É neste momento transformador que Herminalda Rodrigues assume a presidência da Comissão Executiva do banco. Uma liderança que não é nova: com mais de cinco anos na gestão executiva da instituição, conhece o BCA por dentro, as suas forças, os seus desafios, e o peso da confiança que os cabo-verdianos nele depositam. Entre a continuidade - o ADN de rigor, proximidade e confiança que construiu a reputação do banco - e a ruptura que a nova era exige, a PCE traça o caminho para um banco mais ágil, mais digital e com maior projecção africana. Os resultados são sólidos. As expectativas, ainda maiores. E, no centro, o cliente.
Assume a liderança executiva do BCA no momento mais transformador da sua história recente. O que é, para si, o ADN do BCA que deve ser preservado independentemente de quem seja o accionista?
Assumo esta função, num momento transformador, com um profundo sentido de responsabilidade e com a convicção que o percurso do BCA vai continuar a ser feito pelas pessoas, com profissionalismo, rigor, integridade, transparência, compromisso, proximidade e confiança. Se tivesse de resumir esse ADN, destacaria a capacidade de adaptação e o sentimentode pertença das nossas gentes, que também detém um valoroso conhecimento da nossa realidade. O BCA é feito de e por pessoas que têm um compromisso inabalável com os valores da instituição, com os clientes e com o país. O espírito de pertença, a confiança e o orgulho de fazer parte do BCA têm permitido ao Banco, ao longo da sua história (marcada por mudanças estruturantes desde a sua criação em 1993, pela separação da parte comercial do BCV, passando pela “privatização” em 2000), fazer um percurso consistente e merecedor da confiança dos nossos clientes - o nosso maior activo. A entrada da Coris Holding representa uma nova fase de crescimento, de valorização e reforço de capacidades — não altera a identidade do BCA, pelo contrário, vem reforçar e acelerar a nossa capacidade de cumprir a nossa missão, de estarmos mais próximos e de oferecermos um serviço de excelência aos nossos clientes, com mais escala, mais inovação e maior integração regional e africana.
É, historicamente, um dos maiores bancos de Cabo Verde. Mas os cabo-verdianos, no dia-a-dia, pouco sabem sobre a saúde real do banco onde depositam as suas poupanças. Como está o BCA hoje em termos de solidez, rentabilidade e posição competitiva no sistema financeiro nacional? E a entrada da Coris reforça ou altera esse equilíbrio?
O BCA é, sem qualquer sombra de dúvida, o maior Banco de Cabo Verde! Registamos um volume de activos de 98,5 milhões de contos em 2024 (ano com contas publicadas), superior ao do nosso maior concorrente em cerca de 3 milhões de contos. A boa saúde financeira do BCA é fácil de constatar, pelos excelentes resultados e indicadores que tem apresentado e que podem ser consultados, a qualquer momento, pelos clientes, accionistas, fornecedores e outros interessados. Note-se que o BCA é uma instituição cotada na Bolsa de Valores de Cabo Verde, e cumpre com todas as regras de divulgação de informações ao mercado. Além disso, é amplamente escrutinado pelo Banco de Cabo Verde, por ser um Banco Sistémico. As contas do BCA são de domínio público e amplamente divulgadas. O BCA continua a ser uma instituição financeira sólida, com um nível de capitais próprios muito superior a todos os seus concorrentes (+17% do que o nosso principal concorrente em 2024), um rácio de solvabilidade à volta de 30%, bastante acima do mínimo regulamentar de 12% e do sector bancário (23,7% em Setembro de 25). Além disso, apresenta indicadores de qualidade da carteira de crédito melhores do que a média do sector, com um rácio de crédito vencido em decrescimento consistente, registando 5,1% em 2024 (contra 5,5% do sector). Temos também o maior volume de depósitos do sistema bancário nacional, sem dependência de nenhum grande depositante, garantido uma situação de liquidez muito confortável, e grande capacidade para reforçar o financiamento à economia nacional. O BCA continua a ser, provavelmente, a instituição mais sólida do sector! Em termos de rentabilidade e posição competitiva, os últimos anos têm sido bastante positivos, com registo de Resultados Líquidos históricos e crescentes, desde 2022. Em 2024, a rentabilidade dos Capitais Próprios (ROE) ficou em 19%. A Rentabilidade dos Activos (ROA) foi de 2,17%. A solidez do Banco, com níveis de capitais próprios robustos e boa rentabilidade tem permitido manter uma política de distribuição regular de dividendos. As contas de 2025 ainda não estão fechadas, mas os resultados e indicadores provisórios apontam para mais um bom ano, com evoluções positivas e consistentes.
A Coris está presente em 11 países africanos e tem mais de 40 bancos correspondentes internacionais. Como é que o BCA vai aproveitar esta rede para benefício dos seus clientes (os empresários, mas também clientes particulares)?
Com a entrada da Coris, o BCA passou a integrar um grupo forte e de alcance continental, o que reforça incontestavelmente a posição e as perspectivas do BCA. O novo accionista é financeiramente muito forte, tem presença e experiência em 11 países do nosso continente, e tem uma estratégia muito centrada na proximidade e satisfação do cliente, na inovação e na excelência de serviço. O Grupo Coris possui reconhecido know-how no financiamento e acompanhamento das pequenas empresas, e ainda, parceiros internacionais com capacidade para a estruturação de financiamentos de maior dimensão e complexidade. Tudo isto traz muito boas perspectivas para o BCA reforçar o seu posicionamento competitivo no mercado, recentrando a sua actuação nos clientes residentes e na diáspora, na promoção do financiamento às micro, pequenas e médias empresas, sem perder de vista as operações de maior porte que forem relevantes para o desenvolvimento de Cabo Verde. A forte presença do grupo no continente Africano representa também uma oportunidade para apoiar os nossos empresários na procura de novos mercados para a colocação dos seus produtos e serviços, e estimular o crescimento das relações comerciais entre Cabo Verde e o nosso continente. Definitivamente, a entrada da Coris no capital do BCA representa uma grande oportunidade para o Banco e para Cabo Verde.
Idrissa Nassa, o fundador e accionista de referência do Grupo Coris referiu três eixos estratégicos para o “novo” BCA: modernização digital, proximidade com os clientes e qualidade de serviço, e desenvolvimento de novos produtos. Nos próximos 3 a 5 anos, qual é a principal transformação que pretende liderar no BCA?
O nosso grande desafio para os próximos anos é consolidar o BCA como o líder incontestável do mercado, reconhecido pela excelência no servir e pela qualidade das soluções que oferece. Queremos afirmar-nos como o banco mais sólido e eficiente do sistema financeiro nacional, também percebido como a instituição que proporciona a melhor experiência aos seus clientes e colaboradores. Isto, mantendo a nossa actuação assente em princípios de rigor, segurança e sustentabilidade, honrando a confiança, o respeito e a credibilidade que conquistamos ao longo do nosso percurso. Para tal, precisamos de um banco mais ágil, mais simples, mais próximo e mais digital. Um banco que decide com rapidez, que responde com maior eficiência e oferece soluções completas e ajustadas às necessidades reais das famílias, das empresas e da nossa diáspora. Acelerar a melhoria da eficiência dos processos, reforçar a capacidade operacional e aprofundar a proximidade aos clientes são para nós prioridades imediatas. Temos um conjunto de iniciativas estruturantes já em curso, cujos impactos contamos comecem a ser percebidos no curto prazo. Em síntese, a transformação é de aceleração, consolidação e crescimento: mais eficiência, maior capacidade de resposta e mais escala, sempre ancorada na valorização das pessoas e nos princípios de rigor, segurança, sustentabilidade e confiança, que construíram a reputação do BCA ao longo do seu percurso
Falou de um banco “mais digital”. O BCA lançou o BCADirecto em 2003 e tem investido em inovação digital. Onde está o banco hoje nesta jornada e para onde quer ir?
Desde muito cedo, o BCA tem assumido a digitalização como o caminho para simplificar processos, aumentar a eficiência e proporcionar maior comodidade aos seus clientes. O Banco destacou-se no nosso mercado como o pioneiro, quando, em 1999, disponibilizou a 1.ª solução de homebanking para as empresas, e, em 2003, com o lançamento do BCADirecto, inicialmente para consultas e depois com funcionalidades transaccionais. O BCADirecto foi sendo actualizado ao longo do tempo, tendo o Banco em 2015 lançado a aplicação mobile e em 2022 investido fortemente na reformulação dos canais digitais, que continuam a ser alvo de melhoria contínua, acompanhando a evolução tecnológica e respondendo aos anseios dos nossos clientes, integrando serviços cada vez mais completos, que incluem, além das consultas e transacções habituais, a gestão avançada de cartões com carregamentos VISA em tempo real e a consulta de carteiras de títulos. Os nossos canais digitais têm sido igualmente, alvo de fortes investimentos em segurança, nomeadamente no reforço de mecanismos de autenticação e de prevenção de fraude, consolidando a confiança no canal digital e contribuindo para a redução gradual da dependência do atendimento presencial. O BCADirecto entra agora numa nova fase: afirmar-se não apenas como o canal de acesso a serviços, mas como verdadeira plataforma digital do Banco, respondendo e aproveitando os desafios que se avizinham (como o open banking, por exemplo), permitindo a integração com outros sistemas, como o de pagamentos instantâneos – projecto inserido na estratégia nacional do Governo, coordenado pelo BCV - trazendo ganhos de agilidade, comodidade e promovendo a inclusão financeira no país. A evolução contínua da arquitectura tecnológica, bem como a literacia financeira mantém-se igualmente no centro das prioridades do Banco, tanto no reforço da sensibilização para a temática da cibersegurança como na promoção da confiança necessária para a massificação do uso dos canais digitais. De realçar de forma muito positiva a nossa integração no Grupo Coris, que conta com forte experiência e know-how neste âmbito.
A Coris Holding mencionou o objectivo de oferecer 'uma experiência bancária fluida, rápida e segura'. Que mudanças concretas os clientes do BCA podem esperar nos próximos meses? Temos que reconhecer que há queixas das “filas” do BCA…
Temos plena consciência das elevadas expectativas dos nossos clientes e estamos a envidar todos os esforços para lhes corresponder plenamente. A melhoria da jornada e da experiência do cliente são prioridades estratégicas da Coris Holding e, com certeza, desta gestão. Nos últimos anos, temos investido fortemente na modernização tecnológica, no reforço da cibersegurança, na gestão de riscos e conformidade e na prevenção da fraude. Hoje, contamos com soluções e infraestruturas mais robustas e em evolução contínua, o que nos coloca numa situação favorável para acelerar a nossa transformação digital, com vista a disponibilizar aos clientes, operações mais simples, rápidas e eficientes, tanto nas agências como nos canais digitais, sempre com segurança e confiança. Agora é o momento de traduzir esses investimentos em ganhos perceptíveis para os clientes. Com uma visão mais integrada e uma gestão de prioridades alinhadas com essa necessidade, vamos continuar a investir na capacitação das pessoas, na simplificação de processos e na transformação digital. Várias iniciativas já estão definidas, algumas delas em curso, com rápidos resultados esperados (“quick wins”). No curto prazo, os clientes podem esperar melhorias no atendimento nas agências, redução progressiva dos tempos de espera e de atendimento, melhoria nos tempos de resposta, modernização e simplificação em processos importantes e mais opções de auto-serviço no BCADirecto e em outros canais. O nosso objectivo é claro: proporcionar uma experiência bancária fluida, rápida e segura, reduzindo os tempos de espera, aumentando a autonomia do cliente e tornando a relação com o Banco mais agradável e eficaz - porque só assim continuaremos a merecer a confiança e a preferência do nosso cliente - o Rei, nesta relação que se quer de satisfação e confiança!

Membros da Comissão Executiva:Perengmanba Ouedraogo, Administrador Executivo (AE); Carlos Furtado, AE;Herminalda Rodrigues, PCE; Mónica Sanches, AE e Cheick Napon, AE.
Como é que a oferta para particulares vai evoluir? Haverá novos produtos pensados especificamente para jovens, emigrantes ou outros segmentos? Linhas de crédito diferentes e parcerias com instituições como o BAD ou o Afreximbank?
Estamos a trabalhar para que o BCA esteja cada vez mais próximo do mercado e alinhado com as prioridades do país — a participação activa da nossa diáspora no desenvolvimento económico, a digitalização, a juventude, a formalização da economia e a sustentabilidade. A nossa integração no Grupo Coris, vai-nos permitir reforçar o apoio ao sector privado, com foco na ampliação de mercados, tanto para o empresariado local como para aqueles que pretendem investir em Cabo Verde. Nos meios de pagamento, os cartões vão com certeza evoluir, de simples instrumentos transaccionais para plataformas integradas de serviços financeiros. Vamos fortalecer as nossas soluções digitais, tornando-as mais ágeis, integradas e ajustadas a cada segmento de clientes. No segmento jovem, queremos consolidar a relação desde o início da vida financeira, com propostas de poupanças, financiamento e serviços adequadas a cada fase de vida. Para os emigrantes, a prioridade é encurtar distâncias, simplificar a relação e oferecer respostas alinhadas com as suas necessidades de investimento e ligação ao país. Vamos também reforçar linhas de crédito diferenciadas, nomeadamente aproveitando os instrumentos disponibilizados pelo Estado, tanto no apoio às famílias, como no financiamento ao empreendedorismo e às empresas cabo-verdianas. Adicionalmente, com a nossa integração no Grupo Coris, estamos mais robustos para apoiar a expansão do sector privado. Com maior escala, mais conhecimento regional, uma rede de bancos correspondentes e de parceiros financeiros internacionais, podemos apoiar empresas cabo-verdianas na conquista de novos mercados e parcerias. Contamos fazê-lo através de soluções de financiamento estruturado, créditos de apoio à tesouraria, depósitos em moeda nacional e estrangeira, trade finance e facilitação de pagamentos, sustentados por elevados padrões de confiança — ancorados na estabilidade de Cabo Verde e na solidez, rigor e transparência que caracterizam o BCA. Tudo isto, com uma aposta muito forte na excelência de serviço! Em síntese, mais do que lançar novos produtos, o BCA está a reposicionar-se para acompanhar e liderar uma nova fase da economia cabo-verdiana — mais formal, mais digital, mais sustentável e com maior projecção internacional. Queremos ser verdadeiramente o banco que financia o futuro de Cabo Verde - dentro e fora das nossas fronteiras!
A sua nomeação é um marco num sector tradicionalmente masculino. A gestão de uma CEO mulher é diferente? Ou acredita que a gestão não tem género, apenas competência?
Acredito que a gestão, antes de tudo, é competência, integridade, autoconhecimento e capacidade de aprendizagem contínua. Liderar exige visão, consistência, disciplina, equilíbrio na tomada de decisão e capacidade de mobilizar pessoas — qualidades de quem se prepara, trabalha, entrega e evolui. Dito isto, não posso deixar de reconhecer que, na nossa realidade, as mulheres enfrentam desafios adicionais no percurso até posições de liderança. A maioria continua a ser a principal responsável pela gestão da casa e da família, assumindo múltiplas jornadas diárias, reduzindo o tempo de investimento na própria evolução pessoal e profissional - para “afiar machados”, como se costuma dizer. O caminho tem sido, sem dúvida, mais exigente para as mulheres! Para mim, cada mulher que alcança uma posição de liderança pela sua competência, traz ainda consigo muita resiliência, organização, sensibilidade e capacidade de superação. Sinto-me particularmente honrada por integrar uma instituição cuja história começou com uma mulher na liderança - a nossa saudosa Amélia Figueiredo - e que mantém participação feminina muito expressiva nos seus quadros e em cargos de liderança. Em suma, acredito que o essencial é reforçar ambientes onde homens e mulheres possam desenvolver plenamente o seu potencial, com equidade e justiça de oportunidades. Quando isto acontece, a diversidade torna-se um diferencial estratégico para o desenvolvimento sustentável da Instituição e do próprio País!
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Cronologia BCA
1993 - Criação do BCA após separação do Banco de Cabo Verde
2000 - Privatização: CGD torna-se accionista maioritário
2003 - Lançamento do BCA Directo (primeiro internet banking em Cabo Verde)
2018 - Caixa Geral de Depósitos anuncia a intenção de venda da sua participação na estrutura accionista do BCA (59,7%).
Março 2024 - CGD anuncia intenção de vender participação à Coris Holding
Novembro 2025 - Banco de Cabo Verde dá não-oposição ao projecto de aquisição
Janeiro 2026 - Conclusão da venda (59,81% por 82 milhões de euros)
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Herminalda Rodrigues
Cabo-verdiana, licenciada em Administração de Empresas (PUC, São Paulo/Brasil) com MBA em Gestão Geral (ISCEE/ISCTE), Herminalda M. Rodrigues tem uma carreira sólida. Com mais de 27 anos de experiência no sector bancário, vem exercendo funções de Gestão e de Liderança desde o ano 2000. No BCA, iniciou percurso como Técnica de Marketing (1998), tendo assumido cargos de gerência de agências (2000-2005) e de Coordenação do Gabinete de Empresas da Região Sul (2005-2008), antes de assumir a Direcção de Crédito à Habitação (2008-2010) e, posteriormente, a Direcção Comercial Sul, cargo que ocupou durante uma década (2010-2020). Em Setembro de 2020 integrou a Administração do BCA, como Administradora Executiva, cargo que ocupou até janeiro de 2026, quando, com a entrada da Coris Holding no capital do Banco, assume a Presidência da Comissão Executiva do BCA.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1265 de 25 de Fevereiro de 2026.
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