Obesidade afecta 14% dos adultos em Cabo Verde, mas país não dispõe de medicamentos inovadores para tratamento

PorSheilla Ribeiro,7 mar 2026 9:23

Assinalou-se no dia 4 de Março, o Dia Mundial da Obesidade, numa altura em que os dados nacionais revelam que a obesidade atinge 14% dos adultos, enquanto o excesso de peso afecta 44,2% da população e 9% das crianças já se encontram em situação de pré-obesidade. Ao contrário da tendência mundial, marcada pelo uso crescente de medicamentos injectáveis baseados em GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, enquanto tratamento crónico, o país não dispõe, neste momento, de medicamentos com autorização formal específica para o tratamento da obesidade ou para emagrecimento.

Dados do INE (2020) revelam que 44,2% dos adultos no país têm excesso de peso ou obesidade, sendo entre 14% e 14,3% considerados obesos. A taxa tem aumentado, já que, entre 2007 e 2015, subiu de 10,5% para 12,2% em alguns grupos etários. Entre as crianças menores de cinco anos, 18% estão em risco de sobrepeso e 9% em pré-obesidade.

Lenira de Carvalho conviveu com sobrepeso desde a infância. “Sempre fui bem-disposta”, conta, aos risos.

A decisão de mudar surgiu a 11 de Maio de 2025, início da sua “caminhada do emagrecimento”. O ponto de viragem esteve ligado à saúde. “Sentia-me muito cansada. Andava um pouquinho e ficava exausta.” O sedentarismo marcava a rotina e, à noite, ressonava muito devido ao peso.

Ao iniciar o processo, pesava 145 quilos e começou por cortar farinha, açúcar, massas, arroz e álcool. Substituiu o arroz por proteína, legumes e batatas.

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Durante meses, seguiu a dieta sem acompanhamento especializado, até recorrer recentemente a um nutricionista, que aprovou a alimentação e a elogiou. Dois meses depois da mudança alimentar, iniciou exercícios físicos; actualmente, treina de segunda a sexta, das 05h30 às 06h30, e caminha sempre que possível, deixando de andar de carro.

Entre Maio e agora, perdeu 48 quilos. “Vou continuar no processo de emagrecimento até gostar do que vejo no espelho. Mas, pelo menos, deixei de ressonar, não me sinto cansada, e aumentou a minha autoestima.”

Lenira atribui o excesso de peso ao sedentarismo, ao álcool e à má alimentação, mas garante não sentir tentação de voltar aos antigos hábitos. “Sou forte.”

Nutricionista defende vigilância das escolas sobre lanches

Conforme a nutricionista do Hospital Universitário Agostinho Neto, Fernanda Azancoth, os dados mais recentes indicam um aumento da prevalência da obesidade em Cabo Verde, sobretudo entre as mulheres.

“Antes tínhamos essa prevalência maioritariamente nos homens, mas, neste momento, a maior percentagem é de mulheres”, explica. Paralelamente, nota-se uma tendência preocupante entre os mais novos.

“Estamos a ver cada vez mais crianças obesas, e isso torna-se um problema”, alerta.

No atendimento hospitalar, prossegue, a realidade confirma as estatísticas. Grande parte dos utentes apresenta comorbilidades associadas ao excesso de peso, como diabetes e hipertensão, havendo também casos em que a própria obesidade surge como motivo principal da consulta, acabando por desencadear outras patologias.

Entre os factores que contribuem para este cenário, Fernanda Azancoth aponta o estilo de vida, a introdução alimentar precoce e o consumo crescente de produtos ultraprocessados.

Muitas famílias, sobretudo as de menor poder aquisitivo, optam por alimentos industrializados, que acabam por ser oferecidos às crianças em idades muito tenras.

“Mais produtos processados e ultraprocessados já são uma realidade forte no país há algum tempo e que cada vez mais têm sido verificados nas consultas, principalmente na questão da introdução alimentar feita de forma totalmente errónea. E o Ministério da Saúde até tem batalhado muito com relação ao aleitamento materno, ao tempo da introdução alimentar e ao tipo de alimentos que devem ser introduzidos nessa altura”, aponta.

Como exemplo de alimentos que não devem fazer parte da introdução alimentar, cita as papas industrializadas e os leites que não são adequados para a idade, para além do iogurte introduzido precocemente e de alimentos açucarados.

“Embora sejam enriquecidos com alguns micronutrientes, excedem aquilo que é a capacidade da criança. O seu processo digestivo continua em desenvolvimento e ela ainda não consegue metabolizar, da forma correcta, esses alimentos, para além de serem supercalóricos nessa idade.”

“E acabam, de certa forma, por aumentar outros factores no organismo da criança, o que proporciona esse acúmulo de gordura, esse aumento de tecido adiposo e, muitas vezes, até, em alguns casos, leva ao aparecimento acelerado de algumas doenças, não somente à obesidade”, explana.

A profissional de saúde refere que ainda persiste a ideia de que práticas antigas são suficientes, sem considerar os impactos a longo prazo. “O estar aqui em pé não significa que estamos com saúde”, observa, lembrando que as consequências de uma alimentação inadequada nem sempre são imediatas.

No que respeita aos lanches escolares, a nutricionista admite preocupação com o que observa diariamente. “Tenho um horror em ver uma criança ir para a escola com uma garrafa de sumo de caixinha numa mão, um chocolate e um pacote de batata frita”, confessa.

Na sua perspectiva, alternativas simples e acessíveis podem fazer a diferença. Por exemplo, pão, fruta ou leite constituem opções mais equilibradas e, muitas vezes, mais económicas.

A especialista entende que as escolas devem ter um papel mais activo na fiscalização dos lanches levados pelos alunos, como forma de travar o crescimento da obesidade infantil no país.

“Deve haver uma vigilância por parte dos professores ou da própria escola com relação aos lanches que devem ser permitidos às crianças”, afirma.

Para Fernanda Azancoth, não basta assinalar datas comemorativas, como o Dia Mundial da Alimentação; é necessário insistir na educação alimentar com regularidade.

A nutricionista sustenta que a percepção de que comer de forma saudável é necessariamente mais caro nem sempre corresponde à realidade. “As comparações feitas entre profissionais indicam o contrário em diversos casos”, sustenta.

Recorda ainda que a obesidade deve ser encarada como uma doença, à semelhança da diabetes ou da hipertensão, e tratada de forma multidisciplinar. “A responsabilização exclusiva do indivíduo ignora a complexidade do problema”, acredita.

Para a especialista, educar as crianças pode ter um efeito multiplicador junto das famílias. “Se conseguires educar a criança na escola dizendo que não é saudável batata frita ou refrigerante, se elas chegarem a casa e o pai ou a mãe oferecerem, ela vai dizer que o professor disse que não é saudável”, sugere.

ERIS sem medicamentos aprovados para emagrecimento

Ao Expresso das Ilhas, a directora da Direcção de Regulação Farmacêutica da ERIS, Ester Oliveira, esclareceu que Cabo Verde não dispõe, neste momento, de medicamentos com autorização formal para o tratamento da obesidade ou para emagrecimento.

Ainda assim, a entidade tem autorizado, em casos específicos, a importação de fármacos utilizados internacionalmente para esse fim, desde que haja fundamentação clínica.

Segundo explicou, antes de qualquer medicamento ser comercializado no país, deve passar por uma avaliação técnico-científica no âmbito da Autorização de Introdução no Mercado (AIM).

“Previamente à comercialização de qualquer medicamento, ele deverá passar por uma avaliação técnico-científica por parte da ERIS, no âmbito dos procedimentos que chamamos AIM”, afirmou.

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A responsável lembrou que também existem a Lista Nacional de Medicamentos e a Lista Nacional de Medicamentos Essenciais, instrumentos que determinam quais os produtos que podem ser comercializados.

Contudo, de momento, não há nenhum medicamento com indicação com AIM ou que conste na Lista Nacional de Medicamentos que tenha indicação ou aprovação formal para utilização na obesidade ou para emagrecimento.

Ester Oliveira referiu que, a nível internacional, alguns medicamentos inicialmente aprovados para o tratamento da diabetes tipo 2 têm vindo a ser utilizados também no controlo da obesidade. Trata-se dos agonistas dos receptores de GLP-1, como o semaglutido, o dulaglutido, o liraglutido e a tirzepatida, que simulam hormonas intestinais para controlar a diabetes tipo 2 e promover perda de peso significativa.

Neste contexto, a ERIS tem recebido pedidos de autorização para utilização destes medicamentos em situações concretas. A legislação nacional permite a importação especial quando não existem alternativas no país e mediante justificação médica.

“Chamamos este procedimento de autorização de importação especial e, no âmbito deste procedimento, temos recebido algumas solicitações que têm sido autorizadas tanto para a indicação do tratamento da diabetes como também para o tratamento da obesidade”, avançou.

Procedimento simplificado para semaglutida

Face ao aumento dos pedidos, sobretudo de medicamentos cujo princípio activo é a semaglutida, a ERIS incluiu esta substância numa lista específica de medicamentos cuja importação é especialmente autorizada.

Na prática, o utente já não necessita de requerer previamente um certificado junto da entidade reguladora. Pode dirigir-se à farmácia, apresentando receita e justificação médica.

“A pessoa poderá recorrer a uma farmácia e solicitar a dispensa daquele medicamento, mas a legislação exige que seja mediante um justificativo médico”, precisou.

Nos restantes casos, a importação continua a ser feita especificamente para o doente que apresenta o pedido, ao abrigo do certificado de importação especial. A directora sublinhou que estes medicamentos não se destinam a fins meramente estéticos. A prescrição obedece a critérios clínicos bem definidos.

“São situações bem específicas. Por exemplo, quando temos um índice de massa corporal acima de 30, característico de obesidade, ou acima de 27, havendo também outras doenças, como hipertensão ou diabetes”, referiu.

Reforçou ainda que não se trata de um medicamento que pode ser utilizado sem critérios, simplesmente para emagrecer, sendo indispensável uma avaliação médica prévia para determinar a elegibilidade.

Questionada sobre eventual venda informal, Ester Oliveira afirmou não existir, até ao momento, registo específico de comercialização ilícita destes fármacos em Cabo Verde. Ainda assim, a ERIS acompanha o assunto e admite actuar caso se verifique necessidade.

A responsável apelou à população para evitar adquirir medicamentos fora do circuito legal. “A pessoa acaba por perder todo o controlo e a garantia da qualidade assegurada pela entidade reguladora quando o medicamento é adquirido dentro do circuito legal”, advertiu.

Em 2023, a ERIS emitiu um alerta relativo à circulação de medicamentos desta classe identificados como falsificados em mercados vizinhos.

De referir que a Lista Nacional de Medicamentos data de 2009 e a Lista Nacional de Medicamentos Essenciais é de 2016. Neste momento, decorre uma reavaliação do perfil epidemiológico do país e das necessidades terapêuticas.

“É uma oportunidade para trazer esta situação ao de cima e disponibilizar aos utentes a terapêutica de que necessitam”, considerou Ester Oliveira.

Enquanto a revisão não é concluída, a ERIS assegura que adopta mecanismos para permitir o acesso, em tempo útil, a medicamentos que não constem formalmente das listas, desde que exista prescrição e fundamentação clínica.

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Na ilha da Boa Vista, o personal trainer Cláudio Rocha, conhecido por Dota, acompanha quase 60 alunos através do grupo Kapaz, criado durante a pandemia. As idades variam entre os 17 e os 50 anos. Sete alunos são obesos, com mais de cem quilos, enquanto os restantes apresentam sobrepeso. A maioria é composta por mulheres, havendo apenas um rapaz de 17 anos nessa condição.

Dota aponta que dificuldades ligadas à alimentação e a factores psicológicos interferem na perda de peso.

“Às vezes, por terem problemas em casa ou no trabalho, acabam por comer mais e, assim, dificultar a perda de peso”, diz.

A motivação é um dos maiores desafios, exigindo acompanhamento próximo, sensibilização e orientação alimentar. Para incentivar, o treinador adopta pequenas estratégias, como levar água com limão ou gengibre.

Entre trabalhadores da hotelaria, a alimentação fornecida pelos hotéis constitui outra dificuldade.

“Por se alimentarem no seu local de trabalho, não seguem uma dieta adequada para quem quer perder peso, até porque nem todos os funcionários dos hotéis querem perder peso.”

Foto: depositphotos

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1266 de 04 de Março de 2026.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,7 mar 2026 9:23

Editado porAndre Amaral  em  7 mar 2026 23:22

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