança entre gabinetes (por exemplo, assessoras que acompanham a ministra da Justiça para a Defesa).
4.2 Intensidade e alcance vertical em 2026
O traço distintivo de 2026 é o alcance vertical: a mudança chega a diretores de agrupamentos escolares, delegados do Ministério da Agricultura, hospitais e comandos policiais, e 12 registos invocam expressamente a «reorganização governamental e nova orientação». Em 2016, a renovação concentrou-se no topo — direções-gerais, institutos (INPS, INE, Estradas, INSP) e embaixadas. Duas leituras são defensáveis. Na primeira, trata-se do exercício legítimo de cargos de confiança: as comissões de serviço são, por natureza, amovíveis, e um novo programa de governo precisa de executores alinhados, sobretudo na Educação, onde as substituições de agosto antecedem o ano letivo. Na segunda, a extensão a cargos de gestão escolar e de serviços locais aumenta o risco de politização de funções técnicas, de perda de memória institucional e de instabilidade nos serviços. Os dados não permitem escolher entre as duas; permitem apenas localizar onde a questão se coloca.
Convém não sobrestimar a diferença: no núcleo comum, 2026 regista 54 saídas para 179 entradas em 101 dias (30 por 100), abaixo de 2016 (42 para 100, 42 por 100). A substituição diplomática, que em 2016 foi significativa (fins de comissão e novas nomeações de embaixadores em Angola, Bélgica, EUA, França e Portugal), ainda não aparece em 2026.
4.3 Instrumentos de provimento
O uso crescente do contrato de gestão (3 → 9 → 21) desloca o provimento de dirigentes da comissão de serviço clássica para um vínculo com objetivos e prazo. Pode reforçar a responsabilização por resultados, mas também torna o cargo mais dependente da decisão governamental. Em 2026 há um episódio revelador: nomeações nas Finanças publicadas como despachos no BO n.º 147 foram anuladas e republicadas como contratos de gestão. As substituições (interinidades) foram mais usadas em 2016 (9), típico de uma reestruturação inicial.
4.4 Território
A administração permanece muito centrada em Santiago (79%, 71% e 63% dos movimentos). A subida das outras ilhas em 2026 (23%, contra 4% em 2016) resulta sobretudo das escolas e delegações, e não de uma desconcentração dos cargos de direção.
4.5 Circulação de pessoas
Há 39 nomes coincidentes entre os registos de 2016 e 2021, 14 entre 2021 e 2026 e 3 nos três períodos. Em 2026, a maioria dos registos coincidentes com 2021 corresponde a saídas. A coincidência de nomes deve ser interpretada com cautela: não identifica, por si só, a continuidade da mesma função nem exclui homónimos.
4.6 Transparência e segurança jurídica
A retroatividade generalizada, os atrasos de publicação (sobretudo em 2021) e as correções frequentes em 2026 (18 registos com retificação, anulação ou republicação associadas) são transversais aos três governos. Enfraquecem a previsibilidade e o controlo público dos atos. Publicar mais depressa, como em 2026, não chega se a qualidade da primeira publicação obrigar a corrigir depois.
4.7 Cautelas de interpretação
Os dados descrevem publicações no BO, não motivações nem avaliações de desempenho.
O período de 2026 é curto: diplomacia, empresas públicas e institutos costumam mudar mais tarde, pelo que as comparações de composição podem alterar-se.
Uma saída não é necessariamente uma exoneração política: inclui fins de mandato, pedidos do próprio e reestruturações orgânicas.
Figura 2 — Composição dos movimentos por categoria de cargo (período integral de cada quadro).
5. Quadro comparativo
| Indicador | 2016 | 2021 | 2026 | Leitura / nota |
| A. Contexto político e âmbito | ||||
| Natureza da mudança de Governo | Alternância | Continuidade | Alternância | 2016: PAICV → MpD. 2021: recondução do MpD (VIII Governo). 2026: MpD → PAICV. |
| Data de posse do Governo | 22/04/2016 | 20/05/2021 | 19/06/2026 | |
| Fim do período analisado | 22/10/2016 | 20/11/2021 | 28/09/2026 | 2026 cobre apenas os primeiros 101 dias; 2016 e 2021 cobrem ~6 meses. |
| Dias cobertos | 183 | 184 | 101 | |
| B. Volume — período integral de cada quadro | ||||
| Movimentos registados | 242 | 261 | 314 | |
| Pessoas distintas | 234 | 240 | 307 | Uma pessoa pode ter mais de um movimento (saída + nova nomeação). |
| Entradas (nomeações, colocações, reconduções) | 176 | 205 | 186 | |
| Saídas (exonerações, fins de comissão/mandato, cessações) | 66 | 54 | 123 | |
| Outros (anulações de publicação, pré-aposentações) | 0 | 2 | 5 | |
| Saídas por 100 entradas | 37,5 | 26,3 | 66,1 | Indicador de substituição: quanto maior, mais a entrada de novos dirigentes é acompanhada da saída dos anteriores. |
| Movimentos por 30 dias | 39,7 | 42,6 | 93,3 | Ritmo de publicação; em 2026 é mais do dobro de 2016 e 2021. |
| C. Janela comparável — primeiros 101 dias após a posse | ||||
| Movimentos (≤ 101 dias) | 144 | 170 | 314 | |
| Entradas (≤ 101 dias) | 101 | 134 | 186 | |
| Saídas (≤ 101 dias) | 43 | 36 | 123 | |
| Saídas por 100 entradas (≤ 101 dias) | 42,6 | 26,9 | 66,1 | |
| Entradas (≤ 101 dias, sem escolas e serviços desconcentrados) | 100 | 132 | 179 | Núcleo comum: exclui diretores de agrupamentos escolares e delegados, só recolhidos de forma sistemática em 2026. |
| Saídas (≤ 101 dias, sem escolas e serviços desconcentrados) | 42 | 35 | 54 | |
| Saídas por 100 entradas — núcleo comum | 42 | 26,5 | 30,2 | No núcleo comum, 2026 (≈30) fica abaixo de 2016 (≈42) e próximo de 2021 (≈27): a intensidade de 2026 concentra-se na Educação e nos serviços desconcentrados. |
| D. Composição por categoria de cargo (% dos movimentos do período) | ||||
| Membros do Governo | 5,4 | 11,1 | 6,4 | |
| Gabinetes ministeriais e do PM | 24,8 | 39,8 | 20,4 | |
| Dirigentes da administração direta | 23,6 | 13,8 | 14,3 | |
| Institutos, EPE e órgãos colegiais | 32,2 | 22,2 | 17,8 | |
| Análise crítica — mudanças na Administração Pública de Cabo Verde após a posse do Governo (2016 2021 2026) | Pág. 5 | |||
| Defesa e forças de segurança | 6,6 | 8 | 14 | |
| Diplomacia e representação externa | 5,4 | 1,9 | 0,6 | |
| Saídas: categoria com mais saídas | Institutos, EPE e órgãos colegiais | Institutos, EPE e órgãos colegiais | Serviços desconcentrados e escolas | 2026: 69 fins de comissão em escolas/delegações (sobretudo Educação e Agricultura). |
| Ministério/tutela com mais movimentos | Chefia do Governo (30) | Chefia do Governo (30) | Ministério da Educação, Formação Profissional, Ensino Superior, Ciência e Inovação (50) | |
| E. Instrumentos jurídicos usados | ||||
| Nomeações mediante contrato de gestão | 3 | 9 | 21 | Crescimento contínuo: 3 → 9 → 21. |
| Nomeações em regime de substituição | 9 | 2 | 1 | Interinidades, mais frequentes em 2016 (reestruturação inicial). |
| Reconduções | 4 | 18 | 3 | Típicas de continuidade (2021). |
| Requisições / destacamentos | 2 | 5 | 8 | |
| Anulações de publicação | 0 | 2 | 3 | Complementadas por retificações registadas em Observações. |
| F. Tempo e retroatividade | ||||
| Atos com efeitos anteriores à publicação | 158 | 159 | 176 | |
| % de atos com efeitos retroativos | 65,3 | 60,9 | 56,1 | |
| Mediana de dias de retroatividade | 12 | 32 | 17 | 2021 publica com mais atraso (gabinetes nomeados em maio publicados em julho–outubro). |
| Atos com mais de 60 dias de retroatividade | 4 | 53 | 17 | |
| G. Território (localização funcional do cargo) | ||||
| Santiago (%) | 78,9 | 70,9 | 63,4 | |
| Âmbito nacional (%) | 12 | 14,2 | 12,7 | |
| Exterior (%) | 5,4 | 2,3 | 0,6 | |
| Outras ilhas (%) | 3,7 | 12,6 | 23,3 | A presença das outras ilhas cresce em 2026 por via das delegações e escolas. |
| H. Continuidade de pessoas entre períodos (nomes coincidentes) | ||||
| Presentes em 2016 e 2021 | 39 | Continuidade de quadros no ciclo MpD. | ||
| Presentes em 2021 e 2026 | 14 | Em 2026 a maioria surge como saída (fins de mandato/comissão). | ||
| Presentes em 2016 e 2026 | 6 | |||
| Presentes nos três períodos | 3 | Três registos coincidem nos três períodos. | ||
| I. Qualidade e comparabilidade dos dados | ||||
| Efeitos não indicados ou a confirmar | 3 | 1 | 6 | |
| Análise crítica — mudanças na Administração Pública de Cabo Verde após a posse do Governo (2016 2021 2026) | Pág. 6 | |||
| Variantes de nome de ministério | 16 | 18 | 26 | Orgânicas diferentes em cada Governo + variantes de escrita em 2026. |
| Variantes ilha/concelho | 12 | 19 | 43 | 2026 mistura concelho e localidade (ex.: «Praia/Palmarejo», «Tarrafal»/«Tarrafal de Santiago»). |
| Método de recolha | Leitura assistida dos PDF do BO | Leitura assistida dos PDF do BO | Registo manual + leitura assistida | Assimetria de método: escolas e delegações foram registadas sistematicamente só em 2026. |
Fonte: Boletim Oficial; quadros de 2016, 2021 e 2026(versão 1A) .
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1297 de 07 de Outubro de 2026.
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