Iniciativa conjunta da rádio e Associação de Peixeiras do Mindelo (APM), o programa está integrado no projecto “1 Mar d’Comunidad”, que também conta com o envolvimento da Paz y Desarrollo e Biosfera, com financiamento da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID).
Mais do que contar histórias locais, “Entre Redes e Marés” entrega o microfone às comunidades, que produzem e apresentam cada um dos episódios. Assim o explica a presidente da APM, Eloísa Mota.
“Pensamos que é uma forma de dar voz a estas comunidades e permitir que as pessoas que vivem fora possam perceber como é que estas comunidades funcionam, quais as suas histórias, ouvir os mais velhos comparar entre a forma como as coisas funcionavam e como funcionam agora. Damos a conhecer histórias lindas que existem nas comunidades de pescadores, peixeiras e armadores”, resume.
“Entre Redes e Marés” é produto de um trabalho de vários meses, que mapeou memórias, saberes e vivências ligadas ao mar. Germana Soares, uma das participantes do programa, sublinha a importância de registar testemunhos.
“Nós vemos este programa com bons olhos, para podermos ter mais voz, para que possam saber como vivemos, o que passamos, e todos ouvirem. É bom, porque pode ajudar a resolver alguns problemas”, acredita.
“Acho que é uma iniciativa para expressarmos o que passamos. Falamos, os outros ouvem e tentamos melhorar as coisas. Contamos as nossas histórias e a nova geração passa a ter uma mínima noção da vivência da pesca mais antiga”, acrescenta.
Residente no Calhau, Risete Delgado é uma das apresentadoras e a voz do spot promocional. Destaca a importância do formato no combate á invisibilidade a que estão condenadas as periferias mediáticas.
“Procura mostrar a realidade e vivência dos pescadores e peixeiras, trazendo para a sociedade a importância das pescas e as dificuldades que ainda enfrentam e que já deveriam ter sido ultrapassadas. Penso que o programa terá um impacto muito grande”, antecipa.
Calhau, Salamansa, São Pedro e Mindelo são as localidades abrangidas. Através do programa “Entre Redes e Marés” também se procura aumentar a auto-estima e valorização de uma população e de actividades fundamentais para a economia nacional e segurança alimentar.
Roseno Oliveira, técnico do projecto “1 Mar d’Comunidad”, explica a importância de dar rosto a conceitos e políticas.
“Falamos muito da economia azul e dentro desta sabemos que está a pesca artesanal. Frequentemente retratamos essas comunidades de forma superficial. Através deste programa, queremos dar visibilidade, mostrar que a mudança social e desenvolvimento pode e deve ser feito também através do conhecimento, da inclusão e da valorização do contributo dessas comunidades”, diz.
Na tarde de dia 3, o programa teve a sua ante-estreia numa roda de conversa em São Pedro, da qual participou Fernando Regúlez, coordenador da AECID em Cabo Verde. O responsável defende que as comunidades costeiras devem ter um papel activo na definição de respostas para os desafios que enfrentam.
“A primeira questão que vejo é que [estas comunidades] não querem ser periféricas, querem ser um actor central. Penso que as comunidades, mais do que uma voz, têm o direito de estarem activas naquilo que afecta suas vidas. Portanto, penso que as pessoas querem associar-se para melhorar a vida de todos e isso é importante, um activo do país”.
O representante da cooperação Espanhola nota que a criação de espaços de comunicação “é uma forma de reconhecer o seu contributo para o desenvolvimento do país”. Iniciativas como o "Entre Redes e Marés" permitem “guardar a voz daqueles que, tradicionalmente, têm pouca presença no espaço mediático, contribuindo para preservar a história e reforçar a identidade do país”.
As gravações aconteceram em estúdio e nas próprias comunidades. Foram antecedidas por um período de formação, na Rádio Morabeza, para as apresentadoras, e de um workshop, mais abrangente, sobre técnicas de comunicação.
Lourdes Fortes, jornalista da rádio, e coordenadora local do “Entre Redes e Marés”, acompanhou todo o processo.
“A estreia do primeiro episódio foi o culminar de um processo longo, que começou ainda em 2025. Foi uma experiência única, que permitiu não apenas levar a rádio às comunidades, mas também trazer as comunidades à rádio. É um programa que está muito em linha com aquilo que procuramos fazer na Morabeza, que é esta ideia de uma rádio de portas abertas e próxima das pessoas, onde quer que elas estejam”, declara.
Os 15 episódios de “Entre Redes e Marés” podem ser ouvidos todas as terças-feiras, às 10:30, com reposição às 16:15. O programa também está disponível em radiomorabeza.cv e nas plataformas digitais.
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