Vem aí o terceiro ano consecutivo de desaceleração económica

PorJorge Montezinho,20 jan 2024 8:15

É um Outlook sombrio para os próximos dois anos. O final de 2024 assinala o meio do caminho de uma década que se esperava de desenvolvimento – com a pobreza extrema extinta, as principais doenças transmissíveis erradicadas e as emissões de gases com efeito de estufa reduzidas quase em metade.

Em vez disso, o que se aproxima é um marco miserável: o desempenho de crescimento global mais fraco de qualquer meia década desde 1990, com as pessoas, de uma em cada quatro economias em desenvolvimento, mais pobres do que eram antes da pandemia. Os números para Cabo Verde coincidem com os do governo.

Para Cabo Verde é esperado um crescimento económico de 4,7% para este ano, o mesmo valor para 2025, segundo a antevisão do Outlook de Janeiro do Banco Mundial, estimativas similares com as do governo, que no OE2024 prevê um crescimento da economia entre 4,7% e 5%, orçamento que tem três prioridades: a estabilidade da inflação, do rendimento das pessoas (salários, remunerações, pensões) e macroeconómica.

“Estamos numa fase de retracção do crescimento económico a nível mundial, do aumento de juros nos mercados internacionais, da inflação dos bens de primeira necessidade, mas também dos bens energéticos”, afirmou o Ministro das Finanças, Olavo Correia, em conferência de imprensa para apresentar o OE2024, no início do mês.

Para este ano, o Governo prevê ainda uma dívida pública de 110,2%, défice público de 2,9%, inflação de 2,8% e uma taxa de desemprego de 8,2%.

Em termos regionais, 19 economias subsaarianas vão crescer mais do que Cabo Verde – em 47 analisadas – com o Níger (12,8%), o Senegal (8,8%) e o Ruanda (7,5%) a serem as que vão ter os melhores resultados. Entre os PALOP, a Guiné-Bissau deverá crescer 5,6%, Moçambique 5,0%, Angola 2,8%, São Tomé e Príncipe 2,5% e Guiné Equatorial -6,1%. A Guiné Equatorial tem, inclusive, o pior desempenho, seguida do Sudão com -0,6% e da África do Sul com 1,3%.

Na África subsaariana, o problema são mesmos os gigantes económicos, que vão ter taxas de crescimento muito pequenas – entre as 10 maiores economias africanas, 7 delas estão a região subsaariana: Nigéria (PIB em 2022 foi avaliado em 477 biliões de dólares), África do Sul (406 biliões de dólares), Etiópia (127 biliões de dólares), Quénia (113 biliões de dólares), Angola (107 biliões de dólares), Tanzânia (quase 76 biliões de dólares) e Gana (cerca de 73 biliões de dólares), os outros três gigantes são o Egipto (477 biliões de dólares), a Argélia (192 biliões de dólares) e Marrocos (134 biliões de dólares).

Perspectivas para a África Subsaariana

O crescimento na África Subsaariana (ASS) desacelerou para cerca de 2,9% em 2023, 0,3 pontos percentuais abaixo do que foi projectado em Junho. O crescimento em três das maiores economias da região – Nigéria, África do Sul e Angola – abrandou para uma média de 1,8% no ano passado, travando o crescimento global da ASS. Nos outros países da região, o crescimento abrandou para 3,9%, reflectindo, em parte, um declínio acentuado no crescimento dos exportadores de metais, juntamente com os preços globais mais baixos dos metais. Além disso, conflitos intensos e prolongados dificultaram o crescimento em vários países. De um modo mais geral, as recuperações pós-pandemia abrandaram por causa do enfraquecimento da procura externa e pelo aperto da política interna para enfrentar a inflação persistente.

Na Nigéria, a maior economia da região, o crescimento abrandou para cerca de 2,9% em 2023. A produção anual de petróleo aumentou após descidas anteriores – a Nigéria tem uma economia diversificada, assente nos sectores petrolífero e do gás natural. A África do Sul – economia dominada pela indústria mineira, a agricultura e os serviços – registou um novo abrandamento do crescimento para cerca de 0,7% em 2023, atribuído ao aperto da política monetária, ao impacto da crise energética e aos estrangulamentos nos transportes. O crescimento em Angola – economia baseada no petróleo, nos diamantes e outros ricos recursos naturais, e num turismo com grande potencial mas ainda pouco explorado – enfraqueceu para cerca de 0,5%, com os campos petrolíferos em maturação a contribuir para uma menor produção, conduzindo a quebras de receitas e desencadeando cortes nas despesas públicas.

A inflação dos preços no consumidor na ASS abrandou em 2023, após aumentos acentuados nos preços globais dos alimentos e da energia em 2022, mas permaneceu alta. O custo de vida continua elevado, o que agravou as dificuldades económicas dos pobres e aumentou a insegurança alimentar em toda a região. Entre as maiores economias da região, registaram-se taxas de inflação monstruosas: 28,3% na Etiópia, 28,2% na Nigéria e 26,4% no Gana.

Espera-se que o crescimento na ASS acelere para 3,8% em 2024 e para 4,1% em 2025, à medida que as pressões inflacionistas e as condições financeiras diminuem. As projecções para o crescimento regional em 2024 e 2025 pouco mudaram em relação às previsões de Junho, mas estes agregados disfarçam uma combinação de melhorias e desvalorizações a nível nacional. Embora se antecipe que o crescimento nas maiores economias da ASS fique abaixo do resto da região, prevê-se que as economias não ricas em recursos mantenham uma taxa de crescimento acima da média regional. Excluindo as três maiores economias da ASS, espera-se que o crescimento na região acelere de 3,9% em 2023 para 5% em 2024 e se fortaleça ainda mais para 5,3% em 2025. Embora se espere que os exportadores de metais recuperem da queda de crescimento em 2023, as revisões em baixa concentram-se entre estas economias, prevendo-se que a continuação do fraco crescimento da procura por parte da China seja um entrave à actividade.

Calcula-se que o rendimento per capita na ASS, em média, cresça apenas 1,2% este ano e 1,5% em 2025. Até 2025, o PIB per capita de cerca de 30 por cento das economias da região, com uma população total de mais de 250 milhões de habitantes, não terá recuperado totalmente até ao nível pré-pandemia. Isto implica que estas economias perderam vários anos no avanço do rendimento per capita.

Os riscos na África subsaariana

As perspectivas estão sujeitas a vários riscos, que incluem um aumento da instabilidade política e da violência – como a intensificação do conflito no Médio Oriente –, perturbações no comércio e na produção global ou local, aumento da frequência e intensidade de fenómenos meteorológicos adversos, um abrandamento económico global mais acentuado do que o esperado e maior risco de inadimplência do governo, ou seja, o risco de não cumprimento das obrigações financeiras por parte dos países.

Uma escalada do conflito no Médio Oriente pode agravar também a insegurança alimentar na ASS, uma vez que um aumento sustentado do preço do petróleo induzido pelo conflito não só aumentaria os preços dos alimentos, aumentando os custos de produção e transporte, mas também poderia perturbar as cadeias de abastecimento. Embora os preços globais dos alimentos e da energia tenham recuado dos seus picos em 2022, as perturbações no comércio e na produção globais, ou locais, poderão reacender a inflação dos preços no consumidor, especialmente a inflação dos preços dos alimentos, em toda a região.

Perturbações, especialmente na mineração e na agricultura, poderão ser desencadeadas por fenómenos meteorológicos extremos ligados, em parte, às alterações climáticas. Novos aumentos dos conflitos violentos poderão empurrar o crescimento para baixo do valor de referência e resultar em crises humanitárias prolongadas em muitos dos países economicamente mais vulneráveis da ASS. Finalmente, o aumento acentuado dos custos do serviço da dívida pública, em muitas economias da ASS, desde a pandemia aumentou a necessidade de redução da dívida, especialmente em países já altamente endividados.

O resto do mundo

Em 2024, a expectativa é que o crescimento global recue para 2,4%, o que significa o terceiro ano consecutivo de desaceleração. As previsões indicam que as políticas monetárias e as condições de crédito restritivas e os baixos níveis de comércio e investimento globais terão impacto no crescimento. O recente conflito no Oriente Médio aumentou os riscos geopolíticos. O Banco Mundial sublinha que a cooperação global é fundamental para abordar o aumento da dívida, as mudanças climáticas, a fragmentação do comércio e a insegurança alimentar e os conflitos. Entre os mercados emergentes e as economias em desenvolvimento, a limitação do espaço fiscal faz com que seja necessário melhorar a eficiência dos gastos.

As projeções para este ano são de desaceleração do crescimento no Leste Asiático e Pacífico (principalmente devido ao menor desenvolvimento na China), Europa e Ásia Central e Sul da Ásia. Os factores de risco para as perspectivas de todas as regiões incluem escalada de conflitos, maior volatilidade dos preços da energia e dos alimentos, redução da procura externa, condições financeiras mais difíceis e desastres naturais relacionados com as mudanças climáticas.

Por um lado, a economia global está numa situação melhor em comparação com o ano anterior: o risco de uma recessão global diminuiu, muito devido à força da economia norte-americana. Mas as crescentes tensões geopolíticas podem criar novos riscos a curto prazo. Enquanto isso, a perspectiva de médio prazo piorou para muitas das economias em desenvolvimento por causa da desaceleração do crescimento da maioria das principais economias, de um comércio global apático e das piores condições financeiras em décadas. Entretanto, é provável que os custos dos empréstimos para as economias em desenvolvimento permaneçam exorbitantes, com as taxas de juros globais em máximas de quatro décadas.

“Se não houver uma grande correcção de rumo, a década de 2020 será conhecida como a década das oportunidades perdidas,” refere Indermit Gill, economista-chefe e vice-presidente sénior do Grupo Banco Mundial. “O crescimento a curto prazo continuará fraco, deixando muitos países em desenvolvimento — principalmente os mais pobres — presos numa armadilha: níveis paralisadores de dívida e pouco acesso a alimentos para quase uma em cada três pessoas. Ainda podemos virar o jogo. Este relatório apresenta um caminho claro e detalha a transformação que se pode alcançar se os governos agirem agora para acelerar os investimentos e fortalecer as políticas fiscais.”

O relatório apresenta a primeira análise global do que será necessário para gerar um desenvolvimento acelerado sustentável de investimentos, a partir da experiência dos últimos 70 anos de 35 economias avançadas e 69 economias em desenvolvimento. O documento reconhece que as economias em desenvolvimento muitas vezes têm um lucro inesperado quando aceleram o crescimento per capita em pelo menos 4%, aguentando-o por seis ou mais anos: o ritmo de convergência com os níveis de rendimento das economias avançadas acelera, a taxa de pobreza diminui mais rapidamente e o crescimento da produtividade quadruplica. Outros benefícios também se materializam durante essas altas repentinas: a inflação cai, as posições fiscal e externa melhoram e o acesso das pessoas à Internet aumenta rapidamente, entre outros.

“Os booms de investimentos têm o potencial de transformar economias em desenvolvimento e ajudá-las a acelerar a transição energética, conquistando uma grande variedade de objetivos de desenvolvimento,” sublinha Ayhan Kose, economista-chefe adjunto do Banco Mundial. “Para estimular essas subidas repentinas do nível da actividade económica, as economias em desenvolvimento precisam de implementar pacotes abrangentes de políticas que melhorem os marcos fiscal e monetário, expandam o comércio transnacional e os fluxos financeiros, melhorem o clima de investimentos e fortaleçam a qualidade das instituições. Refazer tudo isso ajudará a amenizar a desaceleração projetada do crescimento potencial para o restante desta década”, concluiu. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1155 de 17 de Janeiro de 2024.

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Autoria:Jorge Montezinho,20 jan 2024 8:15

Editado porFretson Rocha  em  28 fev 2024 14:20

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