Futebol em Agosto? Possibilidade não reúne consenso

PorNuno Andrade Ferreira,17 jun 2020 7:31

Federação acha que sim, associações dividem-se, autoridades sanitárias não querem aumentar risco de contágio e tutela alerta que “com a saúde não se brinca”

O futebol mundial parou devido à pandemia de covid-19. Em Cabo Verde, as competições desportivas foram suspensas, incluindo as provas da modalidade mais popular no país. Agora, a Federação Cabo-verdiana de Futebol (FCF) revela a vontade de retoma competitiva dentro de dois meses. A ideia não é consensual.

A 8 de Maio, o governo anunciou o cancelamento da época desportiva, suspensa desde Março. A decisão foi tomada na sequência de um encontro entre o ministro do Desporto, Fernando Elísio Freire, e representantes das federações. Na altura, o governante assumiu a responsabilidade da decisão, justificando-a com a necessidade de jogar pelo seguro.

A excepção foi a Federação de Xadrez, que conseguiu continuar o calendário, passando para um formato online.

Chegados a Junho, o desporto de alta competição começa, também ele, a desconfinar. Por cá, o futebol foi o primeiro a dar sinais de ambicionar regressar aos relvados. No início do mês, o presidente da FCF apontou para uma eventual retoma dos jogos em Agosto.

A intenção está sinalizada, mas a posição não é definitiva, até porque depende da conjugação de uma série de vontades. Mário Semedo deixa todas as possibilidades em aberto, a partir do actual calendário de desconfinamento, que prevê para 15 de Agosto (15 de Setembro em Santiago) a reabertura de campos, pavilhões e outras estruturas desportivas.

“Reconhecemos que face ao período de defeso em que as equipas estão torna-se mais exigente, se se quiser retomar, mas a Federação deixa em aberto todas as possibilidades, respeitando sempre as opiniões dos clubes e associações regionais”, diz o líder federativo.

Semedo recorda que antes de o esférico volta a girar há todo um processo a cumprir, incluindo uma inspecção sanitária aos estádios.

O optimismo do presidente da FCF encontra o primeiro obstáculo nas associações.

Mário Avelino, responsável da Associação Regional de Futebol de Santiago Sul, entende que a decisão de cancelar todas as competições, aliada ao ‘silêncio’ da Federação, desmobilizou os clubes.

“Até 1 de Junho, a Federação, pura e simplesmente, manteve-se calada. As associações, não só em Santiago Sul, mas em todo o país, ficaram a aguardar algum feedback. As associações e os clubes não têm disponibilidade temporal ou sanitária para a realização de testes, nem financeira. Portanto, é extremamente difícil”, vaticina.

Em São Vicente, as provas futebolísticas foram suspensas a 19 de Março, com a primeira divisão a duas jornadas do fim. César Lima, presidente da Associação Regional de Futebol (ARFSV), não vê condições para o regresso em Agosto.

“Não temos como retomar os campeonatos. Essa posição não é defendida apenas pelo presidente da ARFSV, é a posição dos clubes, porque tivemos a preocupação de os ouvir e a maior parte é favorável a que não haja campeonato, porque não há condições. Está em causa a saúde pública”, defende.

Posição diferente tem a associação da Brava. O presidente associativo, Samuel Varela, gostava de ver cumpridas as duas rondas que ficaram em branco, para assim se definir o campeão regional.

“Eu fui um dos presidentes que defendeu que, tendo em conta a situação sanitária da ilha, poderíamos perfeitamente terminar a época. A federação tem demonstrado abertura e disponibilizou todo o apoio necessário para que possamos prosseguir. Isto se, numa próxima reunião com os clubes, eles também entenderem que podemos prosseguir”, antecipa.

As associações já pediram uma assembleia-geral extraordinária da FCF, a acontecer depois de 30 de Junho, após a retoma das ligações aéreas inter-ilhas.

Para Leonardo Cunha, professor universitário, comentador de desporto da Rádio Morabeza e colunista do Expresso das Ilhas, o desenrolar do impasse depende sobretudo das autoridades sanitárias.

“O que existe é um calendário de desconfinamento que efectivamente determina quais é que são os timings para que se possam fazer algumas praticas desportivas e actividades menos ou mais formais. Para isso poder decorrer é necessário um diálogo alargado”, destaca.

Questionado sobre o tema, o Director do Serviço de Prevenção e Controlo de Doenças, Jorge Barreto, alerta para a necessidade de se evitarem ao máximo as aglomerações.

“Mesmo que sejam só as equipas, para tentar minimizar o risco de contágio. Penso que é melhor esperar. Se calhar, lá para Setembro, Outubro”, deixa em aberto.

Esta segunda-feira, o ministro do Desporto, Fernando Elísio Freire, comentou o tema. Na sua página no Facebook, o governante referiu que “as Federações desportivas nacionais que quiserem prolongar a época desportiva [para lá de 15 de Setembro] devem acatar com todas as responsabilidades e cumprir à risca o plano sanitário aprovado pelas autoridades do país”.

“Com a saúde pública não se brinca”, referiu, categórico.

com Lourdes Fortes e Fretson Rocha

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,17 jun 2020 7:31

Editado porSara Almeida  em  4 jul 2020 10:19

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