Até que ponto as redes sociais influenciam o bem-estar psicológico dos adolescentes?

PorSheilla Ribeiro,5 mar 2023 7:41

As redes sociais fazem parte da sociedade actual e são cada vez mais frequentes os debates sobre o seu impacto na vida e no bem-estar dos jovens. Em Cabo Verde, redes sociais como o Instagram, Facebook, TikTok e WhatsApp fazem parte da rotina diária dos mais novos, que as procuram como fonte de entretenimento e de comunicação com seus pares. Mas, até que ponto as redes sociais influenciam no bem-estar psicológico dos adolescentes?

Beatriz, de apenas 15 anos, tem um perfil no Instagram, um no Tik Tok, um no SnapChat, um no Facebook e ainda usa o WhatsApp. O Tik Tok, entretanto, é o seu preferido por considerar ser a rede social mais divertida e com vídeos mais criativos.

“Eu considero-me uma viciada no Tik Tok já que passo horas vendo os vídeos ou então aprendendo danças. Ainda assim consigo concluir todas as tarefas diárias, inclusive, se eu não concluir tenho o telefone confiscado”, conta a adolescente.

Segundo revela, o pai impôs a condição de usar o telemóvel, sem que o mesmo seja apreendido, depois de estudar e ajudar nas tarefas domésticas. Caso contrário, a jovem admite que passaria o dia todo com o telemóvel nas mãos.

As redes sociais têm grande influência na sua relação com os colegas, segundo Beatriz. Aliás, frisa que quando não as usa, a sensação é a mesma de sair de casa sem uma peça de roupa. Isto porque a conversa entre os amigos gira em torno dos acontecimentos nas diferentes redes e, se se deixar de se conectar por um dia, perde-se o fio da meada.

“Sempre que vemos uma tendência, sobretudo no TikTok, comentamos pelo WhatsApp e logo começamos a gravar e a comparar quem fez melhor. Também usamos o WhatsApp para comentar algum acontecimento na escola ou mesmo para fofocar sobre os mais populares nas redes sociais”, narra.

A jovem diz que o facto de todos os colegas usarem as mesmas redes sociais torna-os mais próximas, estando constantemente em contacto. Com pouco mais de mil seguidores no TikTok, Beatriz revela que mais da metade são estranhos.

“São estranhos, mas para mim é muito importante o número de seguidores. O número de gostos e o número de comentários não é tão importante porque não sou muito de publicar conteúdos. Prefiro muito mais assistir. Até gravo vídeos, faço fotos, mas quase sempre opto por não publicar”, admite.

A jovem afirma que a maioria dos seus colegas dá muita importância não apenas ao número de seguidores, como também ao número de gostos e comentários.

“Tenho amigas que se preocupam tanto com os gostos que ao publicarem uma foto ou um vídeo ficam de olhos postos no ecrã à espera das reacções. Depois mandam mensagem no WhatsApp a dizer que o fulano ou a fulana reagiu à sua publicação”, relata.

De acordo com a adolescente, quase sempre os colegas estabelecem uma meta a atingir com as suas publicações. Ou seja, a foto ou vídeo deve ter um determinado número de gostos, caso contrário, o mesmo é apagado.

“Se não atingir o número de gostos almejado, significa que as pessoas não gostam do que publicam, mas, se atingir, comentamos entre nós no WhatsApp”, explana.

No liceu onde estuda Beatriz, os alunos cujas publicações têm muitos gostos e comentários, são considerados “TOP”. Aqueles menos populares nas redes sociais almejam a mesma popularidade na net.

“Alguns até são populares no mundo real, assim como no virtual. Aqueles que têm a popularidade apenas nas redes sociais, comentamos que compram seguidores. Há esta opção. Todos queremos ser populares nas redes sociais porque os populares, normalmente, se relacionam mais uns com os outros do que com meros mortais (risos)”.

Beatriz afirma ser consciente de que existe bullying nas redes sociais, através dos chamados memes, que são mensagens irónicas, quase sempre acompanhadas de imagem ou vídeo. Comentários com tons de desprezo e chacota também são frequentes. Contudo, nunca lhe aconteceu algo parecido, nem aos seus amigos.

Lidar com filhos adolescentes e sua presença nas redes

Dulcelina Monteiro é mãe de duas adolescentes. Uma de 13 e outra de 14 anos de idade.

“Ser mãe de duas adolescentes é complicado e dá muito trabalho. Em primeiro lugar, acham que sabem tudo e que os pais não sabem nada. Em segundo lugar, há pouca conversa. Passam mais tempo no quarto, no seu mundo, no telemóvel”, confidencia.

Para exemplificar, cita que a filha mais velha troca o código do telemóvel a cada sete dias, para que os pais não tenham acesso. Ainda assim, garante que consegue ter acesso e fiscalizar o que a mesma tem feito.

“Se antes as minhas filhas se sentavam connosco para ver um filme ou um desenho animado, actualmente é quase impossível que isto aconteça. Como estão sempre trancadas no quarto ao telemóvel, fico com a sensação de que estou num país e elas noutro, mesmo estando dentro da mesma casa”, aponta.

Isto, mesmo tendo as filhas limites para o uso de aparelhos electrónicos e internet. Aos fins-de-semana, as adolescentes podem usar o telemóvel, computador ou tablet a tarde toda. Todavia, de segunda a sexta-feira, ao chegarem em casa, depois das aulas, devem estudar e só é permitido assistir à televisão.

“Chegam em casa, comem, descansam um pouquinho e mais tarde estudam. Essa é a rotina delas de segunda a sexta-feira. É por isso que liberamos os aparelhos electrónicos aos fins-de-semana e, mesmo assim, também temos de estar alertas porque senão passam a madrugada agarradas ao telemóvel”, admite.

A par do limite do tempo de uso, Dulcelina Monteiro garante que todos os aplicativos instalados nos aparelhos das filhas são controlados através do seu email e o do marido. Por esta razão, sabe que as redes mais utilizadas pelas filhas são o TikTok e o WhatsApp, além do jogo Roblox.

No WhatsApp conversam com as amigas e no TikTok aprendem danças que são tendências naquela rede. Aliás, sublinha que as filhas gastam muita energia com as danças.

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“Por acaso não confiscamos os telemóveis. Os aparelhos ficam em cima da mesa na cozinha, assim como os tablets durante a semana. Nas férias, se alguém tiver um desempenho escolar fraco fica sem o telemóvel e o castigo é estudar todos os dias”, assevera.

Para esta mãe, a privação do uso do telemóvel e, consequentemente, das redes sociais, é uma óptima forma de castigar, por considerar que os mesmos influenciam muito no dia-a-dia das filhas.

“Estão sempre preocupadas com as reacções das pessoas às suas publicações. Por isso ficamos em cima, atentos aos desafios que propõem uns aos outros, também a questão do bullying. É por isso que quando proibimos o uso, esforçam-se mais”, considera.

Especialista recomenda aos pais para estarem atentos

Autora do estudo “A Influência das Tecnologias de Informação e Comunicação nas Relações Familiares”, a psicóloga Fabrízia Martins explana que com o aparecimento das redes sociais a comunicação tornou-se mais fácil, mais prático e mais rápido, mas nem sempre mais eficaz.

Actualmente, prossegue, as crianças e jovens além das mudanças típicas da idade estão mais propensos à insegurança, depressão, ansiedade, como consequência das redes sociais.

“De certa forma, as redes sociais têm impacto a nível neurológico nos adolescentes, principalmente por ser uma fase em que estão obcecadas com a aparência e muito preocupados com o que os outros pensam sobre eles”, elucida.

Conforme a psicóloga, na adolescência os jovens estão mais preocupados com o facto de serem aceites ou rejeitados pelos colegas, o que faz com que haja alguma disfunção.

“É por isso que os adolescentes são mais vulneráveis ao bullying, comportamento extremamente frequente nas redes sociais”, enfatiza.

Segundo a especialista, a rejeição online é tomada pelos adolescentes como uma rejeição no mundo real pelo facto de levaram o mundo virtual muito a sério e como extensão do mundo real.

“Os adolescentes hoje dependem muito do número de gostos nas fotografias e publicações, número de amigos ou seguidores e esses, muitas vezes, são tidos como objectivos para superar determinadas frustrações. Nesta fase é comum que a opinião do outro se torne mais importante do que a opinião própria”, indica.

Para pertencer ao grupo, prossegue, é comum que os adolescentes reprimam aquilo que realmente pensam e sentem e o uso das redes sociais os torna «ainda mais influenciáveis, ampliando a dificuldade de se sentirem autênticos.

No caso de rejeição online, Fabrízia Martins considera que pode originar ansiedade, depressão, baixa autoestima, insatisfação pessoal, falta de afecto e carinho, isolamento, distanciamento da vida real, das relações familiares e problemas de gerir as próprias emoções.

“Actualmente, os gostos, reacções e o número de amigos são os sentimentos positivos de aceitação social. São os números de gostos e o número de amigos que fazem com que os adolescentes fiquem presos aos telemóveis. Tanto meninas, como rapazes”, explicita.

Nas suas explicações, Fabrízia Martins é clara que entre as causas mais reconhecidas da dependência das redes sociais encontra-se a baixa autoestima, a insatisfação pessoal, depressão ou hiperactividade e, inclusive, a falta de afecto. Carência que muitas vezes os adolescentes tentam preencher com os famosos gostos.

Na relação familiar, o uso excessivo das redes sociais, influencia principalmente nos hábitos de sono, uma vez que deixa de haver uma rotina de horário de dormir, além do impacto físico e psicológico.

De acordo com a psicóloga, o desenvolvimento social, intelectual e emocional são afectados e a nível físico denota-se muita irritabilidade, obesidade devido ao sedentarismo, entre outros.

“Os pais e encarregados de educação devem supervisionar as crianças e adolescentes, porque ao usarem as redes sociais há muitos perigos e conteúdos inadequados às suas idades. É sempre importante a supervisão dos mais velhos; há o problema de convívio social, quando a criança deixa de conviver socialmente e prefere estar sempre ao telemóvel a qualquer hora e em qualquer lugar”, alerta.

“É importante que os pais estabeleçam o horário de uso e local, não podem aceitar que uma criança ou adolescente use o telemóvel fechado no quarto; não devem usar os aparelhos na hora das refeições, ou num momento familiar, já que quando é assim não há conversa”, recomenda.

Fabrízia Martins apela ainda aos pais que estejam mais próximos das crianças e adolescentes e que procurem por dispositivos tecnológicos adequados ao seu desenvolvimento e às suas necessidades de aprendizagem. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1109 de 1 de Março de 2023.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,5 mar 2023 7:41

Editado porSara Almeida  em  23 nov 2023 23:28

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