Jovem aposta na criação de abelhas no interior de Santiago

PorSheilla Ribeiro,29 ago 2021 9:13

As abelhas destacam-se por disseminar o pólen e fertilizar vários tipos de flora selvagem, bem como culturas agrícolas essenciais, como o tomate, o mirtilo e a abóbora. No entanto, encontram-se ameaçadas pelo calor extremo e outros factores. Foi pensando na sua preservação, que nos últimos quatro anos, o activista ambiental, João Gomes, vem apostando na apicultura.

A apicultura é um ramo da zootecnia, voltada para a criação de abelhas. Essa técnica, segundo o portal brasileiro revista agropecuária, pode ter por objectivo a produção de mel, própolis, geleia real, pólen, cera de abelha e veneno, ou mesmo fazer parte de um projecto de paisagismo.

Ao Expresso das Ilhas, João Gomes conta que há já alguns anos que a apicultura é desenvolvida pela Associação Vercellese Verso Santa Cruz, num projecto financiado por uma igreja valdense na Itália. A referida associação, em parceria com a Câmara Municipal de Santa Cruz, no interior da ilha de Santiago, oferece formação em apicultura aos jovens daquela localidade.

“Eu, por exemplo, beneficiei-me dessa formação e depois apaixonei-me por esse bicho porque trabalho muito com conservação e protecção do meio ambiente. Como é uma espécie que está em via de extinção, achei por bem fazer esta formação e uma outra na Itália para adquirir mais conhecimento e propagá-lo em Cabo Verde”, relata.

João Gomes afirma que enquanto um multiplicador do conhecimento, vem desenvolvendo a apicultura de modo a ajudar a agricultura no país.

Nos últimos quatro anos de existência da apicultura, João construiu 11 colmeias, ou famílias de abelhas.

“A apicultura teve início na década de 90 em Santa Cruz, o projecto foi interrompido por falta de apoio. Hoje estamos avançados. Contamos onze colmeias povoadas. Vamos iniciar agora uma segunda acção de formação já que estamos na preparação do apeado que está formado, o que permite dar uma formação de início ao fim”, assegura.

Segundo explica o activista, hoje é possível dar aos jovens uma formação em apicultura do início ao fim, porque a existência de famílias de abelhas, permite ir além da teoria. Diferente da época em que se formou, em que depois da teoria, era preciso iniciar a apicultura do zero.

“Isso está ultrapassado. Quem vem tomar formação, além da que eu tinha tomado, vai poder assistir no terreno a algo que já está avançado. Isso vai ajudá-los muito no processo de aprendizagem, o que é bom e dá para ver que Cabo Verde está num bom caminho”, afirma.

Cada colmeia pode ter entre 40 a 70 mil abelhas, dependendo do estado de saúde de cada família. No caso das famílias estarem fortes, esclarece João Gomes, cada colmeia pode conter até 70 mil indivíduos.

Importância da apicultura

João Gomes expende que no país, assim como no resto do mundo, todas as abelhas estão no activo na natureza. Daí que se torna importante que hoje, se capacitem jovens de modo a multiplicar as colmeias que os apicultores devem ter conservado devido a diminuição do número das mesmas na natureza.

“Se corrermos o risco de perder todas as abelhas que estão no meio ambiente, será um grande problema reintroduzi-las”, alerta.

Assim, o activista ambiental reitera que se a apicultura for feita de forma organizada, vai permitir ajudar as abelhas, independentemente das localidades onde estiverem, independentemente das alterações climáticas que vêm afectando a espécie.

Nas suas declarações, garante que o primeiro objectivo deste projecto é a protecção e conservação da espécie que está em via de extinção.

Entretanto, aponta outros benefícios da apicultura como a produção do mel, própoles, cera, pólen e geleia real, todos uma fonte de rendimento e uma ajuda para a saúde humana.

“Ainda não produzimos nada para venda já que a nossa prioridade é reproduzir as famílias que temos e maximizá-las. Quando estiverem fortes e tiverem condições de produzir mel e os outros derivados tanto para o consumo como para a comercialização aí, sim, faremos isso”, diz.

Embora ainda não sejam produzidas para serem comercializadas, João Gomes destaca que há muita procura por esses produtos, sobretudo do mel e própoles.

“Porque estamos a desenvolver um medicamento com própoles, álcool e cana-de-açúcar para combater fungos e bactérias. Algumas pessoas deram-se conta e mesmo não tendo para comercializar, algumas vezes temos tido procura. Porque por vezes oferecemos a amigos e a novidade se espalha. Temos tido procura da ilha de Boa Vista, mas sobretudo da ilha de Santiago, mais especificamente da cidade da Praia, Santa Cruz e Tarrafal”.

Remoção de enxames em residências

Conforme o entrevistado, a remoção de enxames em casas de família é algo corriqueiro. Mas, o grupo enfrenta algumas dificuldades para tal.

“Há lugares que são distantes e ir fazer uma captura requer custo. Se for um enxame que invadiu uma casa e está numa árvore a remoção é fácil. Contudo, se for um enxame que vive numa parede há já algum tempo, é mais difícil”, descreve apontando para uma colmeia removida em Achada Santo António, Praia.

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Para remover aquela colmeia, especificamente, João Gomes narra que foram precisas três noites, em que o grupo teve de regressar à Santa Cruz às 3h00 da manhã.

“Se a pessoa tiver condições de suportar os custos nos trabalhos mais difíceis é melhor, porque sair daqui de Santa Cruz, levar o carro, uma colmeia e uma equipa de quatro a cinco pessoas, custa. Se for um local de remoção simples, um lugar mais perto por exemplo, não custa nada”, compara.

Os equipamentos do grupo de apicultores liderado por João Gomes foram doações da Associação Vercellese Verso Santa Cruz. Outras foram trazidas da Itália ou produzidas pelo próprio activista, apesar da possibilidade de importar.

Desafios

Na apicultura, os enxames são recolhidos e alojados em caixas apropriadas chamadas colmeias, durante a noite, onde continuam a trabalhar.

“As abelhas têm apenas quatro horas de descanso. Logo no início do amanhecer, por volta das 5h30 começam a sair das caixas para as suas actividades, em diferentes lugares. Até o pôr-do-sol recolhem todo o pólen, néctar, cera e outras coisas que precisam e regressam para as caixas”, detalha.

No sítio de João Gomes, algumas caixas são produções suas, e outras vieram da Itália. Aliás, frisa, o grupo recebeu, recentemente, 30 caixas colmeias, desmontadas.

Para João Gomes, o principal desafio na apicultura em Cabo Verde consiste em formar as famílias devido à seca dos últimos anos. Isto porque as abelhas dependem da flora apícola.

“Se não houver flor, as abelhas morrem. E em todas as partes do mundo as abelhas estão a morrer de fome e as nossas não são excepção”, pormenoriza.

Ao se formar uma família, há uma grande preocupação em alimentar as abelhas que estão a enfraquecer. E quando retiradas do seu habitat, João Gomes sublinha que se não estiverem bem controladas acabam por morrer.

“Há necessidade de capturar essas famílias, nutri-las, dar-lhes a força necessária para se tornarem numa família forte. Para isso temos um suplemento que veio da Itália, açúcar pasteurizado que é para alimentar as nossas abelhas e salvá-las. Estamos no processo de resgatar todas as abelhas que estão fracas na natureza, dar-lhes força para não sofrerem nenhum dano que possamos causar”, ressalva.

Em cada caixa há um nutritor, trata-se de um depósito onde são depositadas um xarope feito com um quilo de açúcar e um litro de água. O xarope, de acordo com o entrevistado, fortifica as abelhas na falta de flora apícula.

A ideia dos apicultores de Santa Cruz é até o final do ano ter pelo menos 20 colmeias povoadas.

“Estamos com 11 colmeias povoadas, mas já fizemos mais de 50 capturas. Porque a apicultura funciona da seguinte forma, quando uma caixa é nova, nunca recebeu nenhuma abelha, fica difícil mantê-las. Ao contrário dos humanos que preferem uma casa nova e bem construída. Às vezes é preciso muito cuidado e muita técnica para capturar as abelhas, colocar numa caixa e mantê-la de modo a formar uma família. No início era mais complicado, mas agora temos mais conhecimento e conseguimos formar famílias rapidamente”, explica.

Apicultura para toda a ilha

João Gomes refere que para um desenvolvimento da apicultura em toda a ilha de Santiago, conta com um parceiro em Rui Vaz, Emileno Ortet, que trabalha com agricultura.

O objectivo é criar uma unidade de agricultura naquela localidade por ser cheia de eucalipto, uma planta que produz grande quantidade de mel.

“Na ilha de Santiago, na Serra Malagueta e Rui Vaz há uma grande potencialidade para fazer o estudo da apicultura. E com o Emileno Ortet acredito que brevemente conseguiremos montar uma unidade de apiado. Já temos algumas colmeias preparadas para Rui Vaz e depois pretendo fazer alguma recolha de abelhas no próprio Rui Vaz e levar outras daqui e de outros lugares da ilha de Santiago”, avança.

A apicultura que pretendem desenvolver, continua, é móvel. Assim, em toda a ilha de Santiago, onde se verificar uma boa flora apícola, vão lá estar para capturar as abelhas que depois serão fortificadas.

“Aliás, Cabo Verde deve apostar muito na babosa, porque a babosa é uma flora apícola e gostaria que Cabo Verde apostasse na plantação de plantas que são floras apícolas. Há muitas plantas que não têm nada a ver com a apicultura e flora apícola. E hoje todos os países do mundo apostam nestas plantas para salvar as abelhas e o planeta”, recomenda. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1030 de 25 de Agosto de 2021.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,29 ago 2021 9:13

Editado porAntónio Monteiro  em  7 dez 2021 23:20

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