Desafios e oportunidades de uma crise sem fim à vista

PorJorge Montezinho,30 out 2022 8:44

A economia actual faz lembrar, e muito, a célebre frase do filósofo e político romano Cícero: “Mala tempora currunt sed peiora parantur”– São maus os tempos que correm, mas o pior está ainda para vir.

A invasão da Ucrânia alterou o quadro geopolítico mundial. Os efeitos económicos da guerra são globais e afectam de forma mais perigosa os países mais pobres e as pessoas mais vulneráveis. Para debater estas questões, o Instituto Superior das Ciências Económicas e Empresariais (ISCEE) juntou em Cabo Verde académicos e representantes do poder político, do mundo empresarial e das instituições internacionais na primeira conferência internacional sobre “Os impactos da guerra da Rússia/Ucrânia na economia global”.

Máquinas de calcular a postos. A guerra na Ucrânia, segundo as últimas contas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), deve custar 2,8 milhões de biliões de dólares à economia global (a unidade, seguida de 18 zeros), em produção perdida até ao final do próximo ano. 

A estimativa do grupo de economias avançadas, que tem sede em Paris, mostra a magnitude do impacto económico da invasão, quando se sabe que o ataque inflamou os preços da energia, enfraqueceu os gastos das famílias e minou a confiança das empresas, principalmente na Europa. Além disso, o conflito desviou cadeias de abastecimento, causou escassez de alimentos e de outros produtos essenciais e abalou os mercados financeiros globais. 

O último relatório da OCDE prevê que a economia global cresça 3% este ano e 2,2% no próximo. Antes da guerra, as projeções eram de 4,5% em 2022 e de 3,2% em 2023. A OCDE projecta que a expansão da zona euro seja de apenas 0,3% em 2023, com uma contração de 0,7% na Alemanha, a maior economia da região. O mesmo documento também alerta que a economia europeia poderá sofrer ainda mais se os preços da energia voltarem a subir e um inverno rigoroso obrigar a racionamentos. 

Como se as notícias não fossem más o suficiente, o economista Nouriel Roubini, famoso pelas previsões negativas – que lhe valeram a alcunha de Dr. Doom (profeta da desgraça) – diz que se avizinha uma crise económica “pior do que a da década de 70”. 

Num podcast da Bloomberg, Roubini afirmou que há ainda um longo caminho a percorrer até a inflação aliviar. O economista considera que se vai assistir a mais proteccionismo e desglobalização e que os riscos geopolíticos vão fragmentar a economia global. “A recessão não vai ser ligeira nem curta. Vai ser dura e longa. E vamos ter crise financeira e de dívida”, sublinhou.  

Os desafios para o futuro 

O actual vice-reitor do Instituto Universitário de Lisboa e antigo Ministro do Estado das Finanças de Portugal entre 2020-2022, foi um dos convidados do ISCEE que veio a Cabo Verde. Para o economista, os próximos tempos apresentam quatro desafios fundamentais. 

O primeiro, como seria de esperar, é a inflação, que ainda não se sabe se veio para ficar. O problema, como expôs o economista, é que os preços continuem a aumentar, o que irá provocar a subida também dos salários. “Essa dinâmica fará com que a inflação se cristalize. E vai implicar medidas radicais de aumento de taxa de juro. Se isto acontecer teremos 2 a 3 anos com recessão económica, mais profunda na Europa e nos EUA”, explicou João Leão. 

Este cenário será mau também para Cabo Verde. “Devido à inflação importada e ao turismo em queda. Não é claro que isto vá acontecer, mas pode acontecer”, disse o antigo ministro português. O segundo desafio é a duração da guerra, que terá impacto nos preços da energia, o que criará dificuldades na indústria e pode provocar uma recessão ainda mais profunda. “Isso terá efeitos em todo o mundo, nos preços do petróleo e da alimentação”, sublinhou João Leão. O terceiro risco é a possibilidade de se entrar numa espiral de dificuldade de financiamento a que se pode juntar a fuga de capitais, como aconteceu na crise financeira de 2008. E por último, o derradeiro risco que representa o possível ressurgimento da pandemia na Europa e nos EUA. 

Como chegámos aqui

Depois da crise pandémica, a retoma económica global aconteceu de forma muito mais rápida do que era esperado. Mas, apesar desta recuperação, a pandemia deixou também um legado de divida pública (apoios) e privada (moratórias) muito elevada. 

A receita caiu (não havia impostos), a despesa subiu (apoios às empresas e às famílias) e o défice disparou. A pandemia deixou como herança uma elevada dívida pública. E foi com este quadro que entramos no novo período marcado pela guerra e pelo aumento da inflação, com a energia e os alimentos a serem os principais responsáveis por esta escalada de preços. 

“Esta inflação”, disse João Leão, “não só está a provocar um arrefecimento da economia, como obriga a um exercício difícil dos bancos centrais, que têm de fazer face à inflação subindo os juros, o que ainda agrava mais as condições económicas e pode arrastar as economias europeias e norte-americanas para a estagnação e mesmo para a recessão no próximo ano”. 

Esta subida da taxa de juro terá impacto sobre as dívidas públicas, mas como referiu o antigo ministro das finanças de Portugal, uns países vão sofrer mais do que outros. “2/3 da divida de Cabo Verde é a instituições multilaterais e a países. É uma dívida de longo prazo e com taxas de juro relativamente baixas. Por isso, a subida de juros não afecta Cabo Verde de forma tão dramática e rápida”. 

As crises assimétricas 

Antes do terramoto geopolítico com epicentro no Leste europeu, os países estavam ainda a recuperar da pandemia, alguns até já tinham ultrapassado o nível pré-pandémico. O endividamento contraído por causa da Covid estava também a baixar, mas a nova crise fez com que sejam necessários mais anos para diminuir essa dívida. 

“Por isso é preciso prudência mesmo durante a crise”, sublinhou Manuel Caldeira Cabral, Ministro da Economia do XXI Governo de Portugal, entre 2015 e 2018, e agora Presidente do Conselho Estratégico da Startup Portugal, que foi um dos oradores no colóquio organizado pelo ISCEE. A solução? “Escolher bem os instrumentos, focar nos problemas mais sérios e evitar respostas massivas, porque depois as dívidas prolongam-se no tempo”. 

As crises são assimétricas porque afectam uns países mais do que outros. Por exemplo, países que produzem petróleo podem até beneficiar da guerra, como está a acontecer com Angola, que teve um aumento das receitas. O crescimento económico do continente africano tinha sido estável e saudável antes das crises, estando mesmo acima de outras regiões do mundo, mas este desenvolvimento foi só do Produto Interno Bruto, não do PIB per capita. Ou seja, o crescimento económico não teve impacto na melhoria de vida das pessoas. 

Já a crise actual tem efeitos no emprego, no rendimento, na dívida e no défice externo. No caso de Cabo Verde, o arrefecimento das economias europeias vai reduzir a procura do turismo e vai provavelmente diminuir as remessas dos emigrantes. 

Como é que se pode contornar estes problemas? Segundo Manuel Caldeira, não há soluções fáceis. “Dar mais resiliência às economias é importante. A diversificação também ajuda a que os choques não sejam tão fortes. O digital é uma oportunidade interessante para Cabo Verde e para outros países, mas atrair o digital não é tão fácil como parece. É preciso o governo ter iniciativa, os privados estarem envolvidos e as universidades virarem a formação para essas áreas. Três factores alinhados. Em Portugal conseguimos atrair um grande volume de centros de desenvolvimento, mas esses centros vêm porque houve um trabalho de atração e de formação”.

Caldeira Cabral deixou ainda um alerta sobre a desglobalização. “Há, neste momento, uma clara sensação que temos de ter alguma autossuficiência em áreas como a energia, os alimentos, a saúde. Penso que temos de trabalhar nesse sentido, mas com o cuidado de manter a economia aberta”. 

Em resumo, “não há receitas simples, nem imediatas. Não há muito espaço fiscal para apoiar os mais afectados, porque esse espaço tem de ser preenchido pelos mais necessitados. Há algum espaço para tentar diversificar a economia, mas os resultados só surgirão em 3, 4 ou 5 anos”, resumiu o Presidente do Conselho Estratégico da Startup Portugal. 

Cabo Verde e a agenda de transformação 

Olavo Correia foi um dos oradores convidados, nesta conferência internacional organizada pelo ISCEE, que juntou duas dezenas de especialistas nacionais e internacionais. E, como explicou o ministro das finanças, há oportunidades que podem ser aproveitadas, mas também existem riscos que podem vir a ser muito perigosos. 

“Ninguém sabe quando isto vai acabar e temos de nos preparar para uma guerra longa que terá consequências a nível alimentar, com o espectro da fome a pairar sobre milhões de africanos, e uma potencial crise energética com consequências para todo o mundo”. 

O impasse, como recordou o governante, é grave. “Há o risco de fadiga. De profundas divisões face ao agravamento económico e social. Há um apoio por parte do ocidente à Ucrânia, mas as pessoas estão a sofrer por causa desse apoio. Até quando as pessoas vão aguentar?”. 

E a nível continental, Olavo Correia teme que não se saiba aproveitar as oportunidades. “Temos uma África que pode ter um papel importante em termos energéticos. Há petróleo, há gás, há renováveis, há juventude. Mas há uma restrição: as lideranças. Uma África bem governada não está à vista a curto prazo. Há uma grande oportunidade para o continente, mas infelizmente temos problemas de liderança”. 

Já Cabo Verde, sublinhou o ministro, como pequeno país arquipelágico, tem desafios emergenciais que decorrem da gestão das várias crises. O país tem que acelerar a agenda de reformas, principalmente em relação à transformação e à transição energética. “Esta é uma prioridade absoluta”. 

Por outro lado, referiu o governante, este contexto é a oportunidade para fazer a transição digital, para que o digital seja um acelerador – “quer na parte da governação digital, como também na parte dos demais sectores da economia cabo-verdiana”. 

“Quais serão as grandes tendências? Energia. Segurança. Saúde e segurança sanitária. Digital. Turismo. Os países que conseguirem acelerar as agendas sairão mais fortes desta tempestade perfeita global”, disse Olavo Correia. 

“No meio desta tempestade, temos oportunidades que devem ser aproveitadas, particularmente pelos pequenos estados insulares, como é o caso de Cabo Verde. Se esta oportunidade não for aproveitada, estaremos a desperdiçar um momento extraordinário para acelerarmos a agenda de reforma que Cabo Verde precisa”, concluiu o ministro das finanças.

Texto publicado originalmente na edição nº1091 do Expresso das Ilhas de 26 de Outubro

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Autoria:Jorge Montezinho,30 out 2022 8:44

Editado porAndre Amaral  em  4 dez 2022 19:20

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