A luta na Guiné-Bissau e os países de Leste - Cabral: bom diplomata mau estratega

PorJorge Montezinho,1 fev 2026 15:01

Em meados da década de 1960, os soviéticos tinham desenvolvido uma relação próxima com Cabral. Moscovo estava empenhada em facilitar uma vitória militar na Guiné-Bissau e continuou a fornecer armas cada vez mais sofisticadas, treino e dinheiro ao PAIGC. Como os conselheiros militares queriam garantir a vitória, surgiram intensos desentendimentos sobre a estratégia de guerrilha. Embora muitos detalhes dessas discussões ainda não estejam claros, conselheiros soviéticos, checos e cubanos partilhavam críticas à estratégia militar de Cabral.

Nos últimos anos, nos arquivos da Rússia e de outros países da Europa de Leste, têm surgido novos documentos que ajudam a compreender a relação de Amílcar Cabral com a URSS, um dos principais patrocinadores do PAIGC. Mas também com outros países como a Checoslováquia (actual Chéquia). Como revela Natalia Telepneva, professora de História Internacional na Universidade de Strathclyde, Glasgow, e autora de Cold War Liberation: The Soviet Union and the Collapse of the Portuguese Empire in Africa, 1961-1975; o primeiro pacote de assistência ao PAIGC, em 1961, veio inclusive da Checoslováquia. Esta proximidade entre Cabral e a Checoslováquia revestia-se de uma dimensão pessoal. Quando, em 1960, se mudou para Conacri para preparar a luta armada na Guiné-Bissau, Cabral desenvolveu uma ampla rede de contactos com representantes dos países socialistas. Um desses contactos foi Miroslav Adámek, um funcionário checoslovaco dos serviços secretos que trabalhava na embaixada, sob a fachada diplomática.

Adámek reuniu-se pela primeira vez com Cabral em 1960 e apoiou o seu pedido para visitar Praga. A viagem, ocorrida em 1961, teve enorme sucesso. Os anfitriões de Cabral, incluindo o ministro do Interior, Rudolf Barak, ficaram bem impressionados e prometeram-lhe equacionar o envio de dinheiro e armas para o PAIGC.

Como a historiadora escreveu no Público, em 2023, enquanto o assunto era debatido, Adámek propôs que Cabral fosse “recrutado” para colaborar com os serviços de informações estrangeiros da Checoslováquia. Passados escassos meses, o Governo checoslovaco decretou que seria concedida a ajuda pedida por Cabral e também que o recrutaria como “contacto confidencial”. A 13 de Agosto de 1961, Adámek informou Cabral de que o seu pedido tinha sido aprovado e dirigiu-se-lhe com aquilo que descreveria como o seu “pitch de recrutamento”, propondo-lhe que partilhasse informação sobre os líderes africanos e a evolução dos acontecimentos no continente.

Não há certezas se Cabral estava ciente de que fora recrutado e não foram assinados quaisquer documentos formais; no entanto, de então em diante os serviços de informações checoslovacos passariam a referir-se a Cabral por um nome de código: “D.S. Sekretár” (Secretário). Nos anos seguintes, os checoslovacos recorreram a Cabral para uma série de “tarefas”, da partilha de informações sobre líderes africanos ao recrutamento de espiões que vigiassem os estudantes africanos residentes na Checoslováquia. Cabral não fez muito mais do que partilhar informações não confidenciais, e na realidade não satisfez os pedidos que lhe foram apresentados, mostrando-se empenhado em preservar a sua autonomia.

O conflito na Guiné-Bissau

A 23 de janeiro de 1963, o PAIGC iniciou a luta armada com um ataque à guarnição portuguesa de Tite, no sul da Guiné-Bissau. A narrativa oficial do PAIGC, agora firmemente estabelecida na narrativa oficial, atribui à liderança do grupo o planeamento prévio dos ataques. Entre o pequeno grupo envolvido no ataque estava Dauda Bangura, um dos primeiros convertidos à causa nacionalista enquanto trabalhava como pedreiro em Bissau. Em entrevista com Natalia Telepneva, para o livro Cold War Liberation: The Soviet Union and the Collapse of the Portuguese Empire in Africa, Bangura afirmou que a ordem para os “primeiros tiros” não partiu do PAIGC em Conacri e foi tomada por iniciativa do próprio grupo local. Assim que Cabral soube da operação, autorizou o início da guerra de guerrilha. Num estudo detalhado da correspondência de Cabral, Julião Soares Sousa também confirma o relato de Bangura. Os ataques a Tite não foram planeados e Cabral nem sequer estava em Conacri. No entanto, os preparativos para a acção armada estavam em andamento desde 1961, sendo a Checoslováquia o único actor activamente envolvido. Em 1961, a StB [Státní Bezpecnost, Segurança de Estado checa], decidiu apoiar a tentativa de Cabral de dominar o movimento nacionalista. Algumas das medidas incluíram ajudar o PAIGC a elaborar e disseminar propaganda anti-guerra entre as guarnições portuguesas, auxiliar na infiltração num dos grupos rivais senegaleses e enviar armas para Conacri.

O Congresso de Cassaca tornou-se um ponto de viragem na história do PAIGC. Comandantes militares insubordinados foram obrigados a comparecer, e aqueles que recusaram foram presos e encarcerados. Alguns foram executados. Para apoiar as decisões tomadas em Cassaca, Cabral apelou directamente a Nikita Khrushchev [Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética de 1953 a 1964], solicitando “assistência urgente” em termos de material, bens e treino em larga escala para apoiar uma “nova etapa” na luta de libertação.

No entanto, a Checoslováquia continuou a ser importante para o PAIGC. Um dos papéis que desempenhou foi o de consultoria. Em Setembro, a Checoslováquia enviou um oficial da StB, František Polda (nome de código “Peták”), para aconselhar Cabral em Conacri. A tarefa de Polda era organizar o estado-maior das FARP e treinar recrutas, especialmente em assuntos de inteligência e segurança. Naturalmente, relatou as conversas com Cabral e partilhou opiniões sobre a situação militar e os desenvolvimentos políticos da organização. Polda também deveria fornecer conselhos sobre operações. O checo era, na verdade, bem conhecido como conselheiro de Cabral no quartel-general do PAIGC em Conacri e frequentemente instruía grupos de jovens recrutas.

Praga passaria a oferecer treinamento exclusivamente em segurança e contraespionagem. Instrutores checos ensinavam a recrutar agentes e colaboradores, técnicas operacionais como escutas telefónicas, os fundamentos de investigação e interrogatório.

Um comandante medíocre

A Checoslováquia foi a primeira a oferecer um pacote abrangente de assistência ao PAIGC e, novos documentos consultados por Natalia Telepneva, mostram que também pressionou Cabral para prosseguir com "actos de sabotagem" para manter a supremacia sobre os rivais locais. No entanto, Cabral resistiu ao "conselho" da StB.

O desastre em Madina do Boé fez com que Cabral repensasse a estratégia militar. Como informou ao chefe da secção África do StB, Josef Janouš, em Fevereiro de 1967, as operações na região do Gabú continuariam, mas teriam que ser planeadas com muito mais cuidado para evitar perdas significativas. Cabral também manifestou objecções ao conselho de Cuba de lançar uma série de operações em larga escala, incluindo um ataque à capital, Bissau, uma vez que estas poderiam levar a uma significativa perda de vidas, o que seria desmoralizador e prejudicial para o prestígio do movimento [ver artigo anterior na edição 1260 do Expresso das Ilhas].

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Novos documentos mostram que os soviéticos e os checoslovacos também estavam preocupados com a falta de progresso militar na Guiné-Bissau. Em Novembro, os soviéticos e os homólogos checoslovacos reuniram-se para discutir a guerra na Guiné-Bissau. Reconheceram que o moral dos guerrilheiros estava baixo e que o reconhecimento militar era deficiente. Como resultado, as operações assemelhavam-se mais a um "jogo de guerra" do que a uma verdadeira "luta armada". A solução foi "elaborar um plano estratégico e táctico" para o PAIGC em consulta com os cubanos e, de seguida, "seleccionar e treinar alguns homens qualificados" que pudessem executá-lo.

Embora os detalhes completos do plano não sejam claros, o conselheiro checoslovaco František Polda acreditava que as FARP deviam ser organizadas em unidades militares maiores, capazes de operações militares “pré-planeadas”. Os interlocutores cubanos em Conakry concordaram. Durante uma conversa com Cabral e Aristides Pereira em Conakry, em Março de 1967, Polda enfatizou que, ao estabelecer unidades militares maiores, as FARP seriam capazes de destruir os fortes portugueses e, finalmente, vencer a guerra. Cabral contestou, argumentando que os comandantes ainda não possuíam o treino adequado. Polda manteve-se firme no conselho, apesar da oposição de Cabral. Em Fevereiro de 1968, pressionou Cabral para intensificar os ataques. Cabral voltou a argumentar com o uso da prudência, uma vez que as FARP não possuíam defesa antiaérea e temiam bombardeamentos de retaliação. Numa troca de palavras tensa, Polda disse que a luta de libertação assemelhava-se cada vez mais a um “jogo de guerra”, ao que Cabral respondeu que isso fazia precisamente parte da “guerra psicológica” para pressionar os portugueses. Em claro sinal de discordância, Polda respondeu que a história julgaria Cabral como um “grande estratega político”, mas um “comandante militar medíocre”.

É mais difícil determinar a visão soviética sobre a estratégia militar de Cabral. No entanto, alguns documentos de arquivo indicam que os militares soviéticos e o GRU [Glavnoe Razvedyvatelnoe Upravlenie, Direcção Principal de Inteligência] também criticavam a falta de progresso militar. Em Agosto de 1969, Aleksandr Predvechnov (provavelmente do GRU) baseou-se em avaliações cubanas para afirmar que as “chamadas áreas libertadas” eram pouco mais do que locais pantanosos, florestais ou de difícil acesso, com “importância mínima”. Predvechnov também criticou a estratégia de Cabral de depender demasiado da aquisição de armas avançadas da URSS para elevar o moral. Em vez disso, aconselhou que as FARP se concentrassem na realização de uma série de “operações significativas” para destruir as guarnições portuguesas depois de adquirirem novas armas pesadas da URSS.

A falta de progresso militar na Guiné-Bissau levou ao surgimento de debates sobre estratégia militar. Não está totalmente claro como os soviéticos avaliaram a estratégia do PAIGC, mas há indícios de que Praga, Moscovo e Havana partilhavam críticas semelhantes às tácticas de Cabral. Em 1968, Polda foi chamado de regresso a Praga. Embora não haja certezas se essa medida esteve relacionada com a Primavera de Praga ou com quaisquer desentendimentos com Cabral.

A contribuição soviética

Enquanto Praga oferecia instrução em inteligência e segurança, os soviéticos começaram a treinar a maior parte da força armada, as FARP. Os recrutas da Guiné-Bissau chegaram para um curso de seis meses em Leningrado. No entanto, foi apenas depois da construção de instalações especializadas em Perevalnoe que o programa de treino soviético para o PAIGC — e outros movimentos de libertação africanos, incluindo o MPLA e a FRELIMO — se expandiu de facto.

Enquanto os primeiros cursos não podiam acomodar mais do que algumas dezenas de homens de cada organização, Perevalnoe era uma grande instalação que podia abrigar várias centenas de homens ao mesmo tempo.

Nesta base militar, os revolucionários aprendiam a fabricar e a utilizar explosivos, a tomar depósitos de armas, a sabotar centrais elétricas e instalações militares, para além de outras competências de guerrilha. Para além das disciplinas práticas de combate, o currículo incluía também formação política. Os africanos, que não tinham grande habilidade em matemática, eram submetidos a uma instrução obrigatória em teoria marxista-leninista e apresentados à história dos movimentos revolucionários globais. Como era referido pelos instrutores, "primeiro, é preciso ensinar-lhes sobre quem disparar e, depois, como disparar". No entanto, o que os recrutas verdadeiramente entendiam permanece pouco definido, uma vez que os instrutores não faziam provas e os alunos não tomavam notas. Aliás, aprendiam aritmética utilizando um método especial para analfabetos.

Segundo algumas fontes, entre 1.500 e 2.000 combatentes guineenses frequentaram a base de Perevalnoe; se este dado é verdadeiro ou não, não é claro, embora o número seja provavelmente inflaccionado.

Naquelas ironias de que a história está cheia, na noite de 6 para 7 de Junho de 1998, o Brigadeiro-General Ansoumane Mané, antigo Chefe do Estado-Maior do Exército, tenta um golpe de estado na Guiné-Bissau. Os rebeldes tomaram depósitos militares perto da embaixada russa. As forças governamentais lutaram para os libertar usando armas ligeiras, lança-granadas e morteiros e a embaixada russa viu-se no epicentro dos combates. Nove diplomatas russos, liderados pelo embaixador permaneceram nas instalações da Embaixada. O edifício foi atingido por lança-granadas e sofreu graves danos. Os abastecimentos de água e alimentos deveriam durar quatro a cinco semanas, mas um reservatório de água potável e um gerador elétrico foram danificados durante os combates. Devido à ameaça iminente à vida dos russos, a embaixada foi encerrada a 16 de Junho. Os restantes diplomatas e especialistas foram evacuados num contratorpedeiro português. A embaixada russa retomou as atividades em Bissau em Fevereiro de 2001. Em 2002, a Guiné-Bissau foi incluída na lista de países e regiões do mundo não recomendados para visitas de cidadãos russos.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1261 de 28 de Janeiro de 2026.

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Autoria:Jorge Montezinho,1 fev 2026 15:01

Editado porAnilza Rocha  em  2 fev 2026 12:19

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