Consumo de álcool em Cabo Verde - Percepção interna aponta para aumento enquanto importações indicam diminuição

PorEdisângela Tavares,14 fev 2026 8:04

A percepção de que há mais jovens a consumir álcool nas festas e nas ruas da Praia contrasta com os dados das alfândegas, que apontam redução na importação de bebidas alcoólicas. Na capital, a cerveja passou de seis milhões para 3,6 milhões de litros entre 2021 e 2025, e no Mindelo os vinhos também registaram queda. A nível internacional, o consumo entre jovens da Geração Z diminuiu 10%.

De acordo com o Global Status Report on Alcohol and Health da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em 2024 com base em dados até 2019, o consumo mundial de álcool per capita diminuiu ligeiramente de 5,7 litros de álcool puro por pessoa em 2010 para 5,5 litros em 2019, com queda mais visível entre os jovens, especialmente da Geração Z, embora com diferenças entre regiões. Nos países de língua portuguesa, Portugal apresenta a maior percentagem de consumidores (78,1%), seguido do Brasil (58,1%) e de Cabo Verde (57,1%), segundo o relatório divulgado a 25 de Junho de 2024.

A diminuição do consumo tem impactado a indústria. Entre 2021 e 2025, o mercado global perdeu cerca de 830 mil milhões de dólares, associados a uma redução de 33% no consumo de cerveja e vinho entre jovens. Em resposta, empresas como a Anheuser-Busch InBev e a Heineken apostaram em bebidas sem álcool. A Heineken 0.0 cresceu 10%, e o segmento de bebidas com baixo ou nenhum teor alcoólico aumentou entre 25% e 30% entre 2022 e 2026. Mocktails e vinhos low-alc também ganharam espaço, com crescimento de 223% em menus de bares internacionais.

Cabo Verde

Em entrevista ao médico psiquiatra e presidente da Fundação Menos Álcool, Mais Vida, Manuel Faustino, este sublinha que, apesar de, a nível mundial, vários estudos apontarem para uma diminuição do consumo de álcool, sobretudo entre os jovens, em Cabo Verde a percepção pública é de aumento no consumo.

“Não podemos responder de forma directa, mas estamos convencidos de que não se observa em Cabo Verde a tendência de diminuição do consumo de álcool que tem sido registada em alguns outros países, especialmente entre os jovens, com impacto até na cadeia de produção. A impressão que temos, baseada na observação clínica e social, é que o consumo de álcool entre os jovens continua a aumentar, com início cada vez mais precoce.”

Manuel Faustino sublinha que os dados disponíveis, que datam de 2021, indicavam uma participação significativa de jovens entre os 15 e os 24 anos no consumo de bebidas alcoólicas.

Dados

O estudo realizado em 2021, em parceria com o Instituto Nacional de Estatística, revelou uma participação significativa de jovens entre os 15 e os 24 anos no consumo de bebidas alcoólicas, com maior prevalência na faixa dos 24 aos 34 anos. O consumo também se mostra expressivo entre pessoas com mais de 60 anos, fenómeno que Manuel Faustino associa à aposentação, à inactividade e ao isolamento social. O especialista chama ainda a atenção para o aumento do consumo entre as mulheres. Embora os homens continuem a beber mais, alerta que os efeitos no organismo feminino são mais graves, devido a diferenças fisiológicas.

“A mesma quantidade de álcool provoca mais danos na mulher do que no homem. E isso ainda não está suficientemente interiorizado na nossa sociedade”, explica.

Manuel Faustino aponta a normalização cultural do álcool como um dos principais desafios no país.

“O álcool dá prazer, mas é uma substância neurotóxica que provoca danos, sobretudo nos jovens, quando consumido em excesso. A banalização está ligada à violência doméstica, abusos, acidentes, problemas laborais e à criminalidade. Cerca de 40% das pessoas privadas de liberdade em Cabo Verde associam o crime ao álcool (I Recenseamento Prisional de Cabo Verde, INE, 2018). Além disso, o consumo excessivo está relacionado com doenças cardiovasculares, respiratórias e vários tipos de cancro”, alerta.

Opinião pública

Numa ronda pela cidade da Praia, este jornal ouviu várias pessoas para aferir a percepção sobre o consumo de álcool no país. Neida Lima, professora do ensino secundário, reconhece maior consciência hoje sobre os efeitos do álcool na saúde física e mental, mas nota que o consumo parece ter aumentado, sobretudo entre os jovens. Para ela, muitos associam diversão em festas e convívios ao álcool, sendo comum ver, nas ruas da capital, jovens visivelmente afectados pelo consumo exagerado, mas que ainda assim persistem no consumo.

“O que mais vemos nas comemorações, e até no dia a dia, são jovens embriagados. Há informação por todo o lado e as pessoas têm consciência dos efeitos nocivos do álcool na saúde física e mental, mas o consumo parece aumentar a cada dia. Reparemos que há muitos jovens com perturbações mentais a vaguear pelas ruas, mas que insistem no consumo, claramente em estado de dependência”, opinou.

“Na minha percepção, o consumo tem aumentado e há cada vez mais jovens a consumir, com a ideia de que o álcool é inofensivo e que têm total controlo. Mas o que vemos é que, em muitos convívios, há sempre colegas que não se divertem sem uma bebida alcoólica”, afirma Bruna, porta-voz de um grupo de estudantes abordados nesta reportagem.

Na mesma linha, falámos com Tony, que considera o consumo de álcool uma banalidade, sobretudo entre os jovens, embora tenha consciência dos prejuízos que estas bebidas provocam no organismo.

“Acredito que quem bebe tem de saber beber. Eu consumo álcool praticamente todos os fins-de-semana, mas conheço o meu limite e não o ultrapasso. Há cada vez mais pessoas com dependência do álcool, porque muitas acabam por se refugiar na bebida para lidar com os seus problemas. Para mim, o consumo aumentou, mas tendo em consideração que hoje temos uma sociedade cada vez mais frustrada, com pessoas que não sabem lidar com as frustrações e se refugiam no álcool”, afirma.

Dados da importação

A comparação entre os registos aduaneiros de 2021 e de 2025, disponibilizados pela Direcção-Geral das Alfândegas de Cabo Verde, relativos à entrada de bebidas alcoólicas no país, revela alterações significativas tanto nos volumes importados como na distribuição destes produtos pelas diferentes estâncias aduaneiras. Mantêm-se, contudo, a Praia, o Mindelo e o Sal como os principais pontos de entrada.

Cervejas

Entre 2021 e 2025, as cervejas de malte até 50 cl registaram uma forte redução na Praia, passando de 6.082.500 para 3.687.000 litros, e uma ligeira descida no Mindelo, de 3.319.465 para 3.158.290 litros. Em sentido inverso, o Sal aumentou de 1.207.488 para 1.544.738 litros, enquanto Sal-Rei registou um crescimento ligeiro.

Nas outras cervejas de malte, Praia e Mindelo também reduziram os volumes importados – a Praia de 388.584 para 230.090 litros e o Mindelo de 422.204 para 356.556 litros. O Sal, por sua vez, subiu de 78.406 para 201.972 litros, reforçando o seu peso como ponto de entrada.

Vinhos

Nos vinhos até dois litros, registou-se uma redução acentuada na Praia, de 1.520.875 para 985.096 litros, e no Mindelo, de 1.059.620 para 527.633 litros. Em contrapartida, o Sal aumentou significativamente, passando de 95.232 para 571.902 litros, e Sal-Rei também cresceu, de 31.313 para 151.891 litros.

No conjunto, os dados indicam uma diminuição dos volumes importados na Praia e no Mindelo e um reforço progressivo do Sal – e, em menor escala, de Sal-Rei – como estâncias de entrada, mantendo-se, ainda assim, a concentração das importações nestes três pontos.

Valor aduaneiro – cervejas

Em 2021, a cerveja liderava as importações de bebidas alcoólicas, com forte concentração nas alfândegas da Praia (mais de 614 milhões de escudos) e do Mindelo (cerca de 300 milhões de escudos), sobretudo nas cervejas de malte até 50 cl.

Em 2025, a tendência mantém-se, embora com valores inferiores na Praia (433,6 milhões de escudos), enquanto o Mindelo regista 349,3 milhões e o Sal 165 milhões de escudos. Sal-Rei surge com 41,2 milhões, e as restantes estâncias apresentam valores residuais. Nas outras cervejas de malte, o Mindelo lidera (37,5 milhões), seguido da Praia (25 milhões) e do Sal (23,3 milhões).

Valor aduaneiro – vinhos

Em 2021, destacaram-se os vinhos não espumantes até dois litros, com maior peso na Praia (mais de 121 milhões de escudos) e no Mindelo (84 milhões de escudos). Os espumantes apresentaram valores mais modestos, concentrados sobretudo na Praia, no Mindelo e no Sal.

Em 2025, os vinhos até dois litros continuam a liderar, com 175,5 milhões de escudos na Praia, 89,1 milhões no Sal e 70,9 milhões no Mindelo. Os espumantes concentram-se maioritariamente no Sal (47,5 milhões) e em Sal-Rei (16,3 milhões). Nos recipientes entre dois e dez litros, a Praia mantém o maior valor (28,9 milhões), enquanto, nos recipientes superiores a dez litros, Sal-Rei se destaca com 36,5 milhões de escudos.

Valor aduaneiro — whisky

Entre as bebidas espirituosas, em 2021, o whisky destacou-se como a principal categoria importada, com valores elevados na Praia (cerca de 39,5 milhões de escudos) e no Mindelo (mais de 14,5 milhões de escudos). Seguiram-se o gin, a vodka, os licores e o rum, todos com expressão significativa, sobretudo nas ilhas de Santiago, São Vicente e Sal.

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Em 2025, as bebidas espirituosas registaram maior peso económico na Alfândega da Praia, com o whisky a atingir cerca de 44,6 milhões de escudos, seguido do Sal (11,3 milhões) e de Sal-Rei (3,6 milhões). O rum manteve igualmente expressão relevante, sobretudo na Praia (29,3 milhões), além do Mindelo e do Sal. Gin, vodka, licores e outras espirituosas mantiveram a mesma tendência, concentrando-se principalmente na Praia e no Sal, enquanto as restantes estâncias apresentaram valores residuais.

Empresas de importação

Em conversa com algumas empresas de importação, apurou-se que os volumes de bebidas alcoólicas importadas não registaram alterações significativas. Sem se identificar, uma das empresas afirmou que o fluxo de importação se manteve estável nos últimos anos, sem grandes variações. Segundo a mesma fonte, a única mudança observada poderá estar relacionada com a produção nacional de cerveja, o que poderá ter provocado uma ligeira redução na importação deste produto, sem impacto relevante nos volumes globais.

“Em relação à importação de bebidas alcoólicas no ano de 2025, os nossos dados indicam que não se registou qualquer queda significativa”, confirmou outra empresa do sector, com forte presença no mercado nacional.

Realidade

No conjunto, os dados aduaneiros apontam para uma redução dos volumes importados na Praia e no Mindelo em várias categorias, ao mesmo tempo que o Sal reforça a sua posição como ponto de entrada. A nível internacional, a tendência é igualmente de diminuição do consumo entre os jovens. Ainda assim, a percepção social em Cabo Verde continua a ser de aumento, sobretudo entre as camadas mais jovens, como confirmam especialistas e cidadãos ouvidos. Apesar dos números das alfândegas, sem estatísticas de consumo directo, o retrato do álcool em Cabo Verde continua a ser uma incógnita.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1263 de 11 de Fevereiro de 2026.

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Autoria:Edisângela Tavares,14 fev 2026 8:04

Editado porFretson Rocha  em  14 fev 2026 21:19

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