Nos últimos meses, comerciantes da Cidade da Praia têm sido vítimas de uma onda de assaltos violentos, deixando proprietários e clientes em estado de choque e insegurança. Varios estabelecimentos comerciais foram alvo de criminosos armados que, além de levarem dinheiro e pertences, dispararam contra clientes e funcionários.
Momento de terror
No dia 6 de Março, por volta das 19h15, um estabelecimento comercial na Zona 4 foi invadido por quatro indivíduos vestidos de preto, encapuçados e armados. A proprietária, que prefere não se identificar, descreve os momentos de pânico vividos naquele dia:
"Pouco antes do encerramento, a loja estava cheia de clientes, tanto no interior como na varanda da rua que dá acesso ao estabelecimento. Eu estava na caixa, a fazer as vendas, quando, de repente, chegaram quatro indivíduos armados. Assim que entraram na varanda, um dos clientes levantou-se assustado e foi imediatamente baleado no quadril por um dos assaltantes. Logo depois, outro cliente, que estava perto da porta, também foi alvejado. No momento, pensei que ele tivesse morrido, pois caiu no chão e não se levantou. Felizmente, o segundo tiro não o atingiu."
Dentro da loja, os assaltantes anunciaram o roubo e agiram rapidamente. "Colocaram uma arma na minha cabeça, viraram a caixa e levaram todo o dinheiro, além do telemóvel usado para fazer carregamentos de saldo telefônico. Foi tudo muito rápido, em menos de dois minutos. No final, só restavam eu, os assaltantes e o cliente ferido", relata.
O impacto psicológico do crime tem sido profundo. "Desde então, o movimento da loja caiu, especialmente no final do dia, que era o horário de maior movimento. Investimos em grades para reforçar a segurança, mas a sensação é de estarmos presos, reféns da violência."
A proprietária lamenta a falta de acção das autoridades. "A polícia recolheu depoimentos e provas, mas nada foi resolvido. Eu mesma fiz uma investigação e levei os nomes dos quatro suspeitos às autoridades, mas até agora não houve resposta. A justiça precisa ser mais rigorosa com esses delinquentes. Muitos são menores de idade, protegidos pela lei. Eles conhecem as regras e colocam sempre um menor para assumir a culpa, porque sabem que nada acontecerá."
Assalto em Ponta d’Água
Menos de um mês depois, no dia 21 de Março, por volta das 19h00, um outro estabelecimento comercial foi assaltado na zona de Ponta d’Água. Três indivíduos armados e encapuçados invadiram a loja momentos antes do encerramento.
"Os assaltantes estavam escondidos num espaço lateral ainda sem construção. Esperaram o momento certo e invadiram pela porta da frente. O ataque durou pouco mais de um minuto. Assim que entraram, anunciaram o assalto, manipularam as armas e apontaram para o operador de caixa. A intenção era afastar os clientes e roubar rapidamente o dinheiro", conta a responsável pela loja, que também prefere não se identificar.
No momento do crime, o irmão da responsável, que é sócio-gerente da loja, estava no andar superior. "Ele já estava nas escadas para sair quando um cliente gritou para chamar a polícia. Ao tentar voltar para o escritório, um dos assaltantes atirou contra ele, mas, por sorte, o tiro não o atingiu. Após o disparo, os criminosos fugiram apressadamente."
Desta vez, uma viatura da Polícia Nacional passava na estrada no exacto momento da fuga e iniciou a perseguição. "Na tentativa de fuga, os assaltantes deixaram para trás uma mochila com parte do dinheiro retirado da caixa, mas ainda conseguiram levar cerca de 70 mil escudos."
Apesar da resposta rápida da polícia, a comerciante expressa frustração com a recorrência dos crimes. "Já é o terceiro assalto e tivemos ainda duas invasões. Sempre registamos queixa na polícia, mas nunca tivemos resultado. A impunidade está a tornar-se uma chacota."
Nos últimos dias, a Cidade da Praia tem sido palco de uma série de assaltos a estabelecimentos comerciais, entre os locais afectados estão na lista dos assaltantes a livraria Nhô Eugénio, o minimercado Meu Super e um estabelecimento comercial em Fundo Kobom.
Assalto à Livraria Nhô Eugénio
O gerente da livraria, Rui Furtado, relatou que ao chegar ao estabelecimento por volta das 07h00 da última terça-feira, dia 31 de Março, encontrou as portas arrombadas. "Não sei a que horas aconteceu, pois fechei às 21h00 e quando cheguei de manhã já estava assim. O fecho da porta foi arrebentado e o operador de caixa foi assaltado. Levaram cerca de 60 contos em dinheiro e 200 bilhetes do Crioul Jazz Festival", explicou.
Sobre a sensação que fica após o ocorrido, afirmou: "Nada boa, qual é a sensação que fica? A má sensação. Isto é mau, não é bom. A polícia veio logo de manhã, depois vieram outros agentes e depois fui à Judiciária e eles também vieram fazer a coisa."
Quanto à possibilidade de os bens roubados serem recuperados, Rui Furtado não tem esperança. "O dinheiro, não deve ser. Quem anda a fazer isto é porque acha-se mais merecedor do fruto do trabalho dos outros, talvés porque precisa mais. Os bilhetes vão ser vendidos ao desbarato por aí."
Assalto ao Minimercado Meu Super
Outro assalto ocorreu no minimercado Meu Super, também em Achada Santo António, ainda no mês de Março. A sub-gerente do estabelecimento, Ana, descreveu a acção:
"O assalto aconteceu por volta das 20h40, sendo que o nosso horário de fecho é às 21h00. Foram quatro indivíduos: três entraram e um ficou na porta a vigiar. Os que entraram estavam todos vestidos de preto, encapuçados, armados e usavam luvas pretas."
Segundo a sub-gerente, dois clientes estavam na caixa no momento da invasão. "Assim que saíram, os assaltantes entraram. Eu e o segurança estávamos no talho e outra funcionária na caixa. Um dos assaltantes encurralou aoperadora de caixa, o outro apontou a arma para mim e para o segurança. O meu colega que estava perto da casa de banho trancou-se lá dentro e accionou a polícia."
O grupo retirou dinheiro da caixa, um telemóvel, bebidas e um perfume. "A polícia chegou em menos de um minuto após ser accionada, mas os ladrões já tinham fugido. O que mais estranhamos é que eles não falaram nada e foram directamente para a caixa e para o local onde se encontrava o dinheiro da venda de três dias. Levaram duzentos e tal contos."
Assalto em Fundo Kobom
Em Fundo Kobom, por volta das 19h40, um estabelecimento comercial também foi alvo de assalto, no mês de Março.
"A loja fecha às 20h00. Cerca de dez minutos antes do assalto, um rapaz entrou e agiu de maneira suspeita, portava a mesma mochila que os assaltantes usaram depois. Os três que entraram encontraram a loja cheia, era horário de ponta," relata o responsável pela loja.
A polícia chegou três minutos depois, mas os criminosos conseguiram fugir, levando cento e tal mil escudos. "Roubaram também a minha carteira com documentos, incluindo o meu passaporte. Mais tarde, a mochila dos assaltantes foi encontrada em Achada Grande-Trás, juntamente com as roupas usadas no assalto e os meus documentos. Alguém reconheceu a minha foto e entrou em contacto comigo. A polícia recolheu as evidências, mas até agora nada se resolveu."
O comerciante acredita que os assaltos são realizados pelo mesmo grupo. "Pelos modos operantes, são os mesmos que têm realizado vários assaltos na Praia. Dias depois, outro estabelecimento em Monte Vermelho foi assaltado com as mesmas características e sinais de maior agressividade."
A vitima ainda critica a falta de segurança: "Há muitos agentes que estão 'parados'. Se houvesse patrulhamento severo, a violência poderia diminuir. Pagamos impostos, trabalhamos legalmente, mas não temos segurança. Estamos presos dentro de casa, limitados a buscar o 'pão de cada dia' por conta dos bandidos que estão à solta. No dia do assalto houve um corte de electricidade, trabalhávamos com um painel solar. Os clientes ficaram em pânico. Agora fechamos antes do horário normal e deixamos pouca quantia na caixa, mas eles podem voltar a qualquer momento."
Autoridades
A série de assaltos recentes tem gerado preocupação na comunidade. Comerciantes e moradores cobram maior presença policial e estratégias para conter a criminalidade. Apesar da rápida resposta da polícia em alguns casos, os autores dos crimes continuam foragidos. Resta saber se as autoridades reforçarão o patrulhamento para evitar novos assaltos e recuperar os bens roubados. Tentamos, por diversava vezes, ouvir um possicionamento da Polícia Nacional, mas o mesmo se mostrou sem sucessos.
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De acordo com os dados mais recentes, em 2024, a Polícia Nacional registou 20.524 ocorrências criminais, o que representa uma redução de 10,1% em comparação com o ano anterior e uma diminuição acumulada de 11% na última década. Essa queda foi generalizada em todo o país, excepto na ilha do Sal, que apresentou um aumento nas ocorrências. No plano municipal, 17 dos 22 concelhos registaram diminuições, destacando-se Santa Catarina de Santiago, São Miguel, Porto Novo e Brava, com reduções superiores a 24%.
Na capital, Praia, os crimes diminuíram 8%, enquanto em São Vicente a redução foi de 13,4%. Em termos de tipologia, houve queda tanto nos crimes contra pessoas quanto contra o património. Os crimes contra pessoas totalizaram 9.180 ocorrências, uma redução de 8,21%, destacando-se diminuições nas ofensas à integridade física (7,5%), na violência baseada no género (11,2%) e nas agressões sexuais (14,8%). Os crimes contra o património diminuíram 11,63%. Os furtos caíram 13,4% e os roubos, 12,5%.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1218 de 2 de Abril de 2025.