Peter Thomson : “Se continuarmos neste caminho, deixaremos um planeta com muito pouca qualidade”

PorNuno Andrade Ferreira,15 dez 2019 9:47

Enviado Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas para o Oceano, Peter Thomson passou pelo Mindelo a propósito da Cabo Verde Ocean Week. Em entrevista exclusiva ao Expresso das Ilhas, o diplomata defende a necessidade de acção imediata para a garantir que as próximas gerações poderão continuar a habitar este planeta. Porque a urgência climática nos convoca a todos para uma mudança de atitude, pede que os políticos pensem além dos ciclos eleitorais e recorda que “somos eleitores, mas também somos consumidores”.

Quais são os maiores riscos para os oceanos?

Existe apenas um oceano. Muitas pessoas falam de oceanos, no plural, mas existe apenas um Oceano. Isto é importante porque, para percebermos o que se passa, quais as ameaças ao Oceano, temos que entender que existe apenas uma única grande ‘banheira’. O que acontece em Cabo Verde afecta o meu país, as Fiji. Ouvi o discurso do vosso presidente de câmara, Augusto Neves. Foi um óptimo discurso. Gostei da forma como ele falou sobre ‘o’ Oceano. Muitas pessoas dizem ‘o nosso Oceano’, como se a humanidade controlasse o Oceano, mas no seu discurso o presidente da câmara falou de ‘o Oceano’, que é superior a nós, é a nossa mãe, é de onde a vida provém. Quando ouvimos os seres humanos dizer ‘o nosso Oceano’, para mim, isso é arrogante, porque assume que a humanidade estará aqui quando o Oceano já não estiver, o que é errado. O Oceano estará, mas a humanidade não, especialmente pela forma como estamos a evoluir. Existem, basicamente, cinco ameaças ao oceano. A primeira é a poluição, não só o plástico, mas também os químicos da agricultura industrial. A segunda é a pesca, nomeadamente a pesca excessiva. As outras três levam-nos para a acidificação, menos oxigénio e aumento da temperatura do oceano, com uma mesma causa: a emissão de gases com efeito de estufa. 

Podemos resolve-las? 

As primeiras duas podem ser resolvidas. As outras três são muito mais complicadas e perdurarão por centenas de anos. É absolutamente imperativo, para a sobrevivência da humanidade, diminuir agora a emissão de gases com efeito de estufa e atingir a neutralidade carbónica em 2050. Se o fizermos, continuaremos a existir neste planeta durante os próximos milénios. Mas temos que resolver isto agora. 

Estamos conscientes dos riscos? 

Eu faço isto há algum tempo. Era presidente da Assembleia Geral da ONU quando, em 2017, organizámos a primeira Conferência Mundial do Oceano - a segunda será em Lisboa, dentro de seis meses. A primeira conferência foi quando as pessoas acordaram. Antes disso, estávamos a tentar alertar para o problema. A partir de 2017, quem não o percebeu, ou estava a dormir ou a combater o que estávamos a dizer. Penso que toda a gente está consciente de que temos este grande problema, que exige acção no ambiente e no Oceano, em particular, já que as duas não podem ser separadas.

Estamos num ponto de não retorno? 

Nunca estamos num ponto de não retorno em termos do planeta e do oceano. É uma questão da qualidade que teremos. Se continuarmos neste caminho, deixaremos aos nossos netos e bisnetos um planeta com muito pouca qualidade. Se continuarmos neste caminho, teremos um aumento de três graus na temperatura do planeta, até ao final deste século. Isso é muito sério. O Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas disse que, depois de a temperatura subir acima dos dois graus, não haverá mais corais. O que é o oceano sem os seus corais, que representam 30% da sua biodiversidade? Ainda não sabemos, mas não pode ser bom. Não podemos ter um ecossistema global saudável se não tivermos um ecossistema oceânico saudável. É por isso que é tão importante controlar o aquecimento global. 

Há muita retórica. Parece-lhe que estamos a passar das palavras aos actos? 

Olho à volta e vejo que vocês têm aerogeradores. Eles não estariam ali se não fosse pela consciencialização. Agora, está a acontecer à velocidade necessária? Nem pensar. Continua a ser nos países mais industrializados que temos os maiores problemas. O último relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP) diz que precisamos de ser cinco vezes mais rápidos. Temos que acelerar. 

Como é que convocamos as grandes economias, como Estados Unidos e China, para esta luta? 

Mais uma vez, o relatório da UNEP diz que as grandes economias têm de fazer mais. Não quero apontar quem são os vencedores e os perdedores. Mencionou os EUA, onde está a caminho uma grande disputa eleitoral. No final, isto é sobre as pessoas forçarem os governos a agir. Temos que esperar que os nossos governos respondam à emergência climática de uma forma que nos permita dar segurança aos nossos netos. Uma vez perguntaram a Bismarck qual a diferença entre um político e um estadista. Bismarck respondeu que um estadista é um político que pensa nos seus netos. Precisamos de políticos que deixem de pensar em pequenos ciclos políticos e pensem nos nossos netos, porque eles é que vão estar aqui em 2100. 

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O que pode Cabo Verde fazer perante este desafio global? 

Os pequenos estados insulares, como Cabo Verde ou as Fiji, têm estado na liderança. Porquê? Porque estamos na primeira fila, podemos ver o que está a acontecer. O meu país, tal como Cabo Verde, tem montanhas, temos sorte. Existem muitos países que são planos e que deixarão de existir se continuarmos com o aquecimento global e o aumento do nível médio do mar. É preciso fazer a coisa certa. Olhe à nossa volta, todos estes carros com motores de combustão. Especialmente porque somos países pequenos, devíamos poder andar em veículos eléctricos, andar muito mais a pé, muito mais em transportes públicos. Pessoalmente, eu deixei de ter carro há vinte anos. A carne vermelha é outro exemplo. A minha mulher e eu lemos um relatório sobre o impacto ambiental da produção de carne vermelha e foi inaceitável quando, depois, olhámos para a fotografia dos nossos netos. De quem gostamos mais? Da carne vermelha ou dos nossos netos? E desistimos da carne vermelha. As pessoas podem mudar. Somos eleitores, mas também somos consumidores. 

Não é apenas o oceano, é o nosso estilo de vida. Temos de mudar.

Tudo está interligado. Tal como referi, veja-se o facto de os gases com efeito de estufa serem o maior inimigo do Oceano. O que causa os gases com efeito de estufa é o nosso comportamento. O próximo ano será muito importante. Teremos a Conferência Mundial do Oceano, em Junho, em Lisboa, onde queremos começar a trabalhar na área da ciência e inovação, mas também no financiamento da economia azul. Depois disso, estaremos na China, em Outubro, para a Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade. Finalmente, e provavelmente a mais importante, será a COP 26, em Novembro. Segundo o Acordo de Paris, esse será o encontro no qual os países deverão mostrar uma muito maior determinação na acção climática. 

Está optimista? 

Não sou nem um optimista, nem um pessimista. Sou pragmático. Tenho esperança? Sem dúvida.

O Sr. Oceano

Peter Thomson nasceu em Suva, nas ilhas Fiji, em 1948. Diplomata de profissão, foi Presidente da Assembleia Geral da ONU, de 2016 a 2017. Antes, havia sido durante sete anos o representante permanente do seu país junto à organização.  Como Enviado Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas para o Oceano, Thomson lidera os esforços de advocacia pela conservação do oceano, em linha com o Objectivo de Desenvolvimento Sustentável 14, que defende o uso equilibrado dos recursos marinhos e que prevê, entre outras metas, a redução significativa da poluição marinha de todos os tipos, até 2025.  


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 941 de 11 de Dezembro de 2019. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,15 dez 2019 9:47

Editado porDulcina Mendes  em  3 jul 2020 23:21

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