A outra face da luta na Guiné (I) - A presença cubana na Guiné-Bissau que o PAIGC quis esconder

PorJorge Montezinho,25 jan 2026 9:14

Muitos países ajudaram o PAIGC na sua luta. Mas Cuba fez muito mais e o seu papel foi único. Apenas os cubanos lutaram na Guiné-Bissau ao lado dos guerrilheiros do PAIGC. Na Guiné-Bissau, Cuba seguia a sua própria política, as origens da relação de Cuba com o PAIGC não tinham nada a ver com a União Soviética; estavam enraizadas na viagem de Guevara a África e no crescente interesse de Cuba pela África subsaariana.

Os primeiros contactos dão-se no início de 1963, com as embaixadas cubanas na Argélia, Guiné e Gana e em Agosto o PAIGC perguntou se cinco dos seus membros poderiam receber “instrução militar e política em Cuba por cinco ou seis meses”, relatou o encarregado de negócios cubano em Conacri. Havana concordou, mas nada fez. “O PAIGC ainda está à espera que cumpramos a promessa de treinar os seus membros”, reclamou o embaixador cubano em Accra citado no livro ‘Havana, Washington, and Africa, 1959-1976 (Envisioning Cuba)’, escrito por Piero Gleijeses.

Em Dezembro seguinte, protestaram: “Se não ajudarmos agora, não poderemos reclamar depois.” Mas não está claro se os cinco membros do PAIGC chegaram a ir a Cuba. Ao longo de 1964 Cuba nada fez para ajudar o PAIGC. Foi a viagem de três meses de Che Guevara a África [Dezembro de 1964] que forjou a ligação entre o PAIGC e Havana. “Enquanto estava em Conacri”, noticiou o jornal guineense Nõ Pintcha, “Che Guevara pediu para se encontrar com os nossos líderes e até atrasou a partida da Guiné para ver o nosso secretário-geral.” Em 12 de Janeiro de 1965, Che encontrou-se com Amílcar Cabral.

Em meados de Maio, o navio Uvero levou alimentos, armas e medicamentos para o PAIGC em Conacri, cumprindo a promessa de Che a Amílcar Cabral. “A ajuda militar cubana está a chegar aos rebeldes guineenses, provavelmente como resultado da visita de Che Guevara à Guiné em Janeiro passado”, relatou o adido naval dos EUA alguns dias depois. “Cerca de sessenta caixas de armas foram descarregadas à noite do cargueiro Uvero, que esteve em Conacri na semana passada”.

Em Janeiro de 1966, Cabral fez a primeira viagem a Cuba, quando liderou a delegação do PAIGC à Conferência Tricontinental em Havana. Após o discurso, Cabral e Castro conversaram longamente. Estavam sozinhos, com excepção de Oscar Oramas, um funcionário do Ministério das Relações Exteriores. “Amílcar explicou a história de nossa luta pela independência”, escreveu Luís Cabral, meio-irmão e assessor próximo de Amílcar. “Fidel tornou-se cada vez mais consciente dos problemas que enfrentávamos. Quando Amílcar falou da nossa necessidade de artilharia, Fidel entendeu que também precisaríamos de instrutores; quando Amílcar falou da vida nas regiões libertadas, o líder cubano entendeu que precisávamos de médicos. E entendeu que nossas forças armadas precisavam de melhor transporte para serem mais eficazes: Cuba nos enviaria tanto os veículos quanto os homens para ensinar os nossos combatentes a dirigir e fazer a manutenção.” E assim Castro prometeu médicos, instrutores militares e mecânicos para o PAIGC.

Em Conacri, dois oficiais da inteligência cubana acertaram os detalhes da ajuda que Castro tinha prometido. “Encontramo-nos com Amílcar Cabral”, escreveu um deles no relatório para Havana, “e entregamos os revólveres e o dinheiro que Alejandro [Fidel Castro] tinha enviado”. “Cabral pediu que enviássemos três mecânicos... e dez especialistas em morteiros... e que fossem negros ou mulatos escuros para que se misturassem com o seu povo. Eles devem instruir os seus homens... e participar nos combates. O PAIGC precisa deles com muita urgência porque planeia tomar o... [acampamento fortificado] de [Madina de] Boé... Amílcar perguntou se poderíamos enviar esses instrutores de avião, porque a operação está suspensa até que eles cheguem”.

Por insistência do PAIGC, dois artilheiros e três médicos voaram à frente do grupo, chegando a Conacri em 8 de Maio. A 21 desse mês, o navio mercante Lidia Doce partiu de Cuba, chegando a Conacri em 6 de Junho. “Os primeiros técnicos cubanos tinham chegado”, escreve Luís Cabral, “e com eles veio a importante ajuda que havia sido prometida: charutos, o açúcar mascavado que se tornaria tão popular entre o nosso povo, uniformes e outros equipamentos para as nossas forças armadas, veículos, etc. As promessas de Fidel a Amílcar foram rigorosamente cumpridas.”

Ao todo, havia trinta e um voluntários: onze especialistas em artilharia, oito motoristas, um mecânico, dez médicos (sete cirurgiões e três clínicos) e um oficial de inteligência, o tenente Aurelio Ricard (Artemio), que era o líder do grupo. Em Fevereiro de 1967, comunicados militares portugueses começaram a mencionar que conselheiros cubanos estavam a operar com os guerrilheiros, e um mês depois a CIA escreveu que “pelo menos 60 cubanos... treinavam o PAIGC.”

Missão militar cubana

A Missão Militar Cubana na Guiné e Guiné-Bissau, que administrava a assistência cubana ao PAIGC, tinha a sede em Conacri, numa casa cedida por Sékou Touré, e reportava diretamente à inteligência cubana em Havana, e em particular a Ulisses Estrada, chefe da Direcção 5 da DGI, que abrangia a África e a Ásia.

A 11 de Novembro de 1966, 350 combatentes do PAIGC atacaram o importante acampamento fortificado de Madina de Boé e sofreram um sério revés: o PAIGC não conseguiu tomar o acampamento e sofreu pesadas baixas. Entre os mortos estava o comandante militar sénior, Domingos Ramos. “A morte de Ramos foi um golpe duro”, lembrou um líder do PAIGC. Isso levou Castro à acção. O líder cubano “sugeriu que fizéssemos mais para ajudar”, recordou Oramas, “e Amílcar aceitou com grande prazer a nossa oferta de aumentar a ajuda”. Castro convocou Dreke [Víctor Emilio Dreke Cruz ex-comandante das Forças Armadas Revolucionárias Cubanas] que, desde que regressara do Zaire, chefiava o departamento que treinava os cubanos que iam para as missões militares no exterior e os estrangeiros que vinham a Cuba. “Fidel disse-me: ‘tens que assumir o comando da missão militar na Guiné’”. Castro também insistiu para que Dreke levasse alguns dos homens que estiveram com Dreke no Zaire, “os melhores”.

Em Fevereiro de 1967, Dreke voou para Conacri com Pablito Mena (outro veterano do Zaire) e Reynaldo Batista. Dreke era um comandante, membro do Comité Central e um homem que conhecia África e a guerra de guerrilha. Além disso, inspirava enorme confiança e respeito.

“Aprendemos muito com Moya [nome de guerra de Dreke]”, disse Arafam Mané, um comandante do PAIGC. “Moya foi um líder excepcional”, disse o ex-presidente da Guiné-Bissau, Nino Vieira. Por sua vez, os cubanos ficaram impressionados com o compromisso e a disciplina do PAIGC. “Tivemos uma experiência realmente amarga no Zaire e encontrámos algo completamente diferente na Guiné-Bissau”, observou Dreke.

Em Abril de 1967, havia quase sessenta cubanos na Guiné-Bissau, incluindo vários que tinham estado no Zaire com Che Guevara. O próprio Dreke passava metade do tempo em Conacri e a outra metade na frente de batalha.

Assistência militar cubana

A eficácia da luta do PAIGC deveu-se principalmente a Amílcar Cabral, aos seus comandantes em campo, às tropas guerrilheiras e aos cubanos. “Não queremos voluntários”, disse Cabral a um jornalista britânico em 1967. “Conselheiros ou comandantes militares estrangeiros, ou qualquer outro pessoal estrangeiro, são a última coisa que aceitaremos. Eles privariam o meu povo da única hipótese de alcançar um significado histórico para si: de reafirmar a própria história, de recuperar a própria identidade.” Cabral estava a ser dissimulado: os cubanos já estavam no país, a seu pedido. O que ele disse, no entanto, reflectia as suas convicções mais profundas.

Cabral limitou a participação estrangeira de duas maneiras. Primeiro, recorreu apenas aos cubanos. Ao longo da guerra, foram os únicos estrangeiros a lutar na Guiné-Bissau. Em segundo lugar, limitou o seu número ao mínimo. Quando Risquet [Jorge Risquet, revolucionário cubano que mais tarde participaria na Guerra Civil em Angola] se ofereceu, no final de Agosto de 1966, para ir para a Guiné-Bissau em vez de regressar a Cuba [estava no Congo], Cabral recusou. No ano seguinte, Cabral também rejeitou a sugestão de Dreke de que Cuba enviasse de 200 a 300 homens para ajudar a atacar as fortalezas portuguesas.

Em média, havia cerca de 50 a 60 cubanos, mas apesar do seu pequeno número, a sua contribuição militar foi, como disse o antigo presidente Nino, “de suma importância.” Havia, antes de tudo, “o reforço para o nosso moral”, comentou um comandante do PAIGC. “Aqui estavam homens que tinham cruzado o oceano para vir em nosso auxílio; viviam connosco; partilhavam os nossos sacrifícios.” Os cubanos, disse outro, “eram corajosos; suportaram tudo; comeram o que nós comíamos; fizemos tudo juntos.” Amílcar Cabral tinha convidado os cubanos porque, como Nino recordou, “precisávamos de treino no uso de morteiros e outros tipos de artilharia.” Conforme a guerra progredia, as armas que o PAIGC recebia da União Soviética tornavam-se mais sofisticadas. Os artilheiros tinham que atingir alvos que não conseguiam ver com os próprios olhos.

Isso exigia um nível de conhecimento que poucos combatentes do PAIGC possuíam. Os chefes de bateria, por exemplo, precisavam de saber cálculo. Em Cuba, os chefes de bateria eram sargentos ou segundos-tenentes. Quase todos os voluntários que foram para a Guiné-Bissau eram artilheiros, oficiais e sargentos. Em 1966, eram tanto chefes de bateria como artilheiros. Com o passar do tempo, os combatentes do PAIGC assumiram o papel de artilheiros, mas os chefes de bateria — aqueles que faziam os cálculos e dirigiam os artilheiros — foram, até ao fim, quase sempre cubanos.

Os cubanos também eram especialistas em minar terras e usar armas de infantaria sofisticadas que o PAIGC recebia da União Soviética. “Isso foi muito importante”, comentou um comandante do PAIGC. “Treinaram-nos no local. Chamamos às nossas primeiras bazucas 'cubanas'. Eram fabricadas nos Estados Unidos, mas foram os cubanos que as deram e nos ensinaram a usá-las.”

O estilo de Amílcar Cabral “não era necessariamente o nosso”, comentou Enrique Montero, que chefiou a Missão Militar Cubana em 1969-70. Embora Cabral mantivesse um controlo rígido sobre a estratégia militar, passava a maior parte do tempo fora do país — em Conacri ou a viajar à procura de apoio estrangeiro.

As actividades diplomáticas de Cabral, no entanto, mantinham-no afastado da linha da frente. Cabral não dirigia pessoalmente as operações militares. “Isto preocupava-nos”, explicou Dreke. “A nossa formação e a nossa experiência ensinaram-nos que o líder tinha de estar na linha da frente.”

Os cubanos tentaram disfarçar o facto com cinema. Um ano depois do primeiro contingente militar cubano ter chegado à Guiné-Bissau, chegou a primeira equipa de cinema, liderada pelo realizador Jose Massip. Massip realizou o filme Madina de Boé. O filme destaca-se por ser um dos poucos filmes em torno da luta de libertação em que Amílcar Cabral está, aparentemente, presente nas zonas libertadas. Convivendo com a população e os militares, Cabral enverga uma farda militar, partilhando a iconografia de outros líderes revolucionários da época.

O líder do PAIGC voltaria a ser filmado por Massip em 1971 e desta rodagem permanece um diário do realizador. Em Los Dias del Kankouran, Massip desvenda que Cabral lhe pediu para ser filmado no matu, para contornar críticas de que era alvo: a de se estar a transformar num intelectual urbano, baseado em Conacri, que não se expunha aos riscos da luta armada. Porém, o matu onde Cabral foi filmado não era nas zonas libertadas, como a narrativa fílmica deveria conduzir o espectador a “ver”, mas sim o aquartelamento militar cubano em Kandiafara, território da República da Guiné. O cinema cubano colaborou na construção de uma imagem de Cabral como chefe de guerra.

Além disso, Amílcar Cabral travou uma guerra de desgaste. Não estava interessado em grandes operações em que o PAIGC poderia sofrer pesadas baixas ou uma derrota, e lembrava-se da “lição sangrenta e amarga” do ataque de Novembro de 1966 contra Madina de Boé. “Teríamos preferido uma estratégia mais agressiva, mas adaptamo-nos”, recordou Dreke. “Era o país deles e a guerra deles. Eu fazia sugestões a Amílcar; ele ouvia sem dizer sim ou não, e eventualmente tomava sua própria decisão. Às vezes ele seguia meu conselho; às vezes não.”

Os voluntários

Todos os membros da Missão Militar Cubana — médicos e soldados — eram voluntários. Os voluntários não receberam elogios públicos em Cuba. Partiram “sabendo que sua história permaneceria um segredo”. Não ganharam medalhas nem recompensas materiais. Ao regressarem, não podiam vangloriar-se, estavam obrigados ao sigilo.

A vida dos voluntários na Guiné-Bissau era espartana. Navios cubanos traziam alimentos enlatados, arroz, açúcar, feijão, óleo e café, e a Missão Militar tinha um pouco de dinheiro para comprar alimentos frescos.

Por que os cubanos mantiveram em segredo um papel do qual se orgulhavam? Portugal não tinha condições de retaliar. A maioria dos governos africanos teria recebido bem a notícia de que instrutores e médicos cubanos auxiliavam guerrilheiros africanos que lutavam contra o domínio colonial. Isso não teria afectado as relações de Cuba com os governos latino-americanos e europeus, que melhoraram no início da década de 1970, nem mesmo com os Estados Unidos que sabia que cubanos “trabalhavam como conselheiros com os guerrilheiros” e não se incomodava com isso. A explicação para o silêncio cubano deve ser procurada noutro lugar. Era política do PAIGC negar que estrangeiros estivessem a lutar com os guerrilheiros na Guiné-Bissau, e era política cubana honrar os desejos do PAIGC.

Fonte principal do artigo: Gleijeses, Piero. Conflicting Missions: Havana, Washington, and Africa, 1959-1976 (Envisioning Cuba). The University of North Carolina Press

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O Capitão Peralta

Pedro Rodríguez Peralta foi o único voluntário cubano capturado em África antes de Novembro de 1975. Peralta, que comandava os cubanos na região sul da Guiné-Bissau, foi ferido e feito prisioneiro por paraquedistas portugueses a 18 de Novembro de 1969.

Os portugueses saudaram a captura de Rodríguez Peralta como prova de que os cubanos lutavam ao lado do PAIGC, mas Amílcar Cabral disse a um congressista americano que o questionava: “Senhor, temos médicos cubanos a ajudar-nos. E este homem veio... visitar os seus colegas, os médicos... Ele não é o nosso Lafayette, e não temos cubanos a lutar no nosso país”. Rodríguez Peralta foi julgado e condenado a dez anos de prisão.

“O promotor não conseguiu provar que o réu... tinha sido enviado à Guiné Portuguesa por ordem das autoridades cubanas”, escreveu o New York Times. A captura não foi divulgada em Cuba; apenas a família foi informada.

Em Março de 1971, Havana ofereceu-se para libertar Kirby Lunt, um cidadão americano preso em Cuba por espionagem, em troca de Peralta, mas, apesar da leve pressão dos EUA, Lisboa recusou libertar Peralta até que Havana reconhecesse a ajuda ao PAIGC e prometesse “não enviar mais Peraltas.”

Assim, Rodríguez Peralta permaneceu na prisão de Caxias e foi libertado apenas a 15 de Setembro de 1974.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1260 de 21 de Janeiro de 2026.

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Autoria:Jorge Montezinho,25 jan 2026 9:14

Editado porEdisângela Tavares  em  25 jan 2026 13:19

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