Cabo Verde deixa o Mundial como uma das histórias que o torneio não esquecerá

PorAndré Amaral,12 jul 2026 7:55

Durante anos, o Campeonato do Mundo foi um horizonte longínquo para o futebol nacional. A selecção aproximava-se, revelava jogadores capazes de competir nas principais ligas europeias e afirmava-se entre as equipas mais incómodas de África, mas a última barreira permanecia intransponível.

Tudo mudou a 13 de Outubro de 2025.

No Estádio Nacional, Cabo Verde entrou em campo frente ao Eswatini sabendo que estava a uma vitória de alcançar um objectivo perseguido desde a criação da selecção nacional: a primeira qualificação para um Campeonato do Mundo. Não havia margem para falhar. Havia apenas 90 minutos para transformar décadas de ambição em realidade.

A resposta foi a de uma equipa que percebeu a dimensão do momento. Os Tubarões Azuis venceram por 3-0, sem deixar espaço para dúvidas, e escreveram a página mais importante da história do futebol cabo-verdiano. Quando o árbitro apitou para o final, os jogadores abraçaram-se no relvado, as bancadas explodiram de alegria e a festa rapidamente se estendeu às ruas da Praia, às restantes ilhas e às comunidades cabo-verdianas espalhadas pelo mundo. Pela primeira vez, Cabo Verde estava qualificado para um Campeonato do Mundo.

A euforia desse dia marcou o fim de uma longa espera. Mas, olhando para trás, foi apenas o primeiro capítulo de uma história que poucos meses depois surpreenderia o próprio mundo do futebol.

Cabo Verde seria uma das 48 selecções presentes no torneio de 2026.

Um grupo que parecia uma montanha

O sorteio colocou Cabo Verde no Grupo H, ao lado de três selecções com histórias muito diferentes: Espanha, uma potência mundial e campeã europeia; Uruguai, duas vezes campeão do mundo e uma das grandes referências históricas da América do Sul; e Arábia Saudita, uma equipa que já tinha mostrado no Mundial de 2022 que era capaz de surpreender qualquer adversário.

Para muitos observadores, Cabo Verde chegava como a equipa destinada a lutar apenas pela experiência.

A selecção, porém, tinha outra ideia.

Contra a Espanha, o respeito conquistado

O primeiro jogo de Cabo Verde num Mundial, a 15 de Junho, foi também uma declaração de intenções.

Diante da Espanha, uma das selecções mais técnicas do planeta, os Tubarões Azuis entraram em campo sem o peso da estreia. Não jogaram como uma equipa feliz apenas por estar presente. Jogaram como uma equipa que acreditava poder competir.

O empate sem golos foi mais do que um resultado. Foi um aviso.

A Espanha teve mais posse de bola, mas encontrou pela frente uma equipa organizada, disciplinada e capaz de sofrer sem perder a identidade.

No centro dessa resistência esteve Vozinha. O guarda-redes e capitão da selecção nacional tornou-se uma das figuras do encontro, confirmando uma das características que marcariam toda a campanha: Cabo Verde podia não ter os recursos dos adversários, mas tinha personalidade e o mundo começou a prestar atenção.

A confirmação diante do Uruguai

O segundo jogo trouxe outro teste de dimensão mundial.

O Uruguai carregava uma história centenária. Cabo Verde carregava uma história que estava apenas a começar.

Mas dentro do campo, no dia 21 de Junho, a diferença desapareceu.

Os Tubarões Azuis voltaram a competir de igual para igual e encontraram um momento que ficaria gravado na memória do país: o primeiro golo de Cabo Verde num Campeonato do Mundo, marcado por Kevin Pina. O golo foi um daqueles momentos que ultrapassam o futebol. Cabo Verde não estava apenas a participar. Estava a escrever a sua história. O jogo terminava empatado a dois golos.

A noite da maturidade frente à Arábia Saudita

O último jogo da fase de grupos, disputado a 27 de Junho, trouxe uma realidade nova para a selecção.

Depois de resistir à Espanha e competir contra o Uruguai, Cabo Verde chegava ao duelo com a Arábia Saudita sabendo que um resultado positivo poderia garantir a passagem à fase seguinte.

Era o tipo de jogo em que a ansiedade costuma vencer as equipas pequenas. Mas Cabo Verde jogou como uma equipa grande.

O empate a zero garantiu a qualificação para a fase a eliminar. Novamente uma estreia, Cabo Verde apurava-se para uma fase a eliminar na primeira vez que se qualificava para o Campeonato do Mundo.

Três jogos. Nenhuma derrota.

A equipa que muitos esperavam ver apenas como participante tinha terminado a fase de grupos invicta e transformado a sua estreia numa das histórias do torneio.

A Argentina e o último capítulo

O prémio por essa campanha foi um encontro com a Argentina.

Não uma Argentina qualquer, mas a campeã mundial. A equipa construída em torno da herança de Lionel Messi e habituada a viver estes momentos.

Era o confronto perfeito para uma narrativa de Mundial: o pequeno arquipélago contra uma das maiores potências da história do futebol.

Mas Cabo Verde não mudou. Não se escondeu. Não tentou apenas sobreviver.

Contra a Argentina, voltou a mostrar a mesma coragem que tinha levado a equipa até ali.

A campeã mundial marcou, Cabo Verde empatou. A Argentina voltou a adiantar-se no marcador apenas para ver Sidny Lopes Cabral marcar aquele que é já considerado o melhor golo dos 16 avos-de-final da competição. A Argentina teve de trabalhar, sofrer e esperar até ao prolongamento para conseguir eliminar os Tubarões Azuis. O resultado final, 3-2, encerrou a aventura cabo-verdiana, mas não diminuiu a dimensão do feito.

Porque a história de Cabo Verde no Mundial de 2026 não foi apenas sobre até onde chegou.

Foi sobre como chegou.

Uma selecção que começou o caminho para o Campeonato do Mundo numa fase de grupos onde Camarões eram vistos como favoritos e Angola como uma das equipas mais complicadas (e que até já tinha experiência mundialista) e acabou a enfrentar a Argentina num estádio mundial, diante dos olhos de milhões.

Cabo Verde pode ter perdido aquele jogo contra a Argentina, mas ganhou o mundo.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1284 de 08 de Julho de 2026.

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Autoria:André Amaral,12 jul 2026 7:55

Editado pormaria Fortes  em  12 jul 2026 10:19

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