Debate e acusações dominam a última semana da campanha

PorSara Almeida,15 mai 2026 13:55

A campanha para as eleições legislativas de 17 de Maio de 2026 entrou na sua fase decisiva. Com o país polarizado entre a continuidade e a mudança, os cinco partidos concorrentes intensificaram as acções no terreno e os apelos à mobilização do eleitorado. Numa semana marcada pelo debate televisivo que reuniu todos os líderes partidários, não faltaram promessas, acusações e até confrontos físicos entre militantes. No domingo, Cabo Verde decide.

O momento alto da campanha, até agora, foi o debate da noite de 8 de Maio, que, pela primeira vez neste pleito, reuniu os líderes das cinco forças políticas num frente-a-frente de mais de duas horas transmitido pela TCV e RCV.

Ulisses Correia e Silva (MpD), Francisco Carvalho (PAICV), João Santos Luís (UCID), Jónica Brito (PTS) e Amândio Barbosa Vicente (PP) mediram forças numa discussão marcada pelo financiamento das políticas públicas, o legado da governação e as desigualdades sociais.

O debate evidenciou leituras políticas distintas: Ulisses Correia e Silva ancorado nos dados e na continuidade da governação; Francisco Carvalho apostado numa agenda de ruptura assente na gratuitidade de serviços essenciais; e Jónica Brito a capitalizar o descontentamento jovem com um discurso fora do eixo habitual. UCID e PP apresentaram propostas estruturais, mas com menor impacto mediático no confronto directo entre os adversários.

Estabilidade vs Ruptura

O crescimento económico foi um dos temas centrais. Ulisses Correia e Silva, candidato ao seu terceiro mandato consecutivo, construiu a estratégia na continuidade. "Mais um mandato para consolidar os ganhos conseguidos até agora", pediu o Primeiro-ministro, sem que, nas suas intervenções, reconhecesse erros nos seus dois mandatos anteriores.

Entre esses ganhos de economia resiliente, apontou o crescimento de 7,3% em 2022, a taxa de desemprego mais baixa da história (4,9%), a certificação de Cabo Verde como país livre de paludismo em 2024, a autonomia em diálise alcançada, e um Parque Tecnológico com mais de 350 empresas.

Os números apresentados foram contestados pelos outros candidatos. Amândio Barbosa Vicente criticou o impacto desigual do crescimento económico, referindo a perda de poder de compra das famílias desde 2015. "O elevador social que combate as desigualdades em Cabo Verde está avariado", afirmou o líder do PP.

Na mesma linha, João Santos Luís (UCID) argumentou que as taxas de desemprego oficiais não reflectem a precariedade real, com cabo-verdianos a ver os filhos emigrar por falta de perspectivas.

Metáfora da banana

Do lado do maior partido da oposição, Francisco Carvalho (PAICV) protagonizou um dos momentos mais comentados da noite, que as redes sociais receberam com ironia, ao recorrer a uma metáfora para explicar o que considera estar errado na leitura oficial da economia. Se uma pessoa tem duas bananas e outra não tem nenhuma, estatisticamente cada uma tem, em média, uma banana. O número parece equilibrado, mas na realidade só uma pessoa come e a outra fica sem nada. Para Carvalho, é o que acontece com o crescimento: os números agregados escondem uma concentração de rendimento que deixa a maioria fora dos ganhos.

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Noutros momentos do debate, Carvalho criticou o governo central, listando o Hospital da Praia, o aeroporto de Santo Antão e o terminal de passageiros de São Vicente como promessas "copy paste" repetidas desde 2016 e 2021 que ainda aguardam concretização.

Gratuitidade

Uma boa parte do debate girou em torno das propostas de Francisco Carvalho. O candidato do PAICV apresentou um programa centrado na gratuitidade da saúde, do ensino superior e da formação profissional, e na redução dos custos dos transportes interilhas, com passagens de avião a 5.000 escudos e de barco a 500 escudos. O financiamento viria do corte nas chamadas "gorduras do Estado", nomeadamente consultorias e despesas de funcionamento.

Os restantes candidatos contestaram a viabilidade dos cálculos, considerando as medidas financeiramente insustentáveis.

Ulisses Correia e Silva quantificou os custos: as subvenções nos transportes representariam 2,5 milhões de contos anuais (1,3 para as ligações marítimas e 1,2 para as aéreas). Adicionando o ensino superior gratuito e a saúde sem taxas, o total ultrapassaria os 4 milhões de contos por ano. "É fácil fazer o populismo, é fácil vender tudo que é facilidade", afirmou o líder do MpD, classificando as propostas como palavras “sem conteúdo".

Amândio Vicente considerou a proposta dos 500 escudos "inviável". Jónica Brito foi a voz do cepticismo jovem: os jovens não acreditam nessas promessas, disse, e pediu que Carvalho explicasse a “dinâmica de financiamento” por trás de preços tão baixos.

Carvalho respondeu com números daquilo a que chama de “gorduras do Estado”: mais de 3 milhões de contos gastos em consultorias, mais de 1 milhão de contos em viagens oficiais, e cerca de 2 milhões de escudos pagos por dia em indemnizações à concessionária marítima. "Somente cortando ao nível dos estudos e das consultorias nós temos como financiar os custos da saúde", argumentou.

Ulisses contrapôs que muitas dessas consultorias estão associadas a financiamentos externos, que o corte poderia comprometer.

A surpresa da noite

Entretanto, a julgar pelas reacções nas redes sociais, a surpresa da noite foi Jónica Brito, única mulher no painel e a candidata mais jovem. A candidata do PTS denunciou o que classificou como “democracia de papel” e clientelismo político, apontando a exclusão de jovens dos processos de decisão e de oportunidades de grande monta. Nesse sentido, por exemplo, questionou a representação de jovens nas listas dos principais partidos e criticou o recurso a empresas estrangeiras de comunicação nas campanhas. Defendeu ainda políticas de incentivo à juventude, foco na industrialização da pesca e no apoio a startups, entre outras medidas, sempre procurando posicionar-se fora da lógica dos partidos tradicionais.

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UCID e PP

UCID e PP tiveram uma performance mais discreta. João Santos Luís posicionou-se como alternativa estruturada ao bipartidarismo, e uma proposta concreta foi entregar 10% do Orçamento do Estado directamente aos municípios. O candidato criticou o modelo actual de transportes interilhas, denunciando que “o Estado compra navios para entregar a privados que não cumprem”, e defendeu que a nomeação de magistrados seja desvinculada do poder político.

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Amândio Barbosa Vicente centrou a sua intervenção na justiça e na soberania económica. O líder do PP defendeu a redução da dívida pública como prioridade, argumentando que o endividamento compromete a capacidade do Estado para investir. Propôs ainda uma empresa pública de transportes marítimos com lógica de “lucro zero”, tratando a mobilidade interilhas como uma questão de soberania nacional e não de mercado.

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Este foi o segundo debate da campanha. No primeiro, a 28 de Abril, Francisco Carvalho esteve ausente por se encontrar em deslocação pelas ilhas, e Jónica Brito faltou devido a uma intoxicação alimentar.

Balanços e denúncias

Depois do debate, os dois maiores partidos, o MpD e o PAICV, convocaram a imprensa para fazer um balanço a meio percurso da campanha. Ambas as forças políticas classificaram, esta segunda-feira, as respectivas campanhas como positivas, mas, mais do que um balanço, as conferências foram uma troca pública de acusações.

O PAICV, pela voz de Carla Lima, denunciou um "bloqueio burocrático" das alfândegas a materiais de campanha retidos há 20 dias. "Sempre que uma exigência é cumprida, surge imediatamente outra", apontou. A candidata acusou também o MpD de manipulação de imagens e de desinformação.

Já o MpD, através de Abraão Vicente, contrapôs com denúncias de distribuição de materiais de construção e bens alimentares pelo PAICV para condicionar votos e alegada utilização de meios municipais na campanha do PAICV. Apontou ainda a circulação de sondagens não autorizadas pela ARC, que classifica de "um crime contra a República", e denunciou a intimidação de militantes em vários bairros da capital.

O ex-ministro apelou ainda directamente ao PTS e ao PP para que garantam delegados nas mesas de voto, denunciando tentativas de os desmobilizar.

São Martinho

Entretanto, um dos episódios mais graves da semana, também referido em ambas as conferências, foi o confronto físico entre militantes em São Martinho.

As duas versões são contraditórias. Carla Lima acusa uma caravana do MpD de parar de forma "provocatória" em frente à sede do PAICV, o que o que gerou violência, com dois apoiantes a ficarem feridos. O MpD apresentou vídeos para provar que os seus militantes foram bloqueados por um carro de som do PAICV, e que Abraão Vicente interveio para separar os grupos. O bloqueio, acusa ainda, foi ordenado por um dirigente local do PAICV para impedir a passagem da arruada, resultando num confronto "corpo a corpo". Ambos os partidos apresentaram queixas.

O tom da campanha preocupou os partidos mais pequenos. A UCID denunciou a existência de violência eleitoral, apelando à serenidade. O PTS instou os grandes partidos a controlarem os seus apoiantes. O PP criticou a excessiva politização das instituições.

Por onde andaram os candidatos

Com a campanha a entrar na recta final, os líderes partidários multiplicaram as deslocações pelas ilhas, num sprint de comícios, arruadas e contactos porta a porta.

Ulisses Correia e Silva percorreu várias ilhas. Sentiu-se "em casa" no Maio, terra do avô, prometeu desencravar os três concelhos do Fogo e transformar Chã das Caldeiras numa referência turística, e chegou a São Nicolau com promessas de melhoria nos transportes.

Francisco Carvalho, após o debate de 8 de Maio, voltou a Santiago Norte, atravessou para São Vicente onde defendeu uma descentralização "sem imposições" e seguiu para Santo Antão, onde assumiu vários compromissos: hospital no Porto Novo, aeroporto, solução para a praga dos mil pés.

João Santos Luís, na Praia, falou de segurança urbana e saneamento, esteve em Assomada e seguiu para São Vicente, onde é cabeça de lista, a pedir votos para reforçar a UCID no Parlamento.

Amândio Vicente percorreu as ruas do Tarrafal, defendendo um "choque de investimento" no concelho, e esteve também na Praia a denunciar a disparidade de serviços entre bairros.

Jónica Brito visitou as periferias, de São Domingos a Alto da Glória (Praia), e prometeu levar as dificuldades encontradas nessas zonas para o Parlamento.

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PAICV apresenta Plataforma Eleitoral 

Na semana passada, sete dias depois do MpD ter apresentado a sua plataforma eleitoral, foi a vez do PAICV. No dia 7, Francisco Carvalho apresentou a proposta, assente na visão de "Cabo Verde para Todos" e numa crítica aos dez anos de governação do MpD.

O programa aposta na redução das chamadas “gorduras do Estado”, com menos agências públicas e cortes em despesas de funcionamento. As poupanças, tal como viria depois a assinalar no Debate, seriam canalizadas para a gratuitidade da saúde, do ensino superior e da formação profissional, além da redução dos custos dos transportes interilhas.

Na economia, o partido propõe ainda a redução do IRPC para 17%, a criação de uma “autoestrada das ilhas” para reforço das ligações marítimas e um Banco de Investimento Agroazul para apoiar agricultura e pescas.

CNE desmente desinformação

A Comissão Nacional de Eleições desmentiu informação falsa divulgada pela página “Onda Amarela” no Facebook segundo a qual teria proibido Buguin Martins num comício do PAICV e autorizado Dimas Fernandes num evento do MpD no Fogo.

A CNE explicou que recebeu do MpD uma queixa sobre a actuação de Buguin Martins. Durante a apreciação preliminar, foi assinalada a possibilidade de violação do Código Eleitoral. O PAICV desistiu da actuação antes de qualquer deliberação. Quanto a Dimas Fernandes, a CNE não recebeu qualquer queixa nem tomou qualquer decisão sobre o assunto.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1276 de 13 de Maio de 2026.

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Autoria:Sara Almeida,15 mai 2026 13:55

Editado porClaudia Sofia Mota  em  15 mai 2026 15:19

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