Um problema que o Governo volta a classificar como pontual, com o Ministro da Saúde a desmentir a existência de uma ruptura total, mas a confirmar constrangimentos no abastecimento.
Chamada para uma cirurgia a 12 de Janeiro, uma mãe viajou do Fogo até à Praia. Ao chegar ao HUAN, disseram-lhe que não havia anestesia. Voltou para casa sem data confirmada para a operação. A história, partilhada pela filha nas redes sociais, é apenas uma entre relatos semelhantes que emergiram após o Santiago Magazine denunciar a falta de anestésicos no principal hospital do país.
A notícia, que se espalhou rapidamente, indicava que a principal unidade de saúde de Cabo Verde estava sem anestesia, com cirurgias electivas paralisadas e apenas intervenções de urgência vital a serem mantidas. Segundo a reportagem, pacientes aguardavam há semanas, alguns há meses, por cirurgias previamente marcadas, sem informação clara sobre quando os procedimentos poderiam ser realizados.
Um utente relatou ao Santiago Magazine não ter recebido qualquer justificação oficial da equipa médica. Foi um funcionário do hospital quem lhe revelou, informalmente, que a escassez de anestésicos se devia ao atraso na chegada de um navio retido em Portugal devido ao mau tempo.
Ministro admite limitações
No dia seguinte à publicação, o Ministro da Saúde, Jorge Figueiredo, reagiu publicamente, afirmando ser "falsa" a informação de que o hospital está sem gases anestésicos, embora tenha acabado por confirmar as limitações e, no geral, o conteúdo da notícia.
De acordo com o governante, tanto o HUAN como a EMPROFAC dispõem de um stock de reserva que permite assegurar a realização de cirurgias urgentes, embora as cirurgias normais estejam, de facto, a ser "reduzidas ou suspensas temporariamente".
Jorge Figueiredo garantiu que a situação está controlada e atribuiu o problema ao impacto das recentes tempestades que afectaram Portugal, corroborando assim a informação prestada pelo funcionário do HUAN ao utente ouvido peloSantiago Magazine.
Segundo o ministro, as tempestades terão impedido a chegada do navio que transporta os gases anestésicos, sendo que, como sublinhou, o transporte não pode ser feito por via aérea devido à perigosidade destes produtos. Até à chegada do navio, o hospital está a fazer "uma gestão rigorosa dos gases disponíveis", priorizando, pois, as cirurgias urgentes e inadiáveis.
A tutela "desdramatizou" a situação, afirmando que este tipo de constrangimentos "acontece ao longo da história", tal como ocorrem atrasos na chegada de vacinas ou medicamentos. Apelou a "uma abordagem mais responsável", evitando “preocupações desnecessárias”, num contexto de ameaças associadas às mudanças climáticas.
A explicação levanta, porém, questões: há relatos, como o caso acima descrito, de cirurgias adiadas em meados de Janeiro, antes ainda das intempéries terem afectado Portugal.
Outra crítica que ficou por esclarecer prende-se com os problemas de comunicação entre o HUAN e os seus utentes, e com o público em geral.
Contactado pelo Expresso das Ilhas, o HUAN remeteu todas as declarações para o Ministério da Saúde, recusando prestar esclarecimentos adicionais.
Rupturas frequentes
Na verdade, os testemunhos mostram constrangimentos recorrentes na disponibilidade de insumos essenciais.
Os relatos nas redes sociais sugerem que o problema não é tão recente nem tão pontual quanto a versão oficial indica. E não se trata apenas de anestesia. Entre os comentários, surgem testemunhos que apontam para a falta de materiais ortopédicos, gesso para imobilização de fracturas e até a necessidade de os próprios pacientes comprarem insumos que deveriam estar disponíveis no HUAN. "Hospital de li nada es ka teni. Custuma panha fratura na joelho, bai hospital, txiga hora poi gesso, hospital ka tem gesso, és ta mandam pam bai kumpra gesso", relatou um utente, descrevendo a experiência de ter de comprar o próprio gesso após uma fractura no joelho.
Em Julho de 2025, durante o debate do Estado da Nação, o PAICV questionou o Governo sobre faltas de reagentes e medicamentos no HUAN. Na altura, o Ministro da Saúde negou haver rupturas, classificando-as como "pontuais" e afirmando que o abastecimento estava regularizado. Reconheceu, porém, que o mercado internacional de medicamentos é "complexo" e que podem ocorrer falhas ocasionais.
Bloco a meio gás
O bloco operatório do HUAN foi alvo de obras de profunda remodelação, concluídas em Julho de 2025, num investimento estimado em cerca de 20 mil contos.
Na altura, o Governo destacou a modernização das quatro salas cirúrgicas, a melhoria das condições de trabalho e a promessa de redução das listas de espera.
A intervenção foi também assinalada pelo presidente do Conselho de Administração do HUAN, Evandro Monteiro, como um dos grandes feitos do ano. Meses depois, a falta de anestesia coloca o bloco renovado a funcionar a meio gás.
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Cabo Verde e ONU assinam plano anual para a saúde no valor de 72 milhões de escudos
O Ministério da Saúde e o Escritório Conjunto do PNUD, UNFPA e UNICEF assinaram, esta segunda-feira, na Praia, o Plano de Trabalho Anual (PTA) 2026, no valor de 770 mil dólares. O documento aposta em quatro eixos: financiamento e gestão alternativos; consolidação da saúde materno-infantil e do adolescente; reforço da saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos; e promoção da saúde, comunicação de risco e engajamento comunitário.
Segundo o ministro da Saúde, Jorge Figueiredo, o PTA visa reforçar a prevenção e a protecção dos grupos mais vulneráveis e combater práticas nefastas, como a mutilação genital feminina, com cooperação orientada para resultados. David Matern, representante residente do Escritório Conjunto, destacou a inovação do plano na reforma do financiamento da Saúde, com novos mecanismos fiscais e estratégias de mobilização de recursos.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1263 de 11 de Fevereiro de 2026.
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