Infectados por coronavírus: Relatos de pacientes em isolamento

PorSheilla Ribeiro,18 mai 2020 7:24

Mais de 320 cabo-verdianos já foram infectados pelo novo coronavírus, e o número cresce a cada dia. Até agora, todos os casos positivos foram colocados em isolamento, em estruturas adaptadas para os receber. O Expresso das Ilhas falou com dois desses pacientes, que contam como contraíram a doença, o que sentiram quanto souberam que estavam infectados e como é a rotina de quem está em isolamento na Praia, a cidade com a maioria dos casos de COVID-19.

A pandemia do novo coronavírus pode parecer fora de controle, afinal são mais de 4 milhões de pessoas infectadas e 316 mil mortos. Mas, para quem actualmente vive com a doença, a reacção do público pode ser pior que a própria doença.

“Sou muito grata por poder respirar”

"Sou muito grata por poder respirar", afirma Paula (nome fictício), de 20 anos. Paula não sabe onde ou como contraiu o vírus, pois afirma não ter saído de casa durante o estado de emergência, exceptuando-se as idas ao supermercado para comprar mantimentos.

No início sentia muitas dores de cabeça, dores de corpo e sentia-se constantemente cansada. Ainda assim, Paula não pensou tratar-se de COVID-19 e só começou a preocupar-se quando deixou de sentir o cheiro e gosto da comida.

"De certa forma, entrava em pânico por não sentir o cheiro das coisas, por não saber qual era o gosto daquilo que eu comia. E confesso que mesmo com as informações na televisão, rádio e internet, eu achava que estava apenas gripada”, relata.

Depois de alguns vizinhos terem sido levados para o isolamento, uma vez que tinham testado positivo para a COVID-19, Paula foi submetida ao teste porque era contacto de um dos infectados do seu bairro.

Quatro dias depois, o diagnóstico de coronavírus seria confirmado oficialmente para Paula e sua bebé. Nesse mesmo dia, por volta das 21h00, o carro da delegacia de Saúde foi buscar Paula e criança que completou um ano de idade já no local de isolamento.

“Eu senti-me triste por deixar minha família e muito mal, mas mesmo mal porque todos os vizinhos vieram para rua e ficaram a olhar. Não vou me esquecer desse dia”, lastima, considerando que o transporte das pessoas que testaram positivo devia ser feito de forma “mais discreta”.

A surpresa de testar positivo

Rodney Fernandes de 27 anos soube que estava infectado depois de a avó, de 92 anos de idade, ter apresentado complicações no  seu estado de saúde.

O jovem conta que mesmo com sintomas como fraqueza, tosse e por vezes espirros nunca pensaram que a avó estava com COVID-19. Afinal, pondera, são coisas “normais” para alguém daquela idade.

Apesar dos sintomas, os serviços de saúde procurados pela família de Rodney não submeteram a idosa ao teste de detecção de infecção por coronavírus. 

A irmã procurou igualmente os serviços de saúde porque não sentia cheiro e estava com diarreia, e também ela não foi sujeita ao teste, conforme conta ao Expresso das Ilhas.

Entretanto, a avó morreu. Nesse dia, “às 10h00 comunicaram-nos que a minha avó tinha falecido, foi enterrada às 14h00 e quando era 17h00 a ambulância foi-nos buscar, a mim e outros quatro membros da minha família, em casa. Foi um dia de grande choque”, afirma.

Se não fosse pela morte da avó, afirma que poderia levar a vida normalmente e diz acreditar que haja muitas pessoas assintomáticas, na cidade da Praia, que se curaram sem saber que estavam infectadas.

Segundo este entrevistado, muitas pessoas não associam os sintomas que sentem ao coronavírus, porque nas informações transmitidas o foco são sintomas como tosse, febre e falta de ar.

Por falar em sintomas, Rodney garante que apenas por três dias sentiu febre e dores de cabeça, mas depois não sentiu nada. Apesar disso, continua em isolamento, pois ainda não testou negativo.

“Há pessoas que até o vírus sair não sentem nada, e há aqueles que sentem sintomas leves, depende de cada pessoa. É por isso que quando saiu o resultado dos nossos testes ficamos espantados porque os sintomas não eram bem como a gente ouvia dizer”, declara.

Assim como Paula, Rodney conta que quando o foram buscar para ser levado para o isolamento, a rua encheu-se de pessoas que queriam assistir ao momento. Por querer a preservação da sua imagem e intimidade, bem como das da sua família, o jovem confidencia que se sentiu magoado.

Aliás, recorda que muitos dos seus amigos, alguns até no estrangeiro, souberam que estava infectado porque alguém filmou o momento em que as autoridades de saúde o recolheram e divulgou o vídeo nas redes sociais.

“Há aqui muitas pessoas com vergonha porque estão infectadas com o coronavírus, eu encontrei aqui amigos e fiquei espantado. As pessoas têm medo do preconceito da sociedade”, discorre.

Nesse sentido, o jovem apela a um maior empatia, já que “não é um crime estar infectado e é algo que pode ocorrer a qualquer pessoa, em qualquer bairro”.

A rotina do isolamento

Isolados há 16 e 17 dias, respectivamente, Paula e Rodney mencionam que sem televisão e sem rádio, o Facebook é a única distracção.

Lá dentro, conforme diz Rodney, é preciso ter o máximo de cuidado para que os infectados não tenham contacto uns com os outros.

“Não podemos ficar muito próximos para conversar, não podemos visitar os nossos familiares que estão no andar de baixo, em hora alguma. Imagina ter a mãe, irmã e não poder descer para ir ver e sim falar apenas através do telefone”, fala.

Paula, por sua vez, descreve que o isolamento fez com que fizesse novas amizades, com quem conversa quando fica sem megas. “E ainda bem que temos um lugar para fazer o carregamento da internet, se não…”, finaliza.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,18 mai 2020 7:24

Editado porSara Almeida  em  23 set 2020 23:21

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