Salário mínimo não cobre custos para viver na Praia, Sal e São Vicente

PorSheilla Ribeiro,5 abr 2026 16:27

O salário mínimo nacional situa-se entre 17 e 19 mil escudos, mas garantir o básico na cidade da Praia, nas ilhas do Sal e de São Vicente custa hoje entre 24 mil e quase 35 mil escudos por mês. Habitação e alimentação são os encargos que mais pressionam os orçamentos, sendo que, na Praia, o défice do salário mínimo para cobrir o Índice de Custo de Vida Essencial (ICE) é de 42,7% no sector público e de 48,7% no privado; no Sal, os défices são de 45,6% e 51,3%, respetivamente; e em São Vicente, de 23,6% no público e 31,6% no privado.

A conclusão consta da atualização do Índice de Consumo Essencial (ICE), referente ao mês de Março, divulgada esta segunda-feira pela Associação para a Defesa do Consumidor (ADECO), abrangendo as ilhas de São Vicente e do Sal e incluindo, pela primeira vez, a cidade da Praia.

Em conferência de imprensa, o presidente da associação, Nelson Faria, explicou que este novo indicador para a Praia resulta de um trabalho técnico que a ADECO pretende alargar a todo o país.

“A nossa pretensão é ter um mapa completo do índice de consumo essencial por ilha, por região, porque verificamos que há uma disparidade nas necessidades de consumo essencial nas diferentes ilhas”, afirmou.

Segundo o relatório da ADECO, a recolha dos preços alimentares na cidade da Praia foi realizada nos dias 19 e 20 de Março, nos estabelecimentos Meu Super, Calu & Ângela e Fenícia.

Os dados do ICE revelam que o custo do cabaz de bens e serviços essenciais na cidade da Praia registou, em Março de 2025, uma diminuição de 318 escudos, equivalente a 0,9% face ao mês de Fevereiro.

Os produtos alimentares registaram uma diminuição de 2,1%, correspondendo a menos 327 escudos face a Fevereiro, sendo este o principal contributo para a redução geral do ICE.

Conforme a mesma fonte, um consumidor saudável precisaria de 33.156 escudos para cobrir os seis componentes considerados essenciais, como a alimentação, água, electricidade, gás butano, comunicações e habitação.

No caso da electricidade, o valor considerado foi a tarifa em vigor, fixada pela ARME para a Electra em 24,55 escudos por quilowatt-hora, enquanto a água seguiu a tarifa vigente da Águas de Santiago, fixada em 230 escudos por metro cúbico. O gás butano, com a garrafa de três quilos, manteve-se nos 392 escudos, IVA incluído, consoante a tarifa nacional estabelecida pela ARME.

Para os gastos com comunicações, a ADECO assumiu um custo mensal de 500 escudos, enquanto o arrendamento de um T0, um quarto com casa de banho, foi estimado em 15.000 escudos.

O défice do salário mínimo do sector público para cobrir o ICE (DSMp) na cidade da Praia foi de 42,7%, enquanto, no sector privado (DSMe), o défice foi de 48,7%.

Comer no Sal requer 18.240,30 escudos mensais

A ADECO informou que, na ilha do Sal, a recolha dos preços dos produtos alimentares decorreu nos dias 4 e 5 de Março, nos minimercados Amizade (loja chinesa), em Santa Maria; Família, em Chã Fraqueza, Espargos; e Sucata, em Ribeira Funda, Espargos.

Para os demais componentes do cabaz, foram consideradas as tarifas em vigor no mês de Março, estabelecidas pela ARME e, para as comunicações, foi considerado o mesmo custo da capital. Já para habitação, o arrendamento de um T0 foi fixado em 14.000 escudos.

O cálculo do ICE resultou em 34.908,55 escudos para o cabaz total, sendo que a alimentação representou 18.240,30 escudos, a água 544,06 escudos, a electricidade 1.232,18 escudos, o gás butano 392 escudos, as comunicações 500 escudos e a habitação 14.000 escudos.

O défice do salário mínimo do sector público para cobrir o ICE no Sal foi de 45,6%, enquanto, no sector privado, o défice foi de 51,3%.

Em Março de 2026, o cabaz de bens e serviços essenciais no Sal registou um aumento de 450 escudos (1,3%) face a Dezembro de 2025.

O custo dos produtos alimentares subiu 3,1%, ou seja, mais 545 escudos relativamente ao mês anterior.

Bens essenciais sobem 979 escudos em São Vicente em Março

Por seu turno, em São Vicente, a recolha dos preços alimentares foi realizada também nos dias 4 e 5 de Março, nos minimercados Fragata, VOOU e Bento Lima.

A tarifa de electricidade e água, bem como o gás butano utilizados, foi a que estava em vigor no mês de Março e estabelecida pela ARME. Já para as despesas com comunicações, foi assumido um custo de 500 escudos. O arrendamento de um T0 foi considerado em 7.000 escudos, conforme a realidade da ilha.

No cálculo dos itens do ICE, os custos apurados foram de 15.187,87 escudos para alimentação de 2.000 kcal, 544,06 escudos para 2.000 litros de água, 1.232,18 escudos para 40 kWh de electricidade, 392 escudos para 3 kg de gás butano, 500 escudos para comunicações de 5.000 MB e 7.000 escudos para habitação T0, resultando num ICE total de 24.856,11 escudos.

O cabaz de bens e serviços essenciais registou, em Março, um aumento de 979 escudos (mais 4,1%) relativamente ao mês de Dezembro.

Os produtos alimentares apresentaram uma subida de 7,6%, correspondendo a mais 1.075 escudos face a Dezembro.

Naquela ilha, o défice do salário mínimo do sector público para cobrir o ICE foi de 23,6%, enquanto, no sector privado, o défice foi de 31,6%.

ADECO chama a atenção para discrepância entre salário e custo de vida

“Quando em Cabo Verde temos o salário mínimo cifrado em 17 mil escudos para os privados e 19 mil escudos para o público, isso mostra-nos claramente que há uma disparidade nas necessidades de consumo”, alertou o presidente da associação, Nelson Faria.

Neste sentido, defendeu a revisão dos rendimentos como medida prioritária. A associação defende que o indicador deve servir de base para políticas públicas mais ajustadas à realidade do país, apelando a acções efectivas tanto do Governo como dos municípios para garantir o acesso das famílias ao consumo essencial.

“Este indicador serve para que medidas sejam tomadas a nível governativo para se adequar o rendimento dos consumidores, de modo que tenham o mínimo necessário para o consumo do essencial”, disse.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1270 de 01 de Abril de 2026.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,5 abr 2026 16:27

Editado porAnilza Rocha  em  5 abr 2026 23:22

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