CARDEAL DOM ARLINDO FURTADO, BISPO DE SANTIAGO : “A minha dignidade é também a dignidade do outro”

PorAntónio Monteiro,28 dez 2019 10:30

Num mundo marcado pela globalização e pelo materialismo, o Cardeal Dom Arlindo Furtado, Bispo de Santiago, vem-nos lembrar nas vésperas da celebração do Natal que o nosso Deus não é o Deus material e que o respeito pela vida, sua promoção e preservação é a mensagem fundamental do Natal.

Que mensagem natalícia deixa aos católicos cabo-verdianos?

A minha mensagem é de carácter humano, portanto seria dirigida a qualquer ser humano que procura viver feliz numa sociedade humanizada e humanizante. O Natal significa a aliança entre o humano e o divino. Na perspectiva cristã, aquilo que é humano foi levado ao nível máximo, que é o divino. Cristo, verbo de Deus, fez-se homem e uniu essas duas naturezas: a humana e a divina. Veio-nos transmitir também a missão ou a vocação de cada ser humano, que é a de chegar a um nível tal de perfeição, que venha participar pela graça de Deus, pelo dom de Deus também, na realidade divina. Isto é a revelação maior da dignidade da pessoa humana. Portanto, cada um de nós, cada ser humano é tão importante que Deus quer elevá-lo à dimensão divina, a participar na própria vida divina. Isto leva cada um ao máximo de autoestima, mas isto também traz para cada um a importância daquilo que o outro é, aquele que está ao meu lado – a dignidade humana que se estende a todos os seres humanos, aquilo que é a minha dignidade, é também a dignidade do outro. Por isso, o respeito pela vida, a promoção da vida, a preservação da vida, em todas as circunstâncias, é a mensagem fundamental que o Natal nos traz e diz respeito a todos nós: devemo-nos promover mutuamente, porque Deus nos quer promover à altíssima dignidade de perfeição máxima, participando na própria realidade divina. É a vocação de todo o ser o humano que o Natal nos veio lembrar para podermos melhorar cada vez mais o conceito que temos de nós mesmos e do outro e a qualidade de relacionamento que devemos cultivar uns para com os outros.

E a mensagem para o Ano Novo?

Nesta linha da valorização da pessoa humana, o tempo está ao serviço do ser humano. O tempo é vazio, o tempo passa. Nós é que damos conteúdo ao nosso tempo. Então o novo ano é sempre uma nova oportunidade para avaliarmos o ano transacto, em que é que nós crescemos, o que é que nós ganhamos, o que é que nós fomos capazes de construir? Sozinhos ou com os outros, em família. Mas também temos que avaliar em o quê que nós fracassamos, em o quê que não fomos tão performativos. Então, a partir daí, procurar dar um conteúdo melhorado da vida pessoal, da vida relacional e da vida profissional. Ou seja, o desenvolvimento das nossas capacidades a bem da comunidade. Portanto, o novo ano, na perspectiva cristã, é sempre uma oportunidade, um dom que Deus nos faz, para podermos crescer cada vez mais, cumprindo aquela missão que Cristo nos confiou a todos, “sede perfeitos, como é perfeito o vosso Pai do Céu”. Quer dizer, deve haver uma evolução a nível da perfeição na vida de cada ser humano a cada ano que passa. Cada ano é uma grande oportunidade; é um desafio, mas também é uma oportunidade. E é bom que tenhamos essa oportunidade para corrigirmos os erros do passado e porventura darmos início a novas dimensões do nosso crescimento e aperfeiçoamento e avançarmos naquilo que queremos preservar, sempre na linha evolutiva para sermos cada vez mais perfeitos.

Corrigir erros do passado não implica não cometer outros.

As duas coisas. Há coisas em que posso errar num determinado momento que eu não gostaria de repetir, porque não interessa, não convém; antes pelo contrário, é prejudicial. Neste caso, significa corrigir mesmo, anular. Ou então, dar uma nova forma, dar uma nova orientação aos momentos da minha vida que não foram suficientemente bem aproveitados para introduzir elementos novos que me ajudam a crescer. Ou então, iniciar coisas novas porque o ser humano tem uma capacidade criativa extraordinária. É pena que muitas vezes não desenvolvemos essas capacidades, mas há sempre ocasião e devemos aproveitá-las para encetarmos novas iniciativas em ordem à melhor perfeição das pessoas, mas também para que possa contribuir para o bem comum da sociedade em que estou inserido.

Capacidade humana sim, mas, na perspectiva cristã, sem a graça divina nada se alcança.

Sim, nós acreditamos que o homem não é plenamente autónomo. Na nossa perspectiva cristã, o homem depende do Criador, o homem depende dos outros e o homem depende também de si. Portanto, há uma interdependência mútua dos homens entre si, e dos homens em relação a Deus. É interessante que Deus também quer precisar de nós para alguma coisa. Deus também nos ama através de outrem. Portanto, a graça divina está sempre presente. Cristo disse numa passagem do Evangelho, “sem Mim, nada podeis fazer de bom”. Nós acreditamos, como cristãos, que Deus nos ajuda, nos deixa agir, nos promove e nos incita no sentido de fazermos alguma coisa boa, mas tudo isso não de uma forma escravizante, mas de uma forma colaborativa. Nós tomamos a iniciativa, tomamos decisões: Deus corrobora as coisas boas e juntamente com os outros podemos fazer coisas muito boas. Portanto, o homem é interdependente. Embora tenha a capacidade que Deus lhe deu, pela sua liberdade, pelo seu livre arbítrio, mas sobretudo pela sua liberdade, é incitado, é estimulado a escolher coisas boas. É que pelo livre arbítrio posso escolher coisas positivas ou negativas, coisas boas ou más, mas pela minha condição de ser livre, inteligente e racional eu posso, dentro dos parâmetros do livre arbítrio, decidir escolher coisas boas e renunciar a coisas más. Isto é expressão do autêntico uso da minha liberdade. É esse tipo de liberdade que Deus nos quer dar e quer-nos ajudar a promover sempre mais – fazer sempre escolhas pessoais, mas escolhas boas, para boas metas, com bons resultados para todos.

Platão diz que é melhor fazer o bem do que o mal e explica porquê. Qual é a explicação teológica?

É que o ser humano é um ser bom. Aliás, em princípio, todo o ser é bom. O ser humano tem capacidade de fazer bem, e se faz o mal, ou pelo menos se omite o bem, é porque é limitado. Nós não somos deuses. Só Deus é perfeito. O ser humano tem capacidade limitada de fazer o bem. E tendo capacidade limitada de fazer o bem, então está sujeito também a não praticar o bem ao nível desejado ou mesmo, simplesmente, a deixar de fazer o bem. Portanto, a ausência do bem na acção do homem, na escolha do homem é que faz emergir a questão do mal. O mal é na verdade mais ausência do bem, porque quando nos empenhamos em fazer o bem, o mal fica completamente rejeitado, numa escolha autenticamente livre, porque fazemos a melhor opção possível. O homem devia estar sempre atento, porque Cristo dizia, “vigiai e orai”. Isto é, os que acreditam em Deus sabem que podem contar com a ajuda de Deus, porque as nossas forças, apesar de tudo, são limitadas.

Casos de pedofilia no seio da Igreja Católica têm feito manchetes em vários países. Não se pondo esta questão em Cabo Verde, quais são os problemas que mais chamam a atenção na comunidade cristã cabo-verdiana?

O ser humano, pela sua limitação, está sujeito a todas fraquezas que qualquer homem pode ter. O cristão igualmente. O cristão é um ser humano, no entanto, teve a graça de encontrar Jesus Cristo, a quem procura seguir, mas a debilidade humana pode levá-lo ao fracasso em qualquer momento. Nós temos exemplos clássicos como Judas, que foi um dos apóstolos de Jesus Cristo: vendeu o mestre e acabou por se matar. Temos o Pedro, o chefe escolhido por Jesus Cristo que acabou por negar conhecê-lo, por cobardia, com medo da morte, numa primeira fase, mas veio a morrer como mártir mais tarde. De modo que, disse e continuo a dizer, que felizmente, em Cabo Verde, que eu saiba, não tivemos, casos de pedofilia, portanto, abuso sexual. Não quer dizer que isto esteja blindado. Portanto, “vigiai e orai” cada um, como disse há pouco. São Paulo dizia “quem julga estar de pé, cuidado para não cair”. Por isso, não está garantido totalmente que não possa vir a acontecer. Agora, os desafios na Igreja são muitos. O grande problema que temos é o problema da evangelização, porque temos em Cabo Verde muita gente que não conhece Jesus Cristo. Sobretudo a geração pós 25 de Abril [de 1974], pós- independência. Nós temos duas ou três gerações pós-independência que têm um conhecimento muito escasso, se não mesmo nulo, de Jesus Cristo. São pessoas muitas vezes com grande desenvolvimento intelectual, mas não têm nenhum crescimento espiri­tual, porque não tiveram oportunidade de ter uma compreensão daquilo que é a fé cristã para ajudar o ser humano a ser mais completo, também a nível espiritual. Acho que este é um dos principais desafios que temos: a missão de levar a mensagem de Jesus Cristo a essas gerações de pessoas que não a conheceram. Somos enviados a essas pessoas para lhes levar o conhecimento de Jesus Cristo como Salvador do mundo. É este o principal desafio. Como fazê-lo, é outro desafio. Uma coisa é anunciar Jesus, fazer chegar Jesus aos outros. Depois, como? O Papa João Paulo II já falava da necessidade da Igreja, hoje, ter novo ardor, novos métodos e novas linguagens para fazer chegar Jesus Cristo aos outros. Nós estamos na procura de pedir a graça do novo ardor – não fechar a mensagem no evangelho na sacristia e nos templos, mas levá-la para a sociedade em todos os sectores e em todos os âmbitos. Como fazê-lo? Com que linguagem e com que expressões? Esta é uma procura permanente que nos inquieta, porque é nosso dever fazê-lo. O Papa Francisco é claro neste aspecto: todo o baptizado deve assumir-se como cristão, como discípulo e seguidor de Jesus Cristo, mas ao mesmo tempo com a missão de levar Jesus Cristo aos outros: na família, no lugar de trabalho e em qualquer ambiente social que ele frequenta. Portanto, devemos formar pessoal para que dê não só testemunho com o seu evangelho – todos os discípulos, todos os baptizados – como com a sua vida honesta, sua vida fraterna, sua vida simples, sua vida construtiva, sua vida generosa e sua vida despojada, porque o nosso tesouro maior é Jesus Cristo. Nós precisamos de bens materiais para vivermos com dignidade e para ajudar os outros a viver com dignidade. O nosso Deus não é o bem material, o nosso Deus é outro, é o Deus de Jesus Cristo. Portanto, esse Deus que é pai de todos e nos quer a todos irmãos, amigos, companheiros e solidários uns com os outros. Jesus Cristo passou a sua vida a expor a sua mensagem: com a sua vida e com o seu anúncio. A Igreja, a mesma coisa – nós cristãos, discípulos de Jesus Cristo devemos dar o exemplo com o nosso testemunho de vida, mas também saber falar de Jesus Cristo aos outros e deixar que a liberdade pessoal e a acção do Espírito Santo aja no coração de cada um, para as pessoas fazerem uma avaliação e ver que, como dizia o Salmo, “saboreai e vede como o Senhor é bom”.

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Foi recebido recentemente pelo Primeiro-ministro tendo sobre a mesa a busca de soluções para os problemas sociais que o país enfrenta, nomeadamente a insegurança e a criminalidade urbana. Qual a raiz desses problemas?

O Primeiro-ministro não me deu uma audiência só para falar desses problemas. Ele disse que ele conta com o papel, a acção, no caso concreto da Igreja Católica, como das outras instituições para ajudar a superar esta fase. De facto, a raiz de tudo isso, encontramo-la fundamentalmente em dois níveis. Primeiro, a liberdade humana; quando um indivíduo comete um acto, ele deve ser responsável por aquilo que faz. Para além de tudo o mais, a liberdade humana é mal utilizada ou bem utilizada. Portanto, a decisão que cada ser humano pode tomar em cada momento. É verdade que o ser humano pode estar condicionado, por diversas razões. O ser humano pode cometer crimes, delitos ou erros, muitas vezes por causa da sua debilidade e também por causa de certas condições desfavoráveis, mas no fundo ele deve ser responsabilizado pelos seus actos. Mas há uma outra condicionante que é muito importante neste caso que é a questão da qualidade ou má qualidade da actual educação familiar cabo-verdiana – má experiência da família no processo educativo. Eu acho que é um dos factores que contribui significativamente para situação social do Cabo Verde de hoje, em termos de delinquência e de criminalidade. A liberdade mal entendida no passado levou muita gente a não se assumir na constituição e na preservação de uma relação familiar sadia, estável e responsável. Quando eu falo da família, eu falo da presença no lar do pai e da mãe, os dois ocupando-se dos seus respectivos filhos. Muitos dos nossos jovens não tiveram esta oportunidade, andaram ao sabor do vento. Isso cria instabilidade psicológica nas crianças, com consequências também relevantes em atitudes e comportamentos sociais. Portanto, um dos factores é a instabilidade familiar, em que os pais não estiveram juntos como aliados na educação da prole. Com a proliferação de pessoas que não tiveram uma educação salutar, proliferou a criação de grupos que favorecem a integração desses adolescentes e jovens que não tiveram a oportunidade de ter uma família estável. É a psicologia dos grupos que começa a desenvolver-se. A criança, a partir dos 11 anos, começa a ter mais consciência de si, começa a se afastar da protecção dos pais e entra na dinâmica de grupo: agradar o grupo; agir em grupo; discutir em grupo e viver em grupos da mesma idade. Ora, se esses grupos são feitos de pessoas com problemas no processo educativo, então quais os valores que transmitem uns aos outros? Qual é o tipo de influência que têm uns sobre os outros? São influências negativas. Até para se vingarem dos outros que não lhe deram aquilo que precisavam e para mostrar que eles também são gente. Ou seja, uma coisa semeia outra coisa e depois são outros frutos daninhos que criam outras dinâmicas. Isto levou-nos à sociedade que temos hoje. Mas a causa principal, fundamental, vem da instabilidade familiar sobretudo desde a década de 70 a 80. Antes havia muitas famílias desestruturadas, mas não tanto. Com a independência tomou-se a liberdade de cada um fazer o que quer e até veio equiparar-se a união de facto à união legalizada e depois criou-se essa instabilidade de paternidade absolutamente irresponsável. Antigamente também havia, mas havia sempre os avós que tinham uma família estável e o neto era sempre integrado na família com uma certa estabilidade. Isto evitava que houvesse o transbordar do copo, como acontece agora, porque já não há avós também estáveis para assegurar a educação do neto. A sociedade tornou-se muito individualista, é ‘cada um por si, Deus por todos’ e é nesse âmbito que agem e se organizam os grupos de delinquentes, de marginais.

Vai completar neste mês de Dezembro 5 anos como Cardeal. Que balanço faz desses cinco anos?

Como Cardeal, ganhei uma experiência nova no âmbito da Igreja e não só. Foi um enriquecimento para a minha pessoa e foi um engrandecimento para Cabo Verde. Porque através deste acontecimento, Cabo Verde também passou a ser mais conhecido no mundo e é isto o que deve fazer qualquer cidadão – tentar ser útil à comunidade e à sociedade e tentar, de uma forma ou de outra, dar o seu contributo para o país de onde ele é natural, do qual ele tanto recebeu e para o qual tem a obrigação de dar aquilo que estiver ao seu alcance.

Atingiu no mês de Outubro a bíblica idade de 70 anos. Simbolicamente que importância atribui às sete décadas de vida?

A Bíblia diz que uma vida normal tem a duração de 70 anos. Os robustos poderão chegar aos 80 (risos). Dom Paulino [seu antecessor] chegou aos 88 e era um homem robusto. Portanto, eu já cumpri a média básica da vida de um homem sobre esta terra. Dou graças a Deus por isso, por ter chegado aos 70 anos e peço a Deus que me dê forças, enquanto ele quiser, para ser útil à Igreja, ser útil à sociedade. Agradeço às pessoas que estão comigo, que trabalham comigo e com quem eu trabalho. Que tenham paciência e a caridade de me aturar e de me apoiar, que Deus vai compensar essas pessoas pelo bem que me fazem, porque graças a Deus recebo muito apoio, muita compreensão e muito amor de muita gente. Isto ajuda-me a ser um homem relativamente feliz, tanto quanto se possa esperar neste mundo e espero que Deus me continue a acompanhar e a abençoar a todos para que todos tenhamos a alegria de viver e motivo para querer continuar a viver, enquanto se é útil. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 943 de 23 de Dezembro de 2019. 

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Autoria:António Monteiro,28 dez 2019 10:30

Editado porJorge Montezinho  em  7 jul 2020 23:21

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