Falência da Thomas Cook: Impacto ainda por definir em Cabo Verde

PorAndre Amaral,29 set 2019 9:30

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Declaração de falência da Thomas Cook, uma das maiores operadoras turísticas a nível mundial, coloca, como reconheceu o ministro das Finanças, Olavo Correia, “um desafio” a Cabo Verde pela necessidade de “diversificar os operadores, as fontes de turismo, as ofertas, por forma que possamos ter uma economia mais pujante, não só ao nível do turismo, mas em outros sectores de actividade económica”.

Ao Expresso das Ilhas, Victor Fidalgo, economista e consultor na área do turismo, disse que a empresa tinha “cerca de 5% do fluxo turístico nacional”. Um valor considerado baixo, mas que, tendo em conta os números do Instituto Nacional de Estatística que dizem que só em 2018 entraram nos estabelecimentos hoteleiros 765 mil hóspedes, assume outra dimensão.

Analisando a saída de cena da Thomas Cook, Victor Fidalgo recorda que “muitos se queixavam e se queixam do carácter monopolístico da distribuição em Cabo Verde e viam com bons olhos o possível crescimento da Thomas Cook e eventual entrada de outros distribuidores e tour-operadores de médio porte”. 

“O problema não é a entrega do turismo nacional a grandes grupos”, assegura o consultor, “mas sim a existência de um único operador com mais de 70% do mercado. Esta concentração excessiva reduz a capacidade negocial dos hoteleiros e consequentemente tem um impacto económico negativo para o nosso turismo e também nas receitas do Estado. Não havendo concorrência, não haverá esforço para a qualidade que poderia gerar melhores preços. Assim, corremos o risco de ser ad-eternum um destino barato para as grandes massas”. 

Para contrariar esse destino, Victor Fidalgo defende que são precisas políticas “diferentes na monitorização da promoção de Cabo Verde como destino de investimentos, do ordenamento do território (menor limite da carga por hectare), de maiores exigências não só nos parâmetros construtivos, mas particularmente nos detalhes do produto final, a fim de podermos ter outra qualidade, capaz de atrair operadores de outros nichos do mercado de distribuição”. 

Pequenos mas não muito

Apesar de a cota de mercado poder ser considerada pequena, a Thomas Cook, segundo Victor Fidalgo teria “para o próximo Inverno, que começa em Novembro, contractos com hotéis em Cabo Verde, à volta de 35.000 - 40.000 turistas”.

“Devemos tomar este alerta muito a sério, para trabalharmos afincadamente na desconcentração da distribuição, de modo a que nenhum operador tenha mais de 40% do mercado: desafio gigantesco e que quanto a mim é o maior que se impõe ao turismo em Cabo Verde”, conclui. 

Para Carlos Jorge Santos, administrador do Grupo Oásis Atlântico, é inegável que o desaparecimento de um operador como a Thomas Cook tem impacto no sector do turismo.

“Tem impacto, não vou desmontar números, mas tem impacto. Sendo um dos principais clientes do grupo tem impacto. Ainda não sabemos o verdadeiro impacto desta falência. A Thomas Cook é um conglomerado de empresas distribuídas por diversos países”.

“Neste momento o que pretendemos saber é se esta falência abrange todo o grupo à escala planetária ou se se cinge somente à Thomas Cook UK, o que é uma diferença enorme tendo em conta o que é hoje a operação da Grã-Bretanha comparativamente aos outros países. Mas terá sempre o seu impacto, não só no grupo Oásis como também nos outros grupos pequenos e grandes”. 

Voltando aos números do INE, vê-se que o Reino Unido é, há vários anos, o principal emissor de turistas para Cabo Verde. É por isso natural que o maior prejuízo venha daquele país? “Sim, mas com alguma relatividade”, responde o administrador do Grupo Oásis Atlântico. “Hoje a Thomas Cook Nordic, a Thomas Cook AEG que representa a parte do BENELUX e Alemanha já vão tendo algum peso nos números globais da Thomas Cook”, explica.

Porque faliu a Thomas Cook?

Com eco na comunicação social em todo o mundo, a falência da Thomas Cook foi analisado ao pormenor. 

Para vários analistas, “o Brexit, a redução de custos pelos turistas britânicos, e as várias plataformas online, parecem ter empurrado a empresa para a falência. A empresa que sobreviveu a duas guerras mundiais, parece não ter as mesmas condições que outrora a transformaram numa empresa “forte” para aguentar a mais recente crise do Reino Unido, e o desenvolvimento dos serviços online”. 

A divida de 1.700 milhões de euros da empresa britânica revelou-se fatal para a continuação da empresa. Com 150 mil turistas britânicos e 350 mil de outras nacionalidades retidos nos seus destinos turísticos, os custos de “repatriação” podem ascender aos 100 milhões de euros.

No Reino Unido há quem questione se o governo britânico deveria ter tentado “resgatar” a empresa, que conta com mais de 22 mil colaboradores, que neste momento têm o seu futuro incerto, com a assombração do Brexit no horizonte.

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Autoria:Andre Amaral,29 set 2019 9:30

Editado pormaria Fortes  em  8 dez 2019 23:21

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