Campanha eleitoral ganha intensidade

PorAndré Amaral,10 mai 2026 8:24

A campanha eleitoral para as legislativas de 17 de Maio entrou, entre 28 de Abril e 5 de Maio, numa fase de forte intensidade política em Cabo Verde, marcada por debates televisivos, pela apresentação da plataforma eleitoral do MpD, acções de rua em todas as ilhas, troca de acusações entre os principais partidos e sucessivos alertas da Comissão Nacional de Eleições (CNE) para o cumprimento rigoroso das regras do processo eleitoral.

Com cinco partidos na corrida aos 72 lugares da Assembleia Nacional, o Movimento para a Democracia (MpD), o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), a União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID), o Partido Popular (PP) e o Pessoas Trabalho e da Solidariedade (PTS), o país vive uma campanha fortemente polarizada entre continuidade e mudança, enquanto a UCID tenta reforçar a sua posição como terceira força política nacional.

Debate televisivo marcou o arranque político

O período começou a ganhar ritmo político a 28 de Abril, com um debate transmitido pela Televisão de Cabo Verde e pela Rádio de Cabo Verde, no qual MpD, UCID e PP apresentaram as suas principais linhas programáticas.

O MpD defendeu a continuidade governativa, argumentando que o país atravessa um período de recuperação económica e estabilidade institucional, enquanto a UCID criticou a governação nas áreas sociais e económicas. O Partido Popular apelou a uma mudança política e maior abertura democrática. O PAICV e o PTS não participaram no debate.

No mesmo dia, a Direcção-Geral de Apoio ao Processo Eleitoral divulgou o mapa global dos eleitores inscritos para as legislativas, revelando um crescimento significativo do eleitorado face a 2021, sobretudo na diáspora. Segundo os dados oficiais, Cabo Verde registava mais de 419 mil eleitores inscritos, confirmando o aumento da participação eleitoral potencial num contexto de elevada mobilização política.

Também a 28 de Abril, a CNE confirmou a admissão de 48 listas de candidaturas pertencentes aos cinco partidos concorrentes. O MpD e o PAICV apresentaram candidaturas em todos os círculos eleitorais nacionais e da diáspora, enquanto a UCID concorre em dez círculos eleitorais. No total, as eleições contam com 556 candidatos, entre efectivos e suplentes, com uma representação feminina superior a 47%, em cumprimento da lei da paridade.

CNE pede elevação e respeito durante a campanha

À medida que se aproximava o início oficial da campanha, a presidente da CNE, Maria do Rosário Gonçalves, apelou aos partidos para conduzirem uma campanha “marcada pelo respeito, tolerância e elevação”, defendendo que o debate político deve centrar-se em propostas concretas para o país e evitar radicalizações e confrontos desnecessários.

O órgão eleitoral reforçou igualmente os apelos ao civismo e à responsabilidade política, sublinhando a importância de preservar a estabilidade democrática durante o período eleitoral.

MpD apresenta plataforma eleitoral

A campanha arrancou oficialmente à meia-noite de 30 de Abril. Na cidade da Praia, o líder do MpD e primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, abriu a campanha pedindo aos cabo-verdianos “mais um mandato para consolidar os ganhos conseguidos até agora”.

O Chefe do Governo destacou indicadores económicos positivos, redução do desemprego, investimentos públicos nos sectores da saúde, educação e habitação, além da recuperação do turismo após os efeitos da pandemia e das crises internacionais.

O discurso do MpD assentou fortemente na ideia de estabilidade e continuidade. Ulisses Correia e Silva insistiu que Cabo Verde entra “na próxima década sobre uma base sólida”, sustentada em instituições credíveis, estabilidade política e uma economia em recuperação consistente. O líder democrata afirmou que o país não precisa de “aventuras políticas”, mas sim de continuidade governativa para consolidar reformas e investimentos iniciados nos últimos anos.

Um dos momentos centrais da primeira semana de campanha foi precisamente a apresentação da plataforma eleitoral do MpD para a legislatura 2026-2031. O documento define como prioridades o aumento do rendimento das famílias, a criação de emprego, o reforço da segurança, melhorias no sistema de saúde e a modernização da educação.

Apostas económicas e sociais do partido no poder

Na área económica e social, o MpD compromete-se a promover um aumento progressivo do salário médio “em cerca de 30% ao longo da legislatura” e a actualizar o salário mínimo nacional para 25 mil escudos. O partido promete igualmente medidas fiscais destinadas a aliviar a pressão financeira sobre as famílias e reforçar o poder de compra da classe média.

O programa eleitoral aposta também na criação de “emprego de qualidade”, com especial incidência sobre os jovens. Entre as medidas anunciadas estão programas de inserção profissional, reforço dos estágios profissionais, apoio ao empreendedorismo e maior financiamento às pequenas e médias empresas.

O partido pretende igualmente reforçar os mecanismos de qualificação profissional e aproximar a formação das necessidades reais do mercado de trabalho.

Na saúde, o MpD promete reforçar o sistema nacional em todas as ilhas com mais profissionais, melhores serviços e redução das evacuações médicas. Na educação, o partido assume o compromisso de universalizar o ensino pré-escolar e melhorar a qualidade do ensino técnico, profissional e superior.

A segurança interna surge igualmente como uma das prioridades centrais da proposta eleitoral apresentada pelo partido no poder.

PAICV aposta no discurso da mudança

Do lado do PAICV, o discurso centrou-se na necessidade de mudança política. Liderado por Francisco Carvalho, o partido defendeu uma governação “sem desculpas”, prometendo maior atenção ao custo de vida, aos salários, ao emprego jovem e às dificuldades enfrentadas pelas famílias cabo-verdianas.

O PAICV procurou apresentar-se como alternativa capaz de responder ao aumento dos preços e às desigualdades sociais.

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A campanha do principal partido da oposição decorreu sob o pano de fundo da polémica relacionada com a suspensão de funções de Francisco Carvalho como presidente da Câmara Municipal da Praia. A decisão de suspender funções sem renunciar formalmente ao cargo gerou debates políticos e jurídicos durante a pré-campanha, alimentando críticas e discussões sobre a compatibilidade entre o exercício de funções autárquicas e a liderança partidária em período eleitoral.

UCID procura afirmar-se como terceira via

Enquanto MpD e PAICV disputavam o centro do debate político nacional, a UCID intensificou acções de proximidade, defendendo-se como “alternativa equilibrada” ao sistema bipartidário.

O partido apelou ao chamado “voto inteligente” e procurou capitalizar o descontentamento de sectores da população em várias ilhas.

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Em São Vicente, a UCID realizou várias acções políticas, incluindo uma visita à localidade de São Pedro, onde o líder do partido, João Santos Luís, acusou o Governo e a Câmara Municipal de abandono da comunidade.

O dirigente defendeu a necessidade de uma mudança política que permita “mais equilíbrio” na governação nacional.

PP e PTS procuram afirmar-se

O PP iniciou a campanha eleitoral para as legislativas de 2026, a 30 de Abril, com uma mensagem centrada na justiça social, no combate ao custo de vida e na redução das desigualdades. Em Santiago Sul, o partido procurou apresentar-se como uma alternativa aos partidos tradicionais, defendendo medidas de apoio às famílias e maior igualdade de oportunidades. Os dirigentes do PP reconheceram limitações em termos de recursos e mobilização, mas insistiram numa campanha de proximidade junto das comunidades e dos eleitores.

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Já o PTS entrou na campanha apostando na reorganização interna e na tentativa de regressar ao centro do debate político nacional. Liderado por Jónica Brito Tavares, em Santiago Sul o partido apresentou candidaturas em seis círculos eleitorais, tanto em Cabo Verde como na diáspora, defendendo uma agenda focada no emprego, trabalho digno e solidariedade social. O PTS procurou também reforçar a sua visibilidade pública através de acções de contacto directo com eleitores, destacando-se como um partido voltado para os problemas laborais e para os jovens.

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CNE alerta partidos para propaganda eleitoral

Ao longo da primeira semana de campanha aumentaram também as denúncias relativas à propaganda eleitoral. Diversas candidaturas apresentaram reclamações à Comissão Nacional de Eleições, acusando adversários de ocuparem espaços de propaganda gráfica que não lhes tinham sido atribuídos.

Perante a situação, a CNE emitiu, a 5 de Maio, um alerta formal dirigido a todas as candidaturas, exigindo o cumprimento rigoroso das regras relativas à distribuição de espaços e afixação de propaganda eleitoral.

A Comissão recordou que, nos termos do Código Eleitoral, os espaços para propaganda gráfica são atribuídos por sorteio entre as candidaturas e que a utilização indevida constitui contra-ordenação eleitoral.

Segundo a deliberação da CNE, os partidos devem ocupar exclusivamente os espaços que lhes foram atribuídos e proceder à verificação permanente da correcta afixação da propaganda. Caso seja identificada propaganda colocada em locais indevidos, a candidatura responsável deve removê-la num prazo máximo de 24 horas.

A Comissão advertiu ainda que, se a remoção não ocorrer dentro do prazo estipulado, os delegados competentes poderão retirar o material de propaganda, sendo os custos imputados à candidatura infractora. O organismo alertou igualmente para a possibilidade de aplicação de sanções previstas na lei eleitoral.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1275 de 06 de Maio de 2026.

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Autoria:André Amaral,10 mai 2026 8:24

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  10 mai 2026 9:19

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