Quais são as principais propostas do MpD para estas eleições?
Queremos continuar a garantir um país com crescimento económico robusto, mas sobretudo mais diversificado e resiliente. Cabo Verde tem espaço para crescer ainda mais no turismo, mas há também sectores estratégicos a ganhar peso, como a economia azul e a economia digital. Hoje já vemos um crescimento do contributo da economia azul para o PIB, não apenas através das pescas, mas também da aquacultura, que surge como um novo sector com forte potencial exportador. O posicionamento de São Vicente como plataforma de transhipment de contentores é outro eixo estratégico, reforçado pelos investimentos previstos para o Porto do Mindelo e Porto Novo, financiados no âmbito do Global Gateway. Ao mesmo tempo, a economia digital está a ganhar dinâmica, com startups e empresas internacionais a instalarem-se em Cabo Verde devido à atractividade dos parques tecnológicos. O objectivo é criar mais riqueza, empregos qualificados e melhores rendimentos para os jovens. No plano social, a prioridade passa pelo aumento do rendimento das famílias. O Governo pretende continuar a actualizar o salário mínimo nacional, reduzir o IVA da água e electricidade para 6% e reforçar as deduções fiscais ligadas à educação, saúde e mobilidade. Na habitação, serão reforçadas as bonificações de juros no crédito à habitação, sobretudo para os jovens, além da criação de garantias públicas para cobrir a entrada exigida pelos bancos. Haverá ainda uma aposta na habitação a custos controlados e no regime de renda resolúvel, permitindo que mais famílias tenham acesso à casa própria. A protecção social continuará a ser reforçada, com destaque para a criação de cerca de três mil empregos na área dos cuidados a idosos, pessoas com deficiência e doentes crónicos. O objectivo é eliminar a pobreza extrema ainda em 2026 e reduzir a pobreza absoluta, promovendo não apenas assistência social, mas também inclusão produtiva e mobilidade económica. Outra prioridade é tornar o país menos vulnerável. Na energia, Cabo Verde quer ultrapassar os 50% de produção eléctrica a partir de fontes renováveis no próximo mandato e atingir mais de 80% até 2040. Na água, o foco será o aumento da dessalinização, a redução das perdas nas redes e o reforço da água para a agricultura, diminuindo a dependência das chuvas e enfrentando os efeitos da desertificação. Na saúde, o novo hospital da Praia será um hospital de referência nacional, preparado para reduzir evacuações externas em áreas como oncologia, neurocirurgia e oftalmologia. O modelo, o financiamento e o processo de infraestruturação já estão definidos, enquanto decorre também a preparação de recursos humanos especializados. Nos transportes, o Executivo quer reforçar significativamente a conectividade entre as ilhas. Estão previstos novos aviões para a TACV e várias embarcações para passageiros e mercadorias, com o objectivo de aumentar a oferta e reduzir os constrangimentos nas ligações interilhas. Segundo o Governo, o problema actual não é a procura, mas sim a insuficiência de meios de transporte disponíveis.
Se vencer as eleições, vai apresentar um novo orçamento do Estado?
O orçamento do Estado é para executar, até porque nós acabamos de tomar uma iniciativa muito importante. O país continua, independentemente das eleições. O Estado tem continuidade, independentemente das eleições. O orçamento é orçamento do Estado, não é orçamento apenas de um governo. Por isso é que o maior Parlamento tem que ser aprovado. Então, independentemente dos períodos eleitorais, os orçamentos do Estado devem ser aprovados. Isto está na lei de base do orçamento. Precisamente para podermos garantir. Agora, o governo pode continuar com o orçamento ou não. Mas não fica com quebra, até porque entre eleições, até a tomada de posse, até apresentação no programa de governo, você vai levar aí uns dois meses e o país não pode ficar bloqueado por falta de orçamento.
Se razões externas ditarem... Por exemplo, esta questão da crise que nós temos no Médio Oriente ainda está por definir qual é o seu impacto. Se o impacto for ainda mais gravoso do que nós temos tido, eventualmente poderemos ser obrigados a fazer um orçamento rectificativo, mas, de momento, tudo aponta para que o orçamento que nós temos é um orçamento para executar durante 2026.
Uma das críticas que lhe tem sido feita é a de que tem uma equipa demasiado grande, demasiado pesada para a máquina do Estado. Começou em 2016 com 12 ministros e o número, a partir daí foi aumentando… A questão é, vai diminuir ou vai encurtar o governo ou vai manter a equipa como está?
A dimensão do governo que nós temos neste momento, eu creio que não é um problema. Temos que ter Negócios Estrangeiros, tem que ter Administração Interna, tem que ter Justiça, tem que ter Educação, tem que ter Saúde, tem que ter área económica. Há uma ideia preconcebida por detrás de que o governo é um custo, é um encargo. E que o próprio Parlamento é um encargo. Há que reduzir o Parlamento para termos dez deputados? Depois, o que é que isso representa em termos de representatividade? Porque nós somos ilhas. O que é que isso representa em termos de proporcionalidade, porque algumas têm mais população e têm mais eleitores, vão ter que ter mais deputados. Portanto, não é necessariamente por aí. No governo também é a mesma coisa. Nós tivemos uma experiência em 2016 de 12 ministros, mas depois de alguns anos verificamos que era quase impossível funcionar, porque há uma sobrecarga de áreas e de departamentos governamentais para um número muito reduzido de membros de governo, ainda por cima sem secretários de Estado. Tivemos que fazer os ajustamentos. Eu não creio que seja um problema de facto. O nosso grande problema, ainda em Cabo Verde, é o problema da eficiência da administração. Isso é outra coisa. De toda a administração. É preciso mais produtividade e nós vamos atacar isso também como um dos pontos estruturais das transformações para o futuro próximo futuro que é a transformação digital que é reduzir ao máximo a máquina pesada, burocrática e torná-la muito mais eficiente, muito mais produtiva. E a transformação digital é um dos instrumentos para nós chegarmos lá e fizemos progressos nessa área e vamos acelerar.
Nestas eleições está em causa continuidade do MpD no governo. Ainda estamos numa fase inicial da campanha, que sinais é que têm tido da parte da população?
Sinais positivos. Primeiro, nós estamos na posse de sondagens. Segundo, aquilo que têm sido os contactos, acho que há uma perspectiva positiva de que é preciso, de acordo com o nosso slogan, que Cabo Verde siga em frente. E a nossa mensagem é muito clara relativamente a esta matéria. Nós não estamos aqui num combate contra A, B ou C, estamos a favor de Cabo Verde. Por Cabo Verde. Que precisa, nestes momentos conturbados a nível mundial, de reforçar a sua credibilidade externa, precisa de estabilidade e precisa de continuar a ter um bom governo. Cabo Verde não precisa ser resgatado, não há nada a resgatar. Cabo Verde precisa ser bem governado. Então, nós garantimos isso. Boa governança, não só o reconhecimento que é externo hoje do país, mas o reconhecimento também interno. Dormirmos descansados relativamente à nossa democracia. Mas alguns dos nossos adversários dão indícios de alguns desvios para o populismo, de alguns desvios saudosistas do regime que saiu do nosso país desde 1991. Portanto, estas coisas têm que ficar claras. E tem que ser na expressão que as pessoas dizem sobre as coisas, vê-se a clareza da sua intenção e da sua intencionalidade. Portanto, as coisas têm que ficar claras e o sentimento que nós temos hoje é que mesmo uma parte importante do PAICV está a virar-se para a estabilidade, para a garantia da boa governança e para assegurar que o país se mantenha na perspectiva de um caminho e de um desenvolvimento que garanta oportunidades e sustentabilidade para o futuro próximo. Eu creio que há uma maturação já, um nível de maturidade e as pessoas já sabem comparar as coisas e sabem o que é que se passa no mundo, sabem as vulnerabilidades do país, sabem e conseguem medir os riscos para além daquilo que é um movimento que as campanhas produzem, mas as pessoas devem parar e reflectir e fazer as melhores escolhas.
Se ganhar sem maioria absoluta faz obrigações?
Nós governamos com aquilo que são os resultados que os votantes nos deram para governar. É claro que nós estamos nesta competição eleitoral é para ganhar com maioria absoluta. Portanto, essa é a nossa intenção. A estabilidade do país também exige isso, porque não tendo experiências de governos minoritários, os cabo-verdianos até hoje deram respostas também de estabilidade. Todos os governos foram governos de maioria absoluta, sempre pensando que é preferível ter estabilidade do que ter instabilidade por motivos partidários, que às vezes colocam a vontade partidária acima da vontade do país, e depois, quando chegam nos momentos decisivos, temos problemas. E nós não podemos dar-nos ao luxo de estarmos aí com convulsões políticas como verificamos em vários outros países aqui do continente africano e não só.
Já tem a sua equipa formada? Se ganhar as eleições, já fez os convites todos para o governo?
Não, isso será pensado depois. Agora o foco é ganhar eleições.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1274 de 29 de Abril de 2026.
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