O ano em que Cabo Verde passou a país de rendimento médio-alto

PorJorge Montezinho,4 jan 2026 8:20

Em 2025, mudou a classificação do país, mas foi também o ano – finalmente – do início dos voos low cost, do acordo para a venda do BCA e foi também o ano em que, pela primeira vez, as reservas externas superaram os mil milhões de euros.

No primeiro dia de Julho, uma terça-feira, Cabo Verde passava a ser classificado como país de rendimento médio-alto, de acordo com os critérios estabelecidos pelo Grupo Banco Mundial (GBM). Esta classificação, com fins essencialmente analíticos, baseia-se exclusivamente na evolução do rendimento per capita e não implica, por si só, mudanças na elegibilidade para acesso a recursos do GBM, como explicou, na altura, ao Expresso das Ilhas Indira Campos, Representante Residente do Grupo Banco Mundial Cabo Verde.

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“Esta nova classificação é um testemunho inquestionável do percurso notável de desenvolvimento de Cabo Verde nos últimos 50 anos e reflecte décadas de compromisso, de resiliência e de políticas públicas sólidas. Com este novo marco, Cabo Verde reafirma-se como um exemplo de boa governação, estabilidade e compromisso com o desenvolvimento sustentável, consolidando a sua posição como um destino seguro, fiável e cada vez mais atrativo para o investimento internacional. Contudo, este feito traz consigo novos desafios e responsabilidades. Manter este progresso exigirá esforços ainda maiores para garantir um crescimento inclusivo, reforçar a competitividade e fortalecer a resiliência face a choques externos”, disse então Indira Campos.

Avançando para o último mês do ano, no passado dia 11, o stock de reservas situou-se em 1.019,8 milhões de euros, um patamar considerado robusto e compatível com a estabilidade macroeconómica, assegurando a sustentabilidade do regime cambial de indexação ao euro.

Segundo o BCV, este desempenho das reservas externas líquidas resulta da conjugação de vários factores, principalmente a política monetária, a dinâmica do turismo, o aumento do Investimento Direto Estrangeiro (IDE) e das remessas dos emigrantes.

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E por falar em dinâmica turística, Cabo Verde registou, em 2024, um número recorde de turistas, com um total estimado de 981.354 visitantes, o valor mais elevado da série estatística, segundo dados divulgados pelo INE, um crescimento de 11,8% face a 2023 e de 39,1% em relação a 2022. A ilha do Sal continua a concentrar o maior fluxo turístico, representando 59,0% das dormidas, seguida da Boa Vista (36,6%) e de Santiago (2,4%).

Números aéreos

Ainda em Dezembro, Cabo Verde recebeu a segunda prestação da concessão aeroportuária no valor de 45 milhões de euros. No total, até ao momento o estado da recebeu 80 milhões de euros da VINCI Airports, depois dos 35 milhões que embolsou no início da concessão.

E continuando na área da aviação, a TACV renovou os certificados que lhe permitem fazer voos transatlânticos. Segundo a transportadora, a obtenção deste estatuto resulta de vários meses de trabalho técnico e preparação interna, envolvendo equipas especializadas e processos rigorosos de avaliação. A certificação ETOPS, que estabelece parâmetros de segurança e eficiência para aeronaves que operam a longas distâncias de aeroportos alternativos, confirma que os recursos profissionais da Cabo Verde Airlines cumprem os mais exigentes standards internacionais de segurança na aviação civil.

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Seguindo no ar, Cabo Verde já está a receber voos low cost, a Easyjet anunciou que transportou 77 mil passageiros de e para Cabo Verde nos últimos três meses.

Para fecharmos o último mês do ano, um relatório histórico, publicado na última reunião do G20, na África do Sul, e liderado pelo Prémio Nobel Joseph Stiglitz, e fez soar o alarme sobre a "emergência da desigualdade". A desigualdade é uma das preocupações mais urgentes do mundo actual, gerando muitos outros problemas nas economias, nas sociedades, nas políticas e no ambiente. Torna a vida das pessoas mais frágil, levando a percepções de injustiça que geram frustração e ressentimento. Isto, por sua vez, mina a coesão social e política, corroendo a confiança dos cidadãos nas autoridades e nas instituições. As consequências são a instabilidade política, a diminuição da confiança na democracia, o aumento dos conflitos e o menor interesse pela cooperação internacional. No entanto, e estas são as boas notícias, a desigualdade não é um dado adquirido; combatê-la é necessário e possível.

Números bancários

Em Novembro, no dia 24, uma segunda-feira, o BCV anunciou que não se opunha à aquisição de 59,81% do BCA pela Coris Holding. Segundo o banco central, a avaliação inicial não identificou indícios que colocassem em causa a idoneidade do proposto adquirente e do seu beneficiário efectivo, nem a sua solidez financeira, nem sinais de operações relacionadas com lavagem de capitais ou financiamento do terrorismo.

Nesse mesmo mês, antes de conhecida a decisão do Banco Central, Idrissa Nassa, PCA da Coris Holding – holding financeira com sede em Burkina Faso – dava uma entrevista ao Expresso das Ilhas onde explicava que o plano para o banco cabo-verdiano passava por reforçar a posição do BCA e transformá-lo num banco mais moderno, digital, inclusivo e orientado para o financiamento da economia real.

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Novembro é também o mês do Orçamento de Estado e Olavo Correia, Ministro das Finanças, em entrevista ao Expresso das Ilhas afirmava: “temos de pensar grande para sermos grandes”. Segundo o governo, o OE2026 tem como principais políticas a diversificação da economia, a consolidação da trajectória de crescimento com justiça social e o reforço do papel do Estado Social, da inclusão social e do desenvolvimento sustentável.

“O Orçamento do Estado tem de ser um instrumento capaz de provocar a transformação na economia cabo-verdiana. Isto significa melhorar as condições de vida dos nossos cidadãos. Queremos aumentar a qualidade de vida com melhor acesso à educação, melhor acesso à saúde, melhor acesso à habitação, melhor acesso à água, à energia, ao saneamento e melhor acesso ao rendimento”, afirmou Olavo Correia.

Em Setembro ficámos a saber que Cabo Verde está na 95.ª posição mundial no Índice Global de Inovação (GII) 2025, divulgado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI). A nível continental, o arquipélago surge como o 7.º país mais inovador de África, num ranking continental liderado por Maurícias (53.º), África do Sul (61.º) e Seychelles (75.º).

O relatório sublinha que, embora Cabo Verde se mantenha entre as economias africanas com desempenho relativamente positivo, continua a enfrentar desafios estruturais, como a fraca ligação entre universidades e empresas, o reduzido investimento em investigação e a limitada capacidade de financiamento para startups.

Números ilha a ilha

Em Agosto, o Expresso das Ilhas avançava que ao longo da última década se confirma uma forte centralização em algumas ilhas (Santiago, São Vicente, Sal e Boa Vista), quer na demografia, quer na actividade económica. Aliás, há inclusive ilhas a perder quota nestes 10 anos, como mostraram os cálculos foram feitos pelo economista Paulino Dias.

“Cabo Verde continua a correr a diferentes ritmos”, explicou Paulino Dias ao Expresso das Ilhas. “Naturalmente, não se pode esperar que todas as ilhas vão crescer ao mesmo ritmo ou vão ter a mesma participação num dado indicador como por exemplo o PIB, porque as ilhas são estruturalmente diferentes, possuem recursos diferentes. O que quis analisar é como é que evoluiu essa dinâmica, esse nível da concentração na última década”.

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No mesmo mês, dados do PIB por ilhas, publicados pelo INE, mostraram as assimetrias do país, com Santiago, São Vicente e Sal responsáveis pela criação de 81,8% da riqueza nacional. Os restantes 18,2% dividem-se pelas outras seis ilhas. As ilhas com menor peso são Brava (0,9%), Maio (1,2%) e São Nicolau (2,2%).

Segundo o INE, a análise do PIB por ilha não só proporciona uma compreensão mais clara da performance económica regional, como também revela as desigualdades e os desafios específicos enfrentados por essas áreas. Além disso, ao comparar o PIB entre as diferentes ilhas, podem-se identificar padrões económicos e tendências que ajudam a formular estratégias para promover um crescimento mais equilibrado e sustentável.

Números dos economistas

Em Julho, o Expresso das Ilhas falou com Rodrigo García-Verdú, representante residente do FMI em Cabo Verde, no seguimento da sexta revisão no âmbito do acordo de Facilidade de Crédito Alargado (ECF) que aprovou uma extensão de quinze meses e um aumento equivalente a trinta por cento da quota no âmbito do acordo ECF. O Conselho de Administração também aprovou uma extensão de quinze meses do acordo de Facilidade de Resiliência e Sustentabilidade (RSF) e o reescalonamento das datas de disponibilidade no âmbito do acordo RSF.

“O ajuste tem sido muito bem-sucedido, no sentido em que os dois choques a que a economia foi exposta – primeiro, a recessão pós-Covid, depois o aumento do preço dos alimentos e energia, com a invasão da Rússia à Ucrânia – foram brutais. Quando você compara a queda do PIB, de perto de 20%, mas que no pior momento foi de 33%, poucos países foram expostos a um choque tão brutal. Entretanto, a retoma tem sido muito, muito boa; 7% em 2021; 17% em 2022; 5,1% em 2023 e depois 7,3% em 2024. Os dados mais recentes mostram que estamos 11% por acima do nível pré-pandémico. Comparativamente a outros países, é uma retoma muito, muito forte”, disse o representante residente do FMI.

Ainda em Julho, soubemos que a capitalização das empresas cotadas em bolsa foi a mais elevada de sempre. Este desempenho positivo teve por trás, principalmente, o aumento das emissões do Estado e a subida de transacções no mercado secundário.

Também em Julho, o Expresso das Ilhas entrevistou o economista guineense Carlos Lopes, que deixou a mensagem que “a ideia da diversificação é nobre, mas tem que ser estratégica”. “Ia ser um hub logístico. Não é um hub logístico. Podia ser um centro financeiro. Atraiu alguns bancos portugueses, alguns fundos, mas, na realidade, como praça financeira, é inexistente. Ia ser um centro para a economia digital. Actualmente, as exportações de TIC estão na ordem dos 0,27%, ou seja, são uma poeira”.

Em Junho, noticiámos os dois projectos-piloto em dois arquipélagos – um do lado de cá do continente, no Atlântico, outro do lado de lá, no Índico. Cabo Verde e Comores são considerados modelos a seguir por outros países africanos na construção de economias resilientes ao clima, inclusivas e sustentáveis.

O projecto Mobilizar recursos financeiros externos para além da COVID-19, para um desenvolvimento mais verde, mais igualitário e sustentável em PEID vulneráveis selecionados em África, América Latina e Caraíbas iniciou-se em Janeiro de 2022 e conclui em Dezembro deste ano.

Em Março, Cabo Verde apareceu sinalizado no mapa global de terras raras – carbonatito na ilha do Fogo – mas há jazidas em mais ilhas. São minérios vitais para a transição para energias limpas e usadas em indústrias e produtos como smartphones, televisores ou turbinas eólicas. A China domina mercado de metais usados em diversos produtos, incluindo os considerados cruciais para a segurança nacional dos países.

Para além da sua raridade, o que torna os carbonatitos alvo de grande interesse petrológico, geoquímico e económico é o seu carácter excepcionalmente rico em alguns elementos traço (elemento de origem natural presente em pequenas quantidades na crosta terrestre. A maioria são metais pesados, porém também se encontram nesta categoria elementos de baixa densidade como lítio, berílio, boro, etc.).

A China tem pouco menos da metade das reservas mundiais de terras raras, com o Brasil, a Índia e a Austrália também identificados como pontos críticos, de acordo com o Serviço Geológico dos EUA. A maior mina de terras raras é a de Bayan Obo, na região chinesa da Mongólia Interior, que produz os metais juntamente com o minério de ferro.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1257 de 31 de Dezembro de 2025.

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Autoria:Jorge Montezinho,4 jan 2026 8:20

Editado porSara Almeida  em  8 jan 2026 9:19

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