Agricultores de Santiago com esperança nas chuvas

PorSheilla Ribeiro,26 jul 2020 8:42

Pese embora as circunstâncias que o país enfrenta, de extrema escassez de chuva desde 2017, homens e mulheres do campo da ilha de Santiago estão esperançosos de que este ano as coisas terão outro rumo. Alguns já começaram a sementeira, outros aguardam mais um pouco, mas todos têm a esperança de que: “es anu Deus ta danu txuba”. E o verde que, timidamente, surgiu com as primeiras gotas é sinal de alento.

Jailson Semedo, mais conhecido por Txipote, da localidade de Rui Vaz, no concelho de São Domingos, conta ao Expresso das Ilhas que começou a semear desde a última quinta-feira, 16 de Julho. “Sempre semeamos neste mês, ainda estamos a tempo. Este ano estamos com moral, acredito que a situação será melhor. No ano passado, em Rui Vaz, graças a Deus, tivemos alguma coisa, pouca, mas deu. Aqui, mesmo que seja pouco, não temos muito de que nos queixar”, completa.

O facto de este ano já ter chuviscado por duas vezes, e “muito mais cedo” do que o ano passado, que aconteceu em finais de Agosto, é para este homem do campo motivo de confiança de que 2020 será melhor que 2019, 2018 e 2017. “Estou confiante que este ano as coisas vão ser diferentes”. Jaílson não é o único esperançoso, aliás, conforme diz, muitas pessoas estão a dizer que a “azágua” será melhor.

“Todos aqui nas redondezas já começaram a sementeira. Se não tivermos chuva este ano a situação no interior vai ser muito complicada, aqui tudo depende das chuvas. Se não chover, se calhar a solução será migrar para a Cidade da Praia”, revela.

Mas até lá, Txipote e tantos outros vão depositando a semente na terra a aguardar pela chegada da “água do céu”. Este agricultor já semeou milho e várias espécies de feijão. Alguns são sementes do ano passado, mas outros tiveram de ser compradas fora do concelho.

“Em Rui Vaz plantamos de tudo, até mesmo repolho. Aqui é frio então não precisa chover muito para que tenhamos uma boa colheita. Este ano se tivermos mais 4 chuvas, mas que seja uma boa chuvada que molha a terra, podemos dizer que vamos ter o ano garantido”, acredita.

Em Ribeira da Barca

Cíntia Monteiro, da Ribeira da Barca, em Santa Catarina, avança que ainda não começou a semear no seu terreno, mas que desde o dia 11 de Julho, antes dos primeiros chuviscos, tem ajudado pessoas vizinhas na sementeira de milho e feijão.

“Foi um ‘djunta mon’. Eu vou ajudar outros camponeses e depois vêm ajudar-me a semear no meu terreno. Ou seja, criamos um grupo de camponeses, marcamos data para a sementeira de cada um dos membros. Ainda não chegou a minha vez”, explica.

Esta mulher do campo afirma que, no seu chão, há anos de boa colheita e noutros, nem por isso. “A colheita do ano passado deu apenas para semear outra vez este ano. Mesmo assim tive de comprar sementes de feijões, porque no ano passado nem sequer houve”, acrescenta.

Cíntia diz estar com fé e esperança de que este ano a lide do campo terá outro desfecho que nos últimos anos, apesar de que, no seu ponto de vista, os chuviscos já registados não significarem “nada”, uma vez que não foram suficientes para molhar a terra.

“O chão ainda está seco. Se não chover este ano, não vai ser nada bom, já não vou ter sementes para a próxima sementeira. E eu, a minha família e tantos outros dependemos da sementeira, além disso temos os animais e vamos precisar de pasto”, narra, relembrando que no ano passado houve problemas com falta de pasto e ainda com a praga dos gafanhotos.

“Perdemos muito por causa dessas pragas. Ainda por cima, não recebemos nenhuma ajuda por causa da seca ou da praga, então foi bastante complicado”, frisa.

Uma certeza tem esta entrevistada: Se não chover terá de buscar outra forma de ganhar a vida.

“Eu semeio para o consumo da família e os animais, vacas e porcos que eu crio também. Quanto aos animais eu vendo, vendo o leite, a carne...Tinha cabras, mas desfiz-me delas. E as vacas exigem muita palha”, descreve.

São Lourenço dos Órgãos

Não muito longe de casa, Maria José Lopes, faz a sua sementeira em São Lourenço dos Órgãos. Mas este ano ainda não começou a semear por causa da falta de sementes. É que, depois de “muito tempo” sem chuva não conseguiu juntá-las.

“Disseram que está disponível para comprar, mas ainda não comprei. Tenho um bocadinho de bongolão, falta feijão fava e milho. Vou esperar mais um pouco porque ainda não choveu. Mas já limpei o terreno. Estou a esperar pelo final do mês para comprar um pouco de semente. Não vou comprar muito porque não vou semear como antes. Vai ser um pouco de um, um pouco de outro”, pormenoriza.

Maria relata que as pessoas mais velhas têm dito que este ano vai ser bom, mas não sabe dizer se realmente isso irá acontecer. Pois, “gato escaldado tem medo de água fria”. Mas, diz, há sempre uma esperança.

“Se não chover as coisas vão-se complicar ainda mais”. Assim como tantas outras pessoas do campo, Maria José também depende das lides da terra para viver. Aliás, profere que com a chuva sente-se uma mulher realizada, pois compra apenas arroz, óleo e alguns temperos. O resto, produtos agrícolas e carne de animais, tem em casa.

“Quando chove há pasto para os animais. Há pouco tempo, por falta de pasto, enterrei cinco animais. Fiquei com muito menos animais, agora tenho três cabras, três cabritos e um bode. E antes tinha mais de dez. Tive de enterrar duas cabras grandes e três cabritos. Não resistiram à falta de pastos”, lamenta.

Santa Cruz

Em Santa Cruz, Gilvan Cabral assegura que já se começou a semear o milho, o feijão, bongolão, sapatinha, congo e fava em alguns lugares. Uma boa parte das sementes, refere, tiveram de comprar, tendo em conta que no ano passado choveu pouco.

“Eu vivo numa zona de Santa Cruz e faço sementeira numa outra zona do concelho. Aqui onde vivo choveu apenas uma vez, onde faço plantações já choveu pelo menos duas vezes. Aqui em casa, semeamos depois que choveu. A data que tínhamos marcado coincidiu com a chuva. Então semeamos na terra molhada, mas se não voltar a chover em breve as sementes vão estragar. Porque o chão molhado pode estragar a semente”, explica.

Gilvan também está esperançoso de uma outra chuva. Aliás, afiança, os mais velhos estão a dizer que este ano vai ser melhor do que nos três anteriores. “Eu não sei de onde tiraram essa informação, mas eu acredito neles, até porque a chuva da semana passada foi um bom sinal”, argumenta.

“Agora, se não chover nem sei o que vai ser de Cabo Verde, principalmente aqui em Santa Cruz. As pessoas estão esperançosas até porque será bom para a criação dos animais, nem quero imaginar como vai ser se não chover”, afirma.

Este entrevistado relembra que não choveu durante os últimos três anos, o que levou à escassez de água para rega e falta de pasto para os animais. “Se não chover vai ser um massacre, espero que isto não aconteça”, profere.

“Aqui em casa, no ano passado tivemos de racionar o pasto, se antes dávamos aos animais uma mão de palha, passamos a dar meia mão. Começamos a diminuir pouco a pouco, para que fosse suficiente. Os nossos animais não morreram de fome, porque mesmo que pouco, tivemos palha. Em contrapartida, acabamos por vender muitos animais num preço muito abaixo do normal”, adianta.

Este camponês retrata que antes pagavam mais pessoas para os ajudar na sementeira, mas que agora, com menos chuva, semeiam menos, pelo que contam apenas com a ajuda dos familiares mais próximos.

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“Quando chove, Santa Cruz é terra verde, coisa bonita de se ver, terra de fartura, terra de ‘sabura’. Aqui muitas famílias, diria 70%, depende da agricultura. Se não for agricultura de regadio é de sequeiro. Se não chover eu sei que muitos vão migrar para Praia na esperança de aliviar a pobreza, pelo menos os jovens”, finaliza.

Medidas para Santiago são iguais para todas as ilha

A Directora Geral da Agricultura, Silvicultura e Pecuária, Eneida Silva, afirma que as medidas para Santiago são iguais para todas as ilha de Cabo Verde. Na hipótese de não chover, garante, haverá necessidade de reforçar o trabalho de resiliência que se está a fazer, que é mobilizar a água através de outras fontes, nomeadamente água salobra.

“Na ilha de Santiago há muitas zonas onde já começamos a fazer isso, nas zonas mais áridas, zonas como São Domingos, Santa Cruz, Tarrafal… zonas mais litoral e mais árida. Já começamos a fazer o trabalho de dessalinização, estamos a instalar o sistema de dessalinização de água salobra para a agricultura”, acrescenta.

Também no Tarrafal, informa, as autoridades estão a terminar de instalar um sistema de depuração de água da estação de tratamento de águas residuais (ETAR) para fazer teste e mostrar a eficácia em produzir, fazer uma agricultura sustentável utilizando águas residuais tratadas.

“Já começamos a venda de sementes em todas as delegações na ilha de Santiago a um preço muito proporcional. Muitos agricultores já compraram as sementes. Para além disso, temos plantas em viveiros, mas daqui a mais algum tempo, quando chover mais, os agricultores vão começar a por plantas”, informa.

Este ano, para além das sementes, os agricultores poderão comprar a planta do feijão congo, nos diferentes viveiros da ilha de Santiago e Cabo Verde em geral.

“Este ano, temos ainda novidades a nível do combate a pragas. Já temos em todas as delegações, pesticidas já prontas, equipas já preparadas para actuar, mas, aqui temos de dizer aos agricultores, principalmente das zonas que foram bastante afetadas pelos gafanhotos no ano passado”, noticiou.

Aos agricultores, pede Eneida Silva que assim que virem gafanhotos e outras pragas para informarem ao ministério. Conforme diz, apesar de terem todas as equipas vigilantes, é bom reforçar a vigilância com a colaboração dos agricultores para que não se venha a verificar ataques descontrolados de pragas.

Prevenção à COVID-19

Levando em consideração que agora as pessoas vão começar o “djunta mon” na sementeira, sobretudo em Santiago, o apelo de Eneida Silva, é que as pessoas mantenham o distanciamento, sigam todas as recomendações sanitárias.

Além disso, pede que ao trocarem as enxadas, lavem com água e lixívia, para evitarem a troca de materiais que usam, para lavarem sempre as mãos e que façam tudo que possa evitar a propagação de COVID-19, principalmente nos espaços rurais.

“Fazemos ainda um apelo aos agricultores que estão nas zonas que quando vão ter a produção, ou aqueles que estão nas zonas de regadios, que tomem cuidado, que lavem sempre as balanças, que evitem a aglomeração de pessoas, que lavem as mãos, coloquem os produtos em caixas limpas”, reforça.

A Directora Geral da Agricultura, Silvicultura e Pecuária, avança ainda que, apesar de que ainda não haja nada que diga que a propagação possa ser feita através de produtos, é sempre bom prevenir, porque a COVID-19 é nova, pelo que ainda não se conhece muito sobre ela.

Confinamento de animais

“No caso de não chover, tudo bem que este ano temos uma boa previsão, mas, é sempre previsão, para além de outros trabalhos que temos de continuar a reforçar o trabalho de confinamento dos animais”, dá conta.

Eneida Silva esclarece que há muitas vantagens no confinamento dos animais, não só na preservação da biodiversidade.

“Como já choveu um pouco, já começam a ter pequenos pastos. Os agricultores têm sempre a tendência de soltar os animais assim que o pasto sair, não deixam os pastos criar semente, então, acaba por dificultar no ano seguinte”, aponta.

E é neste sentido que Eneida Silva lança o apelo para que os agricultores não soltem os animais, de modo que os pastos possam criar sementes e só depois soltá-los. Aliás, diz, é até melhor para os animais, porque quando estão soltos sem comida, perdem energia “além de outras desvantagens”. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 973 de 22 de Julho de 2020. 

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Autoria:Sheilla Ribeiro,26 jul 2020 8:42

Editado porFretson Rocha  em  3 ago 2020 19:19

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