Mercado de trabalho em Cabo Verde melhora, mas informalidade e jovens NEET continuam a travar o potencial do país

PorSheilla Ribeiro,24 jan 2026 10:05

O mercado de trabalho em Cabo Verde tem apresentado sinais claros de melhoria nos últimos anos, traduzidos numa descida acentuada da taxa de desemprego e num crescimento consistente da taxa de emprego. Ainda assim, esta evolução favorável convive com desafios persistentes que continuam a condicionar o aproveitamento pleno do capital humano disponível no país. A informalidade laboral e a elevada proporção de jovens fora do sistema de ensino, do emprego e da formação profissional surgem como os principais factores de preocupação identificados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

A avaliação foi apresentada ao Expresso das Ilhas pelo representante do FMI em Cabo Verde, Rodrigo García-Verdú, no âmbito da apresentação feita na conferência “Mercado de Trabalho em Cabo Verde: Competências para uma Nova Economia”.

O estudo baseia-se em dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE) e do Censo 2021.

“É positivo o desempenho do mercado de trabalho cabo-verdiano, tanto pela parte da queda da taxa de desemprego, como pelo aumento da taxa de emprego”, sublinhou o economista.

Segundo a análise apresentada, a taxa de desemprego registou uma diminuição significativa ao longo deste período, com uma redução percentual próxima dos 60%, um desempenho particularmente relevante num contexto marcado por choques externos sucessivos, como a pandemia da Covid-19 e as tensões económicas internacionais.

Em paralelo, a taxa de emprego aumentou de forma generalizada em praticamente todos os grupos etários, com excepção da população com mais de 65 anos, já maioritariamente em idade de reforma.

Este duplo movimento, menos desemprego e mais pessoas empregadas, constitui um indicador robusto de melhoria do funcionamento do mercado laboral, sobretudo quando analisado em conjunto com a demografia do país, caracterizada por uma população ainda jovem e maioritariamente em idade activa. Contudo, o próprio FMI alerta para o facto de estes progressos não eliminarem problemas estruturais de longa data.

“As partes menos positivas da avaliação prendem-se com o facto de ainda termos uma parte muito elevada de trabalhadores informais, que não beneficiam de segurança social através do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS)”, advertiu Rodrigo García-Verdú.

Conforme os dados analisados, a informalidade atinge perto de metade da população empregada em Cabo Verde. Trata-se de trabalhadores que, apesar de exercerem uma actividade económica, não estão inscritos no INPS, ficando excluídos de protecção em situações de doença, desemprego, maternidade ou reforma. Embora se tenha registado uma redução gradual deste fenómeno ao longo dos últimos anos, a sua dimensão continua a ser considerada excessiva.

Paralelamente, persiste uma elevada proporção de jovens classificados como NEET, acrónimo inglês que designa aqueles que não estão empregados, nem a estudar, nem em formação. Este grupo representa cerca de um quarto da população entre os 15 e os 35 anos, um valor que, apesar de ter diminuído, permanece preocupante do ponto de vista económico e social.

“Mesmo que tenha diminuído a informalidade, mesmo que tenha diminuído a proporção do NEET, continuam elevadas. Seria desejável que continuasse a um maior ritmo a queda dos NEET e a formalização do emprego”, defendeu o representante do FMI.

Para o organismo internacional, estes dois factores constituem entraves ao crescimento potencial da economia cabo-verdiana. A exclusão de uma parte relevante da força de trabalho do sistema formal limita a base contributiva da segurança social e reduz a capacidade do Estado para financiar políticas públicas. Já a inactividade prolongada de jovens representa um desperdício de recursos humanos num país com limitações estruturais e forte dependência do capital humano.

Margens de manobra

Uma das preocupações centrais, segundo o economista, prende-se com o risco de desequilíbrios entre a procura e a oferta agregadas, num contexto em que a população em idade laboral cresce a um ritmo cada vez mais lento.

“A nossa preocupação é que eventualmente tenhamos um aumento da procura que não seja acompanhado por um aumento da oferta. Quando o crescimento da procura agregada é superior ao crescimento da oferta agregada, isso pode levar a um aumento da inflação”, explica García-Verdú.

Apesar deste risco teórico, o FMI considera que, a curto prazo, existem ainda margens de manobra para aumentar a oferta de trabalho e evitar pressões inflacionistas.

Entre as possibilidades identificadas estão a integração dos jovens NEET no mercado laboral, o aumento do número de horas trabalhadas por pessoas em situação de subemprego e a atracção de trabalhadores estrangeiros.

Neste último ponto, o economista recordou que o subemprego continua a ser elevado em Cabo Verde, com muitos trabalhadores a exercerem actividades a tempo parcial, apesar de desejarem trabalhar mais horas. A mobilização deste potencial permitiria responder a um aumento da procura sem recorrer, de imediato, a ajustamentos de preços.

A emigração, fenómeno histórico e estrutural do país, também foi objecto de análise no estudo apresentado. Utilizando dados do Censo 2021, o FMI procurou avaliar o impacto da saída de cabo-verdianos no comportamento da taxa de desemprego, contrariando leituras simplistas frequentemente presentes no debate público.

“Os dados mostram que, para as pessoas em idade laboral mais produtiva, entre os 25 e os 59 anos, a maioria estava empregada no momento em que emigrou, 60%”, referiu.

Este dado tem implicações directas na forma como a taxa de desemprego evolui. Como esta taxa resulta da relação entre o número de desempregados e a população activa total, a saída de pessoas empregadas pode, de forma mecânica, provocar um aumento do indicador, mesmo num contexto de crescimento económico.

Assim, a emigração nem sempre contribui para a redução do desemprego, dependendo da composição dos fluxos migratórios.

“É um pouco paradoxal, mas a emigração pode originar um aumento da taxa de desemprego. Tudo depende da proporção dos emigrantes que estavam empregados e dos que estavam sem emprego”, esclareceu.

Para além do mercado de trabalho, o estudo do FMI abordou a relação entre crescimento económico e produtividade. Nos últimos anos, Cabo Verde registou um aumento significativo do Produto Interno Bruto (PIB) real, que não pode ser explicado apenas pela expansão do emprego ou do capital físico. Segundo o FMI, uma parte substancial deste crescimento resulta de ganhos de produtividade.

“Estamos a fazer mais e melhor com os mesmos recursos. Isso inclui melhorias no capital humano, nas práticas de gestão, na organização das empresas e na tecnologia”, indicou García-Verdú.

Um dos factores determinantes para estes ganhos tem sido a transformação estrutural da economia, com a deslocação gradual da mão-de-obra do sector primário, de menor produtividade, para o sector terciário, onde se incluem os serviços e, em particular, o turismo. Este sector afirma-se como o principal motor do crescimento económico, tanto pelo lado da procura, através da exportação de serviços, como pelo lado da oferta, com um contributo significativo para o emprego formal.

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Ainda assim, o FMI alerta para a necessidade de aumentar o valor acrescentado gerado pelo turismo, reduzindo a dependência de modelos “all inclusive” fortemente assentes em insumos importados e com fracas ligações à economia local. A melhoria da conectividade interilhas surge como uma condição essencial para diversificar a oferta turística e potenciar os efeitos multiplicadores do sector.

No plano das políticas públicas, o FMI defende a continuidade dos esforços de formalização do emprego, sublinhando, contudo, que esta tarefa se torna progressivamente mais exigente à medida que os trabalhadores mais fáceis de integrar no sistema formal já foram incorporados. As zonas rurais e os segmentos mais vulneráveis da população representam desafios adicionais.

Recomendações

Entre as recomendações gerais avançadas, Rodrigo García-Verdú apontou a necessidade de garantir a sustentabilidade financeira do INPS sem recorrer ao aumento da taxa contributiva, actualmente fixada em 24,5%. Um agravamento deste encargo poderia desencorajar a criação de emprego formal e comprometer os avanços alcançados na redução do desemprego.

“Iria limitar a continuação da queda da taxa de desemprego e também a continuação do aumento da taxa de emprego formal, a participação do emprego formal no emprego total. Esta é uma primeira recomendação”, elencou.

O FMI chama ainda a atenção para a importância de uma gestão prudente das garantias do Estado ao crédito, para evitar distorções no sistema financeiro que prejudiquem o acesso das empresas ao financiamento.

“Os bancos não vão encontrar atractivo emprestar a empresas quando temos um montante tão elevado de garantias. Porquê? Porque o crédito com garantia aos 100% do Estado, com aval do Estado, é muito mais lucrativo que o crédito ao sector privado, as empresas. Por isso é muito importante que o governo racionalize e limite”, recomendou.

Apesar das fragilidades identificadas, a perspectiva traçada para os próximos anos mantém-se moderadamente optimista. O FMI antecipa a continuação do crescimento económico e a descida gradual do desemprego, incluindo entre os jovens, mas alerta que o crescimento, por si só, não resolverá problemas de natureza estrutural.

“Existem razões estruturais que podem fazer com que, mesmo com crescimento elevado, a informalidade e a proporção do NEET não diminuam ao ritmo desejado”, concluiu Rodrigo García-Verdú.

Metodologia

A avaliação apresentada pelo FMI baseia-se principalmente nos dados do Inquérito Multiobjectivo Contínuo do Instituto Nacional de Estatística, complementados pelos resultados do Censo 2021. Para garantir a comparabilidade ao longo do tempo, foi utilizada uma série longa construída com base na metodologia da 13.ª Conferência Internacional dos Estatísticos do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho, permitindo uma análise consistente do período entre 2016 e 2024.

Os dados mais recentes, de 2022 a 2025, foram analisados separadamente, segundo a nova metodologia adoptada pelo INE.

De referir que na passada quarta-feira, 14, o Ministério das Finanças realizou a conferência “Mercado de Trabalho em Cabo Verde: Competências para uma Nova Economia”.

O objecto era promover um debate estratégico e informado sobre o futuro do mercado de trabalho em Cabo Verde, com enfoque no desenvolvimento de competências ajustadas às exigências de uma economia que se quer cada vez mais moderna e competitiva, bem como reforçar a empregabilidade, a produtividade e a competitividade do país.

Além de Rodrigo García-Verdú, participou na conferência a economista sénior do Banco Mundial, Anna Carlotta Allen Massingue.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1260 de 21 de Janeiro de 2026.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,24 jan 2026 10:05

Editado porEdisângela Tavares  em  24 jan 2026 13:46

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