Enfermeiros formados no país estão aptos para o mercado internacional

PorSheilla Ribeiro,7 dez 2019 7:08

Cuidar de pessoas é a base do trabalho de um enfermeiro. Entretanto, este é um trabalho que, além do básico, exige outras valências, já que se está a lidar com pacientes com características diferentes. O bom mesmo é estar apto para qualquer realidade, mesmo até fora do seu país. É nesta óptica que duas universidades cabo-verdianas, a Uni-CV e a Universidade de Santiago, preparam os seus alunos dos cursos de enfermagem.

Os estudantes do curso de enfermagem da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) estão, conforme a coordenadora do curso, Deisa Semedo, preparados para trabalhar tanto no país, como no estrangeiro. “Nós trabalhamos com guidelines internacionais, que respeitamos e que nos ajudam a dar, realmente, aos estudantes a preparação necessária para conseguirem trabalhar em diferentes países”, garante.

No que diz respeito à Universidade de Santiago (US), a coordenadora do curso de Enfermagem, Célia Varela, diz que aquela instituição trabalha, na formação de seus alunos, com ferramentas desde o básico ao mais avançado. “Então podemos dizer que os nossos alunos têm materiais que lhes dão competência para integrarem o mercado de trabalho a qualquer momento, basta terminarem a licenciatura. A partir do quarto ano estão preparados para integrar qualquer mercado de trabalho, tanto nacional como internacional”, afirma.

Na US, assim como na Uni-CV, faz saber Célia Varela, que se trabalha com guidelines internacionais. “Quando falamos de uma reanimação cardiopulmonar, quando falamos também em entubação, é-lhes dado num guideline internacional, os suportes básicos e mais avançados, todos são dados numa guideline internacional”, exemplificou.

Deisa Semedo explica que na grade curricular do curso de enfermagem na Uni-CV há disciplinas que são necessárias para que qualquer enfermeiro formado consiga trabalhar em outros contextos.

Experiências internacionais

Quanto a experiências internacionais, a Universidade de Cabo Verde já deu passos mais significativos, tendo já, segundo Deisa Semedo, alunos formados a laborarem em países como Inglaterra, Portugal, São Tomé, dentre outros. Além disso, refere a mesma fonte que aquela universidade tem registos de enfermeiros ali formados a frequentarem cursos de especialização e mestrado em várias universidades em Portugal.

“E só conseguem fazer esses mestrados, especialidades, porque o curso da universidade foi reconhecido, porque, se não é reconhecido enquanto curso de licenciatura, eles não conseguem inscrever-se para fazer esses mestrados”, explica.

Já a US, conforme relata Célia Varela, não tem registo de alunos formados em enfermagem a trabalhar fora de Cabo Verde, mas avança que aquela universidade, com sede em Assomada, interior da ilha de Santiago, já tem licenciados a fazerem cursos de pós-graduação no exterior. “Temos professores que vieram de fora que colaboram connosco e que dão aos nossos alunos uma outra visão”, acrescenta.

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Língua: o maior desafio

Tanto para Célia Varela como para Deisa Semedo, o maior desafio que as universidades cabo-verdianas têm, no que diz respeito à preparação dos estudantes para o mercado internacional, prende-se com a questão das línguas estrangeiras.

“O maior desafio para a Universidade em preparar os alunos para trabalharem lá fora, se calhar, é a questão de línguas estrangeiras. Porque as nossas aulas são ministradas em português. O inglês que os nossos alunos têm é técnico e está no plano extracurricular”, frisa Célia Varela.

Por seu turno, Deisa Semedo alega que na universidade pública já há toda uma adaptação em respeito aos guidelines internacionais de diversas áreas que são necessárias. Facto que a faz acreditar que o maior desafio tem a ver com um maior investimento a nível das línguas estrangeiras, um investimento que, no seu ponto de vista, não depende só da universidade, porque também tem de ser um trabalho do próprio estudante.

“Acho que muitos acabam por não encontrar um lugar por causa da língua. Para trabalhares na Inglaterra tens de saber inglês, para trabalhar na Alemanha tens de saber pelo menos o inglês, depois adaptar-se com o alemão”, argumenta.

Deisa Semedo defende, entretanto, a introdução de língua estrangeiras no plano curricular e relembra que a própria instituição oferece muitos cursos de inglês, espanhol, francês de que os estudantes podem usufruir enquanto estudantes.

O país precisa de mais enfermeiros?

A coordenadora do curso de enfermagem na US é de opinião que Cabo Verde precisa de mais enfermeiros. Segundo afirma, “há muita discrepância”, sobretudo nas ilhas. “Por exemplo, em Santiago Norte temos enfermeiros que fazem 12 horas num turno, sendo que um turno normal deve ser das 8 horas às 15 horas, das 15 às 20 horas e das 20 às 8 horas da manhã seguinte, mas, há enfermeiros que entram às 8 da manhã e saem às 8 da noite”, queixa-se.

Para esta professora universitária, 12 horas de trabalho “é muito tempo” e “quando as pessoas passam muitas horas a trabalhar, isso acaba por ter reflexo na forma como se prestam os cuidados ao utente”.

“Por exemplo, a ilha de Brava, mesmo a ilha do Fogo, São Nicolau, as ilhas mais afastadas, precisam de enfermeiros. Por isso, acho que não temos enfermeiros suficientes no mercado para abranger toda a nossa população”, acrescenta.

Esta professora da Universidade de Santiago revela ainda que a Organização Mundial da Saúde (OMS) propõe pelo menos dois enfermeiros para cada mil habitantes, o que, no seu ponto de vista, quer dizer que Cabo Verde precisa de mais enfermeiros.

“As pessoas podem não se dar conta ou não sentir, mas um enfermeiro responsável por uma enfermaria com muitos utentes, não consegue dar um atendimento de qualidade. A enfermagem é uma profissão pouco valorizada aqui em Cabo Verde, mas espero que com a Ordem da classe as coisas melhorem”, deseja.

Por seu turno, Deisa Semedo afirma que se se for ver o rácio que se deve fazer da necessidade de enfermeiros com as demandas que o país tem, constata-se que Cabo Verde precisa de mais profissionais. Entretanto, diz acreditar também que “Cabo Verde é um mercado pequeno” e “um nicho muito pequeno”.

“Então, vai chegar a um ponto em que vai saturar, por isso é que o nosso objectivo não é manter uma formação só a nível da graduação. Estamos a trabalhar para que haja a pós-graduação. Temos outros mercados, que é o das pessoas que já estão formadas para fazerem uma pós-graduação”, completa.

Especializações e mais conhecimento

A Uni-CV não tem ainda cursos de pós-graduação em enfermagem, mas para a coordenadora do curso de enfermagem daquela instituição de ensino, podia-se apostar na especialidade de enfermagem de saúde comunitária, que é uma especialidade muito centrada na comunidade, assim como na saúde materna e na saúde do idoso, por exemplo.

“A questão da saúde do idoso, penso que seria importante porque já tem um número elevado de idosos no país. Cabo Verde já tem mais do que 7% de população que é idosa”, acrescenta.

Já na US, conforme avança Célia Varela, arranca no próximo dia 9 de Dezembro o curso de mestrado em enfermagem de saúde materna/infantil. “A nível de especialização, penso que as áreas mais necessárias são a saúde materna mas, a área de saúde mental é uma área de bastante interesse em Cabo Verde. Não só como enfermeiros gerais, como especialistas”, acrescenta.

Para esta professora, a saúde mental “é um parente pobre” na área de saúde, uma vez que uma maioria de enfermeiros não vai por essa área.

“Temos também a saúde comunitária. A enfermagem comunitária é uma área que eu acho que tem necessidade porque o importante é prevenir, a prevenção primária, então, os enfermeiros comunitários fazem bastante falta”, acredita.

Tendo em conta que há enfermeiros no mercado do trabalho que tiveram apenas uma formação técnica, explica Deisa Semedo, a Uni-CV abriu o curso de complemento da licenciatura com o objectivo de esses enfermeiros passarem a ter a licenciatura.

“E nesse complemento eles teriam competências que não foi possível adquirirem durante o nível técnico”.

Na US, explicou Célia Varela, abriram-se dois cursos de complemento de enfermagem. O primeiro curso abarcou alunos da região do Fogo e da Brava, com um total de 27 enfermeiros durante dois anos. No segundo, cujo processo está na recta final, explica, estão alunos de Santiago Norte, Maio, São Nicolau, Boa Vista e Sal.

No que diz respeito às actividades extracurriculares, na US, conforme faz saber Célia Varela, os alunos vão para o campo prestar serviço junto das comunidades.

“Temos um programa que é ‘US Comunidade’, em que em cada semestre o aluno vai para a sua localidade fazer o serviço de intervenção na comunidade, feiras de saúde, rastreios, formação de prevenção e promoção da saúde”, conta.

A Uni-CV, por seu turno, afirma Deisa Semedo, desenvolve projectos de intervenção em distintas áreas, tais como saúde infantil, saúde do idoso, saúde mental. “Identificamos o problema de uma certa comunidade e automaticamente fazemos a intervenção”, finaliza.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 940 de 04 de Dezembro de 2019. 

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Autoria:Sheilla Ribeiro,7 dez 2019 7:08

Editado porSara Almeida  em  18 fev 2020 23:21

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