Dom Ildo Fortes, Bispo da Diocese do Mindelo : “O facto de estarmos privados de algumas coisas essenciais, não nos deve lançar no desânimo”

PorAntónio Monteiro,12 abr 2020 8:13

Devido à pandemia da COVID-19, em Cabo Verde, como em quase todos os países cristãos do mundo, a Páscoa será vivida este ano sob o signo do isolamento social. Dom Ildo Fortes, Bispo da Diocese do Mindelo, encoraja os cristãos a não caírem no desânimo e a tirarem partido desta situação e do novo que poderá daí advir.

Como é que a Igreja Católica vai celebrar a Páscoa em tempos de Coronavírus?

Obviamente que é uma situação que nós não temos memória, nem nós desejaríamos. Portanto, é uma situação a nível mundial que se impõe que assim seja. Nós vamos celebrar a Páscoa em todas as igrejas do nosso país; os padres estarão nas igrejas e nós os bispos estaremos nas catedrais para celebrar o mistério pascal. A particularidade é essa: não será com o povo. Portanto, não haverá celebração pública; as pessoas não poderão participar directamente ou presencialmente, porque a Igreja é a primeira a ter a consciência e a assumir a responsabilidade de tudo fazer para evitar a propagação deste vírus que está a se alastrar pelo mundo. Aliás, já tem sido assim. Já nos domingos anteriores e durante as semanas fizeram-se celebrações sem povo. A Santa Igreja não deixou de estar aberta para quem precise, porque a vida espiritual é um bem essencial. Portanto, as pessoas podem deslocar-se à igreja, mas não há ajuntamento, nem aglomeração de pessoas, não há culto público de nenhuma espécie: nem missas, nem terços, nem procissões. Vai acontecer que os pastores estarão nas igrejas a celebrar o mesmo mistério pascal, ainda que com alguma forma reduzida. Portanto, não haverá o lava-pés na Quinta-feira Santa que é uma coisa muito tradicional, como também no Domingo de Ramos não houve a solene processão de ramos como costumamos fazer. Na noite de Páscoa não haverá baptismos como é habitual fazer naquela noite, mas haverá o essencial e as pessoas são convidadas a aderir e a participar tanto quanto possível através da rádio e dos meios digitais que hoje temos disponíveis, nomeadamente o Facebook. Tem sido interessante ver a inovação e a criatividade dos padres em se tornarem presentes nas casas das pessoas: quer em momentos celebrativos, quer em mensagens que nós também vamos dirigindo. Então, o que nós pedimos é que as pessoas estejam na mesma hora em que o padre está na igreja a celebrar que se reúnam nas suas casas, que criem um ambiente espiritual próprio para o efeito. Assim a Páscoa será vivida na Igreja Doméstica. Igreja Doméstica é a expressão que o Conselho do Vaticano II utiliza para falar da família. Portanto, a família é a célula mais pequena da Igreja. A Igreja é uma comunhão de comunhões, é uma comunidade de comunidades e a família é a sua expressão mais pequena. Será feita assim desta maneira. Nós acreditamos que a Igreja tem essa possibilidade que quando por uma razão que não depende da pessoa, portanto quando a pessoa está impossibilitada de aceder a um bem espiritual, seja uma confissão, seja uma eucaristia, a pessoa pode fazer uma coisa que nós chamos a comunhão espiritual. Portanto, Deus pode suprir aquilo que são os nossos vazios. Ou seja, àquilo que nós não podemos chegar, Deus pode chegar. E que as pessoas então tenham presente que poderão estar em comunhão com Deus em suas casas, a tal comunhão espiritual, em comunhão com os irmãos. Deus far-se-á presente, porque Deus é espirito e verdade, como o Nosso Senhor Jesus Cristo disse. Ele é capaz de se fazer presente onde ele bem quiser. O normal é através dos sacramentos, dos sinais próprios que Ele deixou na Igreja. Este é o habitual. Mas não podendo ser, nem por isso a pessoa fica privada desta comunhão, desta ligação com Deus que é a fonte de vida, fonte da esperança e que nos quer também nesta Páscoa ressuscitados.

Que mensagem deixa aos cristãos para enfrentar esta pandemia que atravessa o mundo?

Queria dizer que o facto de estarmos privados de algumas coisas essenciais, não nos deve lançar num desânimo, numa tristeza ou num lamento. Isto é o mais fácil e é o que se vê muito por aí. Queríamos dizer às pessoas que aceitassem a limitação, que aceitassem a contingência em que todos nós nos encontramos e procurar tirar partido do novo que pode advir daí. Por exemplo, a riqueza de estarmos em família, que nem sempre as pessoas valorizam: uns correm para a igreja às vezes cada um à sua hora. Desta vez o desafio é, juntos, no mesmo espaço, encontrarem-se para partilhar a fé e para partilharem a própria vida. É curioso como no Domingo de Ramos a leitura do Evangelho tem aquela parte da Bíblia que diz que o Nosso Senhor Jesus Cristo enviou alguns discípulos à sua frente para irem à cidade dizerem a um fulano de tal ‘olha, é em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa’. Estas palavras ressoam de uma forma nova e especial nos nossos ouvidos e nos nossos corações este ano. Então, é ter presente: Crista está a dizer-nos hoje, ‘olha, é em tua casa que Eu este ano vou celebrar a Páscoa’. Será uma experiência nova, será, não tenho dúvidas, uma experiência riquíssima, porque nós temos que ter a consciência de assumir também a nossa pobreza. É bom perceber que nós tantas vezes temos ao nosso dispor igrejas, missas em diversos dias e em diversos horários. Desta vez nós não podemos escolher nenhuma; pode ser uma forma de darmos importância, de valorizarmos aquilo que talvez nem sempre valorizamos. Porque o normal é que na Páscoa é quando muitas pessoas vêm à Igreja. Ainda cumprem o preceito antigo de ao menos confessar-se uma vez no ano e participar na missa uma vez no ano. Costuma ser na Páscoa. Este ano nem isso vão ter. Então, há que se aderir à novidade e deixar que Deus faça o resto.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 958 de 8 de Abril de 2020.  

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Autoria:António Monteiro,12 abr 2020 8:13

Editado porDulcina Mendes  em  7 ago 2020 23:21

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