2021: O ano possível em São Vicente

PorNuno Andrade Ferreira,2 jan 2022 10:10

As retrospectivas valem o que valem e são sempre – apenas e só – o resultado das escolhas de quem as escreve. Entre uma crise nos Paços do Concelho, resolvida quando parecia irresolúvel, obras anunciadas e paradas, inaugurações e eventos (realizados, reinventados ou cancelados), assim foi – para nós - 2021 em São Vicente.

Durante meses, foi notícia, uma e outra vez, o clima de tensão entre presidente e vereadores da oposição na Câmara Municipal de São Vicente. Sem maioria absoluta, tanto no executivo camarário, quanto na Assembleia Municipal, Augusto Neves e o MpD precisam dos votos das restantes forças políticas para manter a autarquia em funcionamento. Depois de uma escalada de tensão, com trocas de acusações, quebras de confiança política e desprofissionalização de vereadores, e quando a ruptura parecia inevitável, eis que a situação se apaziguou, com a assinatura, no final de Julho, de um memorando de entendimento do qual resultou nova distribuição de competências. A segunda metade do ano foi de paz aparente.

Obras e inaugurações

Promessa antiga, várias vezes anunciado e outras tantas apresentado, o projecto do Terminal de Cruzeiros do Mindelo deu passos importantes ao longo dos últimos 12 meses. Em Abril, ficámos a saber que o concurso internacional para a construção foi vencido pelo consórcio luso-cabo-verdiano Mota-Engil e Empreitel Figueiredo. Já em Dezembro, foi avançada a data de 19 de Janeiro para o arranque oficial dos trabalhos, financiados pelo Fundo Orio, dos Países Baixos, e Fundo OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) para o Desenvolvimento Internacional, no valor aproximado de 26,4 milhões de euros.

Menos sorte parece ter a empreitada do novo Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design (CNAD), praticamente parada desde o início do ano, por falta de financiamento. Abrãao Vicente, ministro da Cultura, prometeu em Novembro tudo fazer para mobilizar o montante necessário para finalizar uma das principais marcas do seu mandato, dando à cidade um equipamento cultural moderno e com múltiplas valências.

A piscina oceânica do Mindelo foi uma das obras de que mais se falou ao longo de 2021, em São Vicente. Instalada na praia da Lajinha, a infra-estrutura foi inaugurada em Agosto, depois de vários meses de montagem. A falta de fundo tem inviabilizado o uso do espaço pelas escolas de natação, como se esperava.

Se muito se disse da piscina, mais ainda se comentou sobre o bar que lhe serve de apoio – e que é a única parte do investimento que funciona em pleno. Em causa, a autorização para venda de bebidas alcoólicas, num local que foi originalmente anunciado como alcohol free. O então ministro do Mar, Paulo Veiga, chegou mesmo a dar uma conferência de imprensa para justificar a mudança de abordagem.

Agosto também viu ser cortada a fita do Mansa Floating Hub. Na Baía do Porto Grande, composto por três módulos, o Floating Hub, do empresário maliano Samba Bathily, foi pensado para ser local de promoção das várias formas de expressão artística de África e da diáspora do continente.

Eventos

São Vicente afirma-se pelos seus eventos. Da agenda anual fazem parte marcas fortes, indissociáveis da própria essência da ilha. Em ano de pandemia, nem todos se realizaram e outros aconteceram de forma condicionada.

A principal diferença sentiu-se em Fevereiro, quando a cor, a música e a dança foram substituídas por ruas vazias, num carnaval que não aconteceu.

Já antes, 2021 tinha sido recebido sem o habitual baile da rua de Lisboa, a multidão na Marginal para ver o fogo-de-artifício e uma série de outras tradições tão genuínas.

Em Julho, com a campanha de vacinação a todo o gás, o Kavala Fresk Feastivalexperimentou um regresso à normalidade possível. O evento gastronómico arriscou um novo formato, ao longo de três dias, com o envolvimento de vários restaurantes e numa tentativa de ajudar um dos sectores mais afectados pelas medidas de combate à covid-19.

Semanas mais tarde, em Agosto, a Baía das Gatas voltou a ficar vazia, pelo segundo ano consecutivo, com o festival limitado ao formato digital.

Em Novembro, quem não falhou, ao vivo e a cores, foi o Mindelact, que provou (à semelhança de 2020), com o sucesso habitual, que mesmo em pandemia é possível trazer o teatro do mundo aos palcos de Soncent.

No mesmo mês, também em cartaz, a Cabo Verde Ocean Week e novamente com programação híbrida.

O último grande evento de 2021 foi a URDI (de 24 a 28/11), com o desejado reencontro com a Praça Nova, depois de em 2020 ter tido uma dimensão meramente simbólica, adaptada às circunstâncias sanitárias.

E um adeus

A 29 de Abril, Mindelo despediu-se de uma das suas principais figuras, Onésimo Silveira. Intelectual, escritor, diplomata e político, Onésimo não foi uma figura unânime, mas mesmo os seus opositores nunca deixaram de lhe reconhecer o valor e a personalidade únicos. Doutor Honoris Causa, pela Universidade do Mindelo, o seu espólio está, desde 7 de Dezembro, disponível nas instalações desta instituição de ensino superior. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1048 de 29 de Dezembro de 2021. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,2 jan 2022 10:10

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  19 jan 2022 7:19

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