Em Ponta d’Água, Carla diz que a redução da água na rede já dura há vários meses, mas que a situação se deteriorou particularmente nos últimos dois meses. Segundo a moradora, actualmente a água chega, quando chega, com intervalos que podem atingir duas semanas, além de apresentar, por vezes, uma coloração amarelada e cheiro a lixívia.
Há duas semanas que não tem água em casa e tem recorrido a vizinhos cuja residência está ligada a outra rede.
“Há vários meses que há pouca água na rede, muita pouca quantidade, mas nos últimos dois meses a situação piorou”, diz.
A necessidade de transportar a água também tem provocado consequências físicas e dificultado tarefas como a lavagem de roupa. Carla calcula que precisa de fazer pelo menos cinco viagens para conseguir encher um barril, utilizando boiões de 25 litros.
“Estou obrigada a fazer isso porque a água é fundamental em casa e não tenho como pagar extra por uma tonelada de água. Mas, se eu quiser, por exemplo, lavar a roupa, tenho que dar mais voltas. E menos mal esses vizinhos não cobram para que possa encher nas suas casas, porque têm sido solidários com a nossa situação”.
A falta de água, acrescenta, repercute-se no próprio ambiente doméstico, com acumulação de roupa e dificuldades em manter a casa limpa. A situação é ainda mais complicada para a mãe, que vive num primeiro andar e não dispõe de uma electrobomba para fazer chegar a água à residência.
São Filipe
Em São Filipe, segundo Daniela, a água costuma chegar ao fim de semana e permanecer disponível durante um período curto. A família enche todos os recipientes disponíveis quando a pressão regressa à rede.
“Normalmente se tivermos água num sábado ou domingo, já só volta a estar na rede uma semana depois. Uma semana sem água na rede, com este calor... Por isso, quando vem, temos que encher todos os boiões de cinco litros que temos em casa, que fica com aspecto de desarrumado, além dos barris”, conta.
Para prolongar as reservas, a família separa a água de acordo com a utilização, os recipientes menores são destinados à cozinha e os barris às casas de banho. Quando essas reservas diminuem, recorrem a um tanque subterrâneo construído precisamente para enfrentar a irregularidade do abastecimento.
“Usamos a água do tanque subterrâneo que fizemos, temos de ir com um balde para apanhar água, como se fosse um poço. Fizemos este tanque porque nem sempre a água tem forças para subir até ao segundo andar”.
A moradora conta ainda que, em algumas ocasiões, precisa de deslocar-se à casa da mãe, num outro bairro, para conseguir água. A escassez também tem condicionado a limpeza da residência, com a família a optar por fazer apenas o indispensável para não esgotar as reservas antes de saber quando a água voltará à rede. “
Conforme relata, a presença de uma criança pequena torna a gestão das reservas ainda mais difícil, sobretudo perante as temperaturas elevadas. Embora a família ainda não tenha comprado água, Daniela diz observar vários vizinhos a recorrerem aos carros que comercializam o recurso.
Zona 4
Na Zona 4, Cláudia situa o início das dificuldades mais sérias há cerca de um ano. Para conseguir fazer chegar a água ao segundo andar da sua residência, decidiu investir numa electrobomba, apesar das dificuldades financeiras.
A solução permitiu-lhe evitar durante algum tempo o transporte manual de água, mas a baixa pressão da rede tem reduzido a eficácia do equipamento.
“Eu acho que o problema da água persiste há mais ou menos um ano, porque foi em Setembro do ano passado que eu comprei uma electrobomba que era para ajudar a bombear água para o segundo andar onde eu vivo. E se não fosse electrobomba, eu hoje estaria com sérios problemas de costas, porque eu costumava apanhar água à cabeça num balde de 25 litros”, descreve.
A aquisição e instalação do equipamento representaram um esforço financeiro para a moradora, que pagou ainda pela colocação da bomba. Nos últimos dois meses, contudo, nem mesmo o equipamento tem conseguido resolver o problema, devido à pressão insuficiente da água.
A irregularidade do abastecimento tem interferido também na vida profissional de Cláudia.
“Sem um horário previsível para a chegada da água, permaneço em casa à espera para tentar retirar o ar do contador e permitir que a electrobomba consiga funcionar. Por isso tenho chegado ao trabalho sempre atrasada”, diz.
A utilização da electrobomba acarreta, por outro lado, um acréscimo na factura de electricidade. Cláudia questiona ainda a cobrança pelo serviço de abastecimento, considerando que continua a receber facturas de água apesar da ausência do recurso nas torneiras.
A tentativa de reclamar junto da empresa responsável pelo abastecimento também, segundo a moradora, não tem produzido respostas concretas. Diz que o contacto telefónico deixou de ser atendido e que os residentes têm sido obrigados a deslocar-se presencialmente às instalações da empresa, sem obter uma previsão para a resolução do problema.
Dentro de casa, a escassez obriga a alterar hábitos básicos de higiene e limpeza. A loiça é acumulada até haver quantidade suficiente para justificar o uso da água, enquanto a mesma água é aproveitada para diferentes tarefas. Até as plantas da residência têm sido afectadas.
São Pedro
Em São Pedro, Sofia enfrenta uma situação particularmente delicada por depender da água para a criação de galinhas, porcos e patos. Quando as reservas destinadas aos animais e ao uso doméstico terminam, a compra de água torna-se inevitável.
“Esta história da água já passou de todos os limites”, aponta. A moradora relata que a necessidade de adquirir água tem pesado no orçamento familiar e que nem todas as famílias dispõem de recursos para acompanhar os preços praticados pelos vendedores.
Recentemente, chegou a comprar três barris e, poucas horas depois, a água regressou à rede. “Tenho um vizinho, coitado, não tem condições de comprar água, é preciso a solidariedade dos vizinhos que sempre lhe dão um ou dois boiões de água. Neste dia ele também comprou e depois veio a água. Imagina o que ele poderia fazer com este dinheiro”, lamenta.
A escassez também impede actividades como a rega de plantas, uma vez que a água disponível é reservada para necessidades consideradas prioritárias. Sofia entende que a situação exige uma resposta, sobretudo para as pessoas que não conseguem suportar os custos da compra de água.
“Temos que estar sempre a comprar água e ainda pagar factura da AdS. E não dá para não comprar porque sem água não conseguimos fazer nada”.
Palmarejo Grande
No Palmarejo Grande, Sónia diz sentir menos os efeitos da crise por viver num prédio equipado com tanques individuais e um reservatório adicional. Ainda assim, as reservas não foram suficientes para responder aos últimos dias sem abastecimento.
“Quando sentimos falta é porque realmente há vários dias que a água não chega às torneiras. Nos últimos seis dias a água não veio, então nem os tanques nem os reservatórios tinham água e tivemos de comprar”, conta.
A falta de previsibilidade leva a moradora a adiar a lavagem de roupa para evitar ficar sem reservas. Quando é necessário comprar água, a localização do apartamento também representa uma dificuldade adicional, já que os vendedores nem sempre aceitam subir até aos andares mais altos e, segundo Sónia, acabam por cobrar mais.
“Estou com muita roupa suja em casa e não posso lavar porque fico com medo de ficar sem água. E depois aqui, por ser um prédio alto, o pessoal que vende água nos carros resiste um pouco antes de vir, eles não gostam muito por ser alto e acabam por cobrar sempre um pouco mais, pagamos 2 mil escudos por uma tonelada. Praticamente o que pagamos no final do mês à AdS”.
“É preciso solucionar o problema de água porque assim não dá. Está difícil ter água neste país, é uma situação que precisa ser vista”.
Achadinha
Em Achadinha, Paula considera que a escassez de água ultrapassa a questão do conforto doméstico, por interferir directamente em actividades essenciais do quotidiano.
A moradora reconhece a necessidade de poupar um recurso limitado, mas entende que a actual situação tem provocado constrangimentos que afectam famílias e actividades económicas.
“O problema de escassez de água na cidade da Praia e não só, porque também afecta outros municípios do país, tem sido uma situação que traz bastante constrangimentos. Constrangimentos porque a água não é um luxo, a água é um bem de primeira necessidade. É um bem muito essencial para o dia-a-dia de cada pessoa. Para cozinhar é preciso água, bebemos a água, para trabalhar é preciso água”, declara.
Paula chama ainda a atenção para a dimensão sanitária do problema, uma vez que a redução da água disponível obriga as famílias a reutilizar o recurso em tarefas domésticas.
“Se antes a gente se lavava com dois copos de água, agora temos de lavar com um. Temos de deixar a água acumular na pia que é para voltar a lavar a loiça porque não podemos estar constantemente a trocar de água”.
Apesar da irregularidade no fornecimento, a moradora diz que as facturas da AdS continuam a chegar regularmente, enquanto as famílias são obrigadas a suportar custos adicionais para garantir água em casa.
A procura crescente também afecta os próprios vendedores de água, que, segundo Paula, nem sempre conseguem responder à quantidade de pedidos.
“Uma vez que há escassez de água na rede, os próprios carros que vendem água têm sentido dificuldades em atender a todos, também não têm tido sempre devido à demanda actual. Imagina uma casa com muitos membros, como é que tem que gerir e ainda correr atrás dos carros para encher os seus tanques”.
Segundo a moradora, em algumas ocasiões a água regressa apenas uma vez por semana, o que obriga a prolongar ao máximo as reservas existentes e a adiar tarefas domésticas.
“Imagina os salões de beleza que funcionam à base de água ou uma pessoa que tem um restaurante ter de fazer este gasto extra”.
Perante a continuidade da situação, Paula considera necessário que seja apresentada uma resposta concreta sobre a resolução da crise e sobre o período durante o qual as famílias terão de continuar a enfrentar as actuais limitações.
De referir que no passado domingo, 9, a Electra informou que a Central Dessalinizadora do Palmarejo encontra-se actualmente a operar com três das quatro linhas de produção, correspondente a cerca de 75% da sua capacidade instalada.
Na altura, previu a reposição da capacidade total até ao final da segunda-feira passada, 10. No entanto, não houve nenhuma comunicação se o problema foi ou não resolvido.
O Expresso das Ilhas, entretanto, tentou contacto com a AdS escusou-se a comentar.
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