Turismo: África perdeu 120 mil milhões de dólares em 2020

PorAndre Amaral,24 out 2020 9:06

Estudo elaborado pelo Instituto Tony Blair aponta que só em 2020 o continente africano poderá ter perdido 120 mil milhões de dólares de receitas por causa das restrições impostas aos sectores turístico e da aviação. Em Cabo Verde um operador defende que a retoma do turismo só acontecerá com a aposta nas companhias low-cost.

O estudo elaborado pelo Tony Blair Institute for Global Change aponta que “apesar do número reduzido de casos, as hospitalizações e as taxas de mortalidade – e apesar da adopção de protocolos de viagem rigorosos – as viagens de África para o resto do mundo continuam a ser muito restritas”.

Desta forma e “para evitar uma catástrofe económica” o instituto liderado pelo antigo primeiro-ministro inglês defende que a União Europeia, o Reino Unido e os diferentes governos africanos “devem trabalhar em conjunto para remover restrições injustificadas e assegurar ligações de viagem seguras entre a Europa e a África”.

Actualmente, sete meses após o encerramento das viagens aéreas globais, não existe praticamente nenhum corredor de viagem seguro entre os dois continentes. “Apenas a Tunísia e o Ruanda estão na lista de viagens seguras da UE, e as Ilhas Maurícias e Seicheles na do Reino Unido”. “Entretanto, as restrições de viagem relacionadas com a medicina – e em particular as quarentenas de 14 dias, que constituem um importante estrangulamento para viajar – estão a aumentar” reforça o estudo.

Estas restrições estão a ter um sério impacto nos sectores da aviação e das viagens e turismo em África, que, destaca o documento a que o Expresso das Ilhas teve acesso, “só por si perdem o equivalente a 120 mil milhões de dólares em receitas em 2020, de acordo com as previsões do Conselho Mundial de Viagens e Turismo, o equivalente a 5% do PIB africano em receitas”.

Assim, tendo em conta que as economias das nações africanas “são particularmente dependentes das viagens intercontinentais – seja para turismo, investimento, ajuda, finanças ou mesmo educação e intercâmbio de conhecimentos – o risco “de minar significativamente a capacidade do continente de recuperar o progresso de desenvolvimento que se perdeu este ano”. “E com a perspectiva de que as restrições de viagem continuem até 2021, isto não augura nada de bom para o próximo ano”.

É assim que a União Europeia e o Reino Unido assumem um papel essencial para a retoma das economias africanas uma vez que os dados mostram que “mais de 40% do tráfego de passageiros que sai dos aeroportos africanos tem como destino a Europa - ainda mais do que os 27% que partem para outras cidades africanas” e quase dois terços das mercadorias de comércio electrónico exportadas de África vão para a Europa, “e os europeus são mais de metade de todos os turistas internacionais que entram nos países africanos”.

Mas não é só o turismo que está a ser afectado pelas restrições à navegação aérea impostas pela pandemia de cOVID-19. O estudo aponta igualmente que “enquanto os volumes de carga aérea entre África e Ásia aumentaram 5,4% em Julho deste ano em comparação com Julho de 2019, a carga aérea África-Europa continua a diminuir em 31%”.

A UE e o Reino Unido, desde o início da pandemia, têm fornecido milhares de milhões de dólares em apoio a África, “quer através de apoio orçamental à sua resposta ao Covid-19 – directamente ou através de agências multilaterais – ou através da suspensão da dívida, onde se fala da necessidade de prolongar a Iniciativa de Suspensão do Serviço da Dívida até 2021, enquanto países como a Zâmbia e Angola se encontram à beira do incumprimento”, aponta o estudo que defende que “o apoio da comunidade global – e da Europa em particular – ao reinício total das viagens aéreas com nações africanas poderia ser tão importante como outros apoios prestados. Os governos africanos sabem que, independentemente da forma como o Covid-19 se desenvolve nos seus países, até que se reconciliem plenamente com a economia global, os danos económicos e sociais desta pandemia continuarão a agravar-se”.

Assim, o Tony Blair Institute for Global Change defende neste documento que “para fazer face a esta situação será necessária uma acção rápida e coordenada por parte dos governos africanos, da União Africana, da UE e do Reino Unido para implementar um quadro de viagens intercontinentais adequado à nova normalidade das viagens, concentrando-se inicialmente em três áreas-chave”.

Massificação de testes

“Primeiro, precisamos de reconstruir a confiança, assegurando que não haja transmissão intercontinental em qualquer direcção. Isto significa alargar os testes fiáveis a todos os passageiros antes e durante as viagens, sistemas de rastreio de contactos em linha, testes a nível nacional e registos de vacinas, uma estrutura digital para verificar os testes e os estados de vacinação ao longo das rotas de viagem, e apoio ao CDC africano para criar paridade do sistema de viagens aéreas em toda a África e em sincronia com as nações europeias e outras nações-chave”, começa por apontar, como possível solução, o estudo.

O segundo passo passa pela necessidade de “garantir a segurança das viagens, o que requer o desenvolvimento e normalização de protocolos intercontinentais e medidas de segurança como o uso de máscaras e escudos faciais, normas sanitárias dos aeroportos, medidas e protocolos de rastreio para o tratamento de casos suspeitos, formação da tripulação e do pessoal, e distanciamento social das viagens”.

“Os governos precisam de ser apoiados para assegurar que estas normas sejam aplicadas de forma consistente” defende o instituto liderado pelo antigo primeiro-ministro inglês.

Outra solução é a implementação de “políticas de habilitação correctas, tais como retomar a emissão de vistos de viagem de curto prazo quando os países cumprem os protocolos de segurança, fornecer apoio financeiro adequado aos aeroportos e ao sector de viagens para cobrir custos adicionais, comunicar claramente a política de viagens, e acelerar a emissão de vistos, vacinas e testes para o pessoal e a tripulação”.

O estudo defende igualmente que as “restrições de mobilidade injustificadas” sejam minimizadas com particular destaque para “as quarentenas de 14 dias”. “Quando os países africanos e outros países cumprem os critérios da lista de viagens seguras, devem ser acrescentados a essa lista, permitindo viagens sem quarentena nos casos em que as pessoas testam negativo antes da viagem ou nos aeroportos”. O Gana e o Quénia, por exemplo, destaca ainda o estudo, “têm protocolos de viagem abrangentes. O Gana está também a fornecer resultados de testes PCR aos viajantes no prazo de 30 minutos. Para os viajantes destes países, a quarentena deve ser restrita a testes positivos em aeroportos europeus e africanos”.

Retoma com low-cost

Em Cabo Verde a retoma pode passar pela aposta nas empresas de aviação low-cost, defende um operador turístico estabelecido em Cabo Verde desde a década de 90.

A crise provocada pela covid-19 obrigou o operador Barracuda Tours, gerido por portugueses e com início de operações em Cabo Verde nos anos 1990, a encerrar delegações e reduzir trabalhadores, mas espera a retoma turística com voos ‘low cost’.

A empresa de excursões Barracuda Tours começou a operar no arquipélago há cerca de 30 anos, com a primeira operação ‘charter’ oriunda do mercado português, por iniciativa do operador Abreu, também pioneiro na programação de viagens turísticas para Cabo Verde nos mercados de Portugal e Espanha.

Em declarações à agência Lusa, Ernesto Simões Carneiro, fundador e gerente da empresa, lembrou que na altura havia apenas dois hotéis na ilha do Sal com características para receber turistas: Morabeza e Belorizonte.

Mas tarde, recordou, apareceram outras unidades hoteleiras, que dinamizaram o mercado turístico na ilha, que se tornou no principal destino dos turistas - 819 mil em 2019 - que chegam ao arquipélago.

Mas com a crise provocada pela epidemia da covid-19, o empresário constatou que a indústria turística de Cabo Verde, seguindo o que acontece em todo o mundo, ficou “praticamente reduzida a zero”.

“E as perspectivas de recuperação não são muito animadoras, até face ao descontrolo actual da pandemia nos mercados tradicionalmente emissores de turistas para Cabo Verde”, afirmou o representante da Barracuda Tours.

A pandemia afectou todos e a empresa foi obrigada e encerrar a sua sucursal em Portugal, bem como delegações nas ilhas cabo-verdianas da Boa Vista, Santiago, São Vicente e Santo Antão, reduzindo o seu pessoal, que era 90% cabo-verdiano, a um número mínimo de colaboradores.

Segundo Ernesto Carneiro, foram negociados acordos de rescisão, facultando aos trabalhadores despedidos a posse de material, móveis e utensílios, informática e viaturas das delegações, para poderem criar empresas em nome individual através da qual farão a gestão de operações futuras garantindo a sua sobrevivência económica.

E garantiu que a empresa continua a manter o ‘lay-off’, de acordo com as decisões governamentais, para os poucos trabalhadores com quem manteve o vínculo laboral.

Desde 12 de Outubro que Cabo Verde reabriu o arquipélago a voos internacionais comerciais, algo que não acontecia desde 18 de Março, na sequência da decisão tomada pelo Governo para travar a pandemia de covid-19.

Para o gerente da Barracuda Tours, a abertura do tráfego aéreo com destino e a partir do arquipélago é “uma boa notícia”, mas entendeu que o maior obstáculo à reactivação de fluxos turísticos para Cabo Verde são as poucas ligações aéreas.

Ernesto Carneiro lembrou que a TAP tinha 17 voos semanais para Cabo Verde a partir de Lisboa e a Cabo Verde Airlines (CVA) tinha também voos a partir de Lisboa e do Sal para vários outros pontos da Europa, Brasil, Estados Unidos e África.

“Tudo isso está parado, a TAP apenas com alguns voos para Santiago e São Vicente mas que não serão suficientes para ocupar as milhares e milhares de camas no Sal e Boa Vista e outras ilhas”, sustentou o gerente.

Quanto à parceria da Cabo Verde Airlines e da Icelandair, o gerente entendeu que “morreu”, pelo que não acredita que o gestor islandês reactive a sua programação anterior ou qualquer tipo de parceria com a companhia cabo-verdiana.

Para o mesmo responsável empresarial, a manutenção de uma companhia aérea de bandeira em Cabo Verde dificilmente poderá ser uma realidade face à dimensão dos investimentos necessários.

“Também não creio que o Estado de Cabo Verde tenha recursos financeiros para manter uma companhia nacional de bandeira quando todos os outros países se estão a tentar desfazer delas reduzindo custos operacionais, vendendo aviões, despedindo tripulações e dezenas de milhares de trabalhadores”, continuou o gestor.

Por isso, no seu entender, o Estado deve procurar alternativas rapidamente, frisando que os voos ‘low cost’ podem ser solução se alguém for negociar com elas e apresentar propostas aliciantes de garantias por parte de Cabo Verde.

“Em nosso entender, deveriam ser negociadas parcerias com companhias ‘low cost’ internacionais que, em negociação directa com o Governo de Cabo Verde, que teria de assumir riscos, garantam ligações aéreas e tarifas acessíveis para Cabo Verde a partir dos principais mercados emissores”, sugeriu a mesma fonte, nas declarações à Lusa, por escrito.

Com poucas ligações aéreas, Ernesto Carneiro disse que as perspectivas de recuperação do sector turístico de Cabo Verde apresentam-se “muito pessimistas, mesmo para 2021” e que a Barracuda Tours perspectiva “começar em breve” e “renascer das cinzas”. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 986 de 21 de Outubro de 2020. 

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Autoria:Andre Amaral,24 out 2020 9:06

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  20 jan 2021 23:21

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