A Diocese de Santiago tem um novo pastor. A 16 de Fevereiro, o Papa Leão XIV nomeou Dom Teodoro Tavares como bispo de Santiago. Este domingo, cumpriu-se o empossamento, seguido da sua primeira missa como Bispo de Santiago.
Uma mensagem atravessou toda a homilia de Dom Teodoro Mendes Tavares: a da evangelização como missão incontornável da Igreja e de cada cristão. “Ai de mim se eu não evangelizar”, disse, evocando São Paulo, e foi com esse espírito que se apresentou ao povo que lhe foi confiado. É nesse quadro que se afirma a imagem de uma Igreja que propõe ser não uma Igreja que apenas diz, mas que faz; que não se fecha sobre si mesma, mas que se coloca em saída; que não se define apenas pela estrutura, mas pela capacidade de presença junto das pessoas.
Gratidão
Na sua homilia, Dom Teodoro adoptou um tom que cruzou solenidade e proximidade. Começou por agradecer. Não de forma protocolar, mas estruturando toda a sua intervenção a partir da ideia de gratidão.

Gratidão pelo acolhimento recebido e, num registo mais pessoal, aos pais que o educaram na fé cristã.
Aludindo a Santo Ambrósio, Dom Teodoro lembrou que "entre todos os deveres, em primeiro lugar está o agradecer". Assim, agradeceu ainda a Deus, “pela graça” da sua vida, vocação e ministério sagrado e rendeu homenagem ao Papa Leão XIV "pela confiança depositada" na sua nomeação.
Olhando o seu percurso pastoral, estendeu a sua gratidão ao episcopado brasileiro e à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, de que fazia parte, bem como ao Núncio Apostólico, Dom Waldemar Stanislaw Sommertag, "por todo o apoio” dado, reiterando "disponibilidade, comunhão e obediência ao Santo Padre."
Um reconhecimento especial foi dirigido ao seu antecessor, Dom Arlindo Gomes Furtado, pela sua dedicação e legado: "Não tenho palavras para descrever e expressar toda a nossa gratidão pelos longos anos de fecundo pastoreio”.
São Tiago
Mas a homilia não ficou na evocação do passado. Ancorada na memória litúrgica de São Tiago Menor, padroeiro da diocese, abriu espaço a uma reflexão sobre o presente e o futuro. O novo bispo insistiu na necessidade de uma fé que se traduza em obras concretas, em compromisso social e em atenção aos mais frágeis: uma união entre a fé professada e fé vivida na prática.
São Tiago é, para o novo bispo, um modelo de fé a ser seguido. Alguém que "demonstrou um grande amor ao próximo, solicitude pelos pobres e necessitados, qual imagem da Igreja samaritana e misericordiosa."
Anunciar o evangelho
A evangelização surgiu também como eixo central. Para Dom Teodoro, a evangelização é, não uma tarefa facultativa ou secundária, mas a missão essencial da Igreja e de toda a comunidade cristã.
"Anunciar o Evangelho não é para mim um título de glória, mas um encargo que recebi ", explicitou, citando São Paulo.
Um olhar para os jovens
Num dos momentos mais directos da homilia, dirigiu-se aos jovens propondo-lhes um caminho de compromisso e pertença.
“Jesus Cristo é o caminho certo para seguir e ser feliz. Ele é a verdade que liberta e a vida plena que desejamos”, disse.
Mais do que um discurso moralizante, foi um apelo à participação: a Igreja, disse, precisa dos jovens não apenas como destinatários, mas como protagonistas.
Recordando a mensagem de um outro Papa, João Paulo II, sublinhou que os jovens são “a esperança da Igreja e do mundo”. Assim, reiterou o amor da diocese pelos jovens, destacando que a mesma conta com eles para se renovar e evangelizar.
Servir
Sobre o seu ministério, foi claro quanto à sua visão e ao espírito com que chega à diocese. "Venho para a nossa diocese para ser vosso bispo, não por iniciativa minha nem por mérito meu, mas por graça de Deus e da Sé Apostólica”.
Invocando São Gregório Magno, lembrou ainda que quem é chamado a guiar deve ser o primeiro a servir, e comprometeu-se a caminhar com o povo de coração aberto, em comunhão com a Igreja Universal, em estado permanente de missão e com atenção especial aos pobres e fragilizados. Dom Teodoro pediu ainda união e comunhão de toda a comunidade para enfrentar e ultrapassar os eventuais desafios pastorais.
Diálogo e paz
Com os 500 anos da diocese no horizonte, o novo bispo de Santiago considera a preparação deste jubileu como “um tempo de graça e uma excelente ocasião para continuar a evangelizar com renovado ardor missionário”. Além disso, reiterou que ninguém deve ser excluído de participar na vida e missão da Igreja e apelou à colaboração de todos.
A intervenção incluiu ainda uma referência ao diálogo, uma das marcas do seu percurso. Dom Teodoro comprometeu-se com o diálogo ecuménico e inter-religioso, mas também com o diálogo institucional e social, apontando para a construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.
“O mundo precisa cada vez mais de diálogo, entendimento, cooperação profícua, esperança, paz e união. A Igreja é defensora e promotora de vida plena para todos”, sublinhou.
Assim, assume a sua missão, conforme disse, “com o desejo sincero de ajudar a promover a cultura do encontro e do diálogo construtivo”.
A encerrar a homilia, o bispo pediu: “Por favor, rezem sempre por mim, para que, sustentado pela graça de Deus, eu seja um bom pastor."
A passagem do testemunho
Dom Teodoro sucede ao Cardeal Dom Arlindo Gomes Furtado, que renunciou ao governo pastoral da Diocese de Santiago por ter atingido o limite canónico de 75 anos. Coube, ao bispo emérito, na qualidade de Administrador Apostólico da diocese, presidir à cerimónia de tomada de posse, que antecedeu a missa de entrada.
No seu discurso, Dom Arlindo destacou a chegada do novo Bispo como uma "enorme alegria", sublinhando o valor de um pastor de origem cabo-verdiana: "É uma alegria para nós, é uma honra também (...) um bispo nacional, cabo-verdiano, que tem mais facilidade em compreender e iluminar a nossa gente, na sua idiossincrasia, na sua cultura, na sua identidade."
Depois, foi lido o texto de nomeação papal que recorda que Dom Teodoro exerceu até ao presente o ministério episcopal na Diocese de Ponta de Pedras, sendo agora chamado a assumir a "diocese de origem". O clero e os fiéis são exortados a seguir o novo pastor "com respeito e obediência" e a empenhar-se "com fervor na vida da graça".
Dom Teodoro é o terceiro bispo cabo-verdiano e o 35.º nomeado para esta diocese, a mais antiga de toda a África subsariana.
A cerimónia contou com a presença do Núncio Apostólico, vários membros do clero vindos de diferentes partes do mundo, representantes do Estado cabo-verdiano e milhares de fiéis.
"Ninguém nasce à toa"
Voltando às mensagens pastorais, já no final da cerimónia, em declarações aos jornalistas, Dom Teodoro deixou ainda algumas palavras. O destaque foi para os jovens e idosos.
Sobre os jovens, lamentou a existência de crises existenciais e de ansiedade, defendendo que "ninguém nasce à toa" e que cada pessoa tem um propósito. Assim, apelou a que todos valorizem "o dom da vida que Deus nos deu". Dom Teodoro destacou também o importante papel e contributo das pessoas idosas na sociedade.
Quanto à missão imediata, disse querer conhecer melhor a realidade diocesana, escutar as comunidades e caminhar em sinergia com os fiéis.
Num momento em que Cabo Verde se prepara para eleições legislativas, o novo bispo não se esquivou ao tema. Defendeu uma política "baseada na honestidade, competência e respeito", alertou para os riscos da desinformação e das fake news, e apelou a uma campanha sem discursos de ódio.
"A política, enquanto busca do bem comum, é uma actividade nobre", afirmou, pedindo aos eleitores que conheçam as propostas dos candidatos e acompanhem os eleitos para além do período eleitoral.
Quem é Dom Teodoro?
Mais de trinta anos depois de partir de Santiago para o Brasil em missão, Teodoro Mendes Tavares, de 62 anos, regressa à ilha natal como seu pastor.
Natural da Calheta, no município de São Miguel, ingressou ainda jovem na Congregação dos Missionários do Espírito Santo (Espiritanos), uma congregação com forte tradição missionária. A profissão religiosa, em 1986, marcou o início de um percurso que rapidamente ganharia dimensão internacional.

Foi ordenado sacerdote em 1993 e um ano depois enviado como missionário para a Prelazia de Tefé, no coração da Amazónia. Ali ficou durante 16 anos, em comunidades ribeirinhas isoladas, entre populações marcadas pela pobreza extrema e pelo abandono. Essa experiência, num local onde a presença da Igreja depende mais da proximidade do que da estrutura, terá moldado o seu espírito pastoral.
A sua entrada no episcopado aconteceu em 2011, como bispo auxiliar de Belém do Pará. Em 2015, passou a liderar a Diocese de Ponta de Pedras – primeiro como bispo coadjutor, e depois bispo diocesano -, no arquipélago do Marajó (também no Pará), onde permaneceu até ser nomeado para Santiago.
Ao longo desse período, acumulou funções ligadas ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso, áreas nas quais viria a ganhar reconhecimento dentro da Igreja.
Esse reconhecimento foi formalizado em 2025, quando o Papa o nomeou membro do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso, um dos organismos da Santa Sé responsáveis pela relação com outras tradições religiosas.
A par da experiência pastoral, o percurso académico de Dom Teodoro reforça essa dimensão. Estudou filosofia no Instituto Superior de Teologia de Braga entre 1986 e 1987, e teologia na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa entre 1988 e 1993. Em Dublin, no Trinity College, em 1995 obteve o grau de mestre em Ecumenismo, com uma dissertação sobre as igrejas e a política europeia de imigração à luz dos acordos de Schengen e Dublin. Possui também uma pós-graduação em Desenvolvimento, com especialização em Estudos Franceses Modernos.
Uma Igreja de “terreno”
A sua chegada é vista como o início de um novo ciclo na Diocese de Santiago, ainda que em continuidade institucional com o seu antecessor. Na chegada à Praia, a 16 de Abril, Dom Teodoro evitou traçar prioridades imediatas. Disse querer antes “conhecer a realidade da diocese” e escutar as comunidades, numa abordagem que tem sido interpretada como sinal de um estilo mais pastoral do que programático.
O lema que escolheu para o seu episcopado - “Eis-me aqui” (retirado da resposta bíblica de Isaías e de Maria), - reforça essa leitura. Mais do que um programa, a expressão aponta para uma ideia de disponibilidade e presença, num modelo de liderança que se constrói a partir da relação directa com o clero e os fiéis.
Jubileu de 2033
A Diocese de Santiago fundou-se a 31 de Janeiro de 1533. Em 2033 completa 500 anos, um jubileu que a Igreja cabo-verdiana está a preparar desde 2023, num decénio de celebração e reflexão.
É a mais antiga diocese da África subsariana. Foi também, na sua origem, uma das mais complexas: a primeira Igreja local da África Ocidental a Sul do Saara, onde coexistiram, desde o início, missionários europeus, escravos africanos, homens livres e cativos.
Conduzir esta diocese até ao jubileu dos 500 anos, com dignidade, coesão e visão de futuro, é uma das grandes missões que Dom Teodoro recebe ao assumir o bispado.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1275 de 06 de Maio de 2026.
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