BCV prevê abrandamento da economia para 4,5% em 2026 devido à instabilidade internacional

PorAndre Amaral,13 mai 2026 11:53

O crescimento da economia nacional deverá abrandar para 4,5% em 2026, depois de ter atingido 6,3% em 2025, num contexto internacional marcado pela desaceleração das principais economias mundiais, tensões comerciais e agravamento do conflito no Médio Oriente. A previsão consta do Relatório de Política Monetária de Abril de 2026 do Banco de Cabo Verde.

Segundo o banco central, apesar de a economia nacional continuar a crescer acima da média internacional, o ritmo de expansão deverá perder força devido à moderação do consumo privado, ao fraco desempenho do investimento e ao abrandamento da procura externa, sobretudo no turismo. O BCV antecipa, ainda assim, uma recuperação moderada em 2027, quando o Produto Interno Bruto (PIB) poderá voltar a acelerar para 4,9%.

O relatório aponta que, em 2025, Cabo Verde registou um crescimento económico de 6,3%, abaixo dos 7% alcançados em 2024. A desaceleração foi explicada principalmente pelo enfraquecimento da procura externa líquida, devido ao menor crescimento das exportações de serviços, particularmente do turismo, e ao aumento das importações de bens.

Do lado da oferta, o BCV destaca a contracção da actividade nos sectores de “Comércio e reparação” e o abrandamento em “Alojamento e restauração”, embora a construção tenha apresentado uma recuperação significativa, crescendo 11,8% em 2025 após a retracção registada no ano anterior.

O investimento teve igualmente um comportamento de recuperação, crescendo 13,1% em 2025, impulsionado sobretudo pelo investimento público, incluindo a aquisição de uma aeronave para as Forças Armadas. Já o consumo privado cresceu apenas 2,9%, bastante abaixo dos 8,6% observados em 2024, reflectindo a inflação mais elevada e o crescimento mais moderado das transferências sociais para as famílias.

Inflação sobe e poderá agravar-se em 2026

A inflação média anual aumentou para 2,3% em 2025, contra 1% em 2024, pressionada sobretudo pela subida dos preços dos produtos alimentares importados e pelo aumento dos custos de transporte marítimo internacional.

Os maiores aumentos verificaram-se nas classes de “Produtos alimentares e bebidas não alcoólicas”, “Vestuário e calçado” e “Restaurantes e hotéis”. O BCV refere ainda que os custos de frete aumentaram 21,4% em 2025, enquanto os custos com seguros cresceram 69,6%, devido à instabilidade geopolítica e à insegurança nas rotas marítimas internacionais.

Para 2026, o banco central prevê novo agravamento da inflação para 2,7%, impulsionado pela subida dos preços da energia e dos alimentos no mercado internacional, antes de uma desaceleração para 1,8% em 2027.

O relatório alerta que os riscos inflacionistas poderão intensificar-se caso o conflito no Médio Oriente se prolongue e provoque perturbações persistentes nos mercados energéticos. O BCV admite mesmo um cenário severo em que o aumento prolongado dos preços do petróleo teria impactos mais fortes sobre a inflação, o crescimento económico e as reservas externas do país.

Turismo continua a crescer, mas perde dinamismo

O turismo continuou a ser um dos principais motores da economia cabo-verdiana em 2025, mas registou sinais claros de desaceleração. As exportações de serviços turísticos cresceram 9,6%, abaixo dos 19,1% registados em 2024.

Segundo os dados citados pelo BCV, o número de dormidas em estabelecimentos hoteleiros aumentou 8,5%, também abaixo dos 9,6% do ano anterior. A redução da procura proveniente da Bélgica e da Holanda, assim como o abrandamento dos mercados britânico e francês, contribuíram para esta evolução.

Ainda assim, o Reino Unido manteve-se como principal mercado emissor de turistas para Cabo Verde, representando 33,5% da procura turística total, seguido de Portugal e Alemanha.

As remessas dos emigrantes também continuaram a crescer, embora de forma mais moderada, aumentando 2,5% em 2025, contra 5,5% no ano anterior.

Reservas externas atingem máximo histórico

Apesar do abrandamento económico, as contas externas apresentaram um desempenho considerado “muito favorável” pelo banco central. A balança corrente registou um excedente de 3,7% do PIB e as reservas internacionais líquidas aumentaram para 1.064,5 milhões de euros, suficientes para garantir 8,8 meses de importações, acima dos 6,5 meses registados em 2024.

O BCV atribui esta evolução ao crescimento das receitas do turismo, das remessas dos emigrantes, das transferências privadas e do investimento directo estrangeiro (IDE), que aumentou 39,7% em 2025, atingindo 14,8 mil milhões de escudos.

Grande parte desse investimento concentrou-se nos sectores do turismo e imobiliária turística nas ilhas de Santiago, Sal e Boa Vista, com capital proveniente sobretudo de Portugal e Itália.

Contas públicas regressam ao excedente

As finanças públicas também registaram melhorias em 2025. O Estado fechou o ano com um superavit de 3,18 mil milhões de escudos, equivalente a 1,1% do PIB, revertendo o défice de 2024.

O resultado foi impulsionado pelo aumento das receitas fiscais, que cresceram 17%, beneficiando do crescimento económico, da introdução de uma taxa específica sobre o álcool, do agravamento da tributação sobre o tabaco e da cobrança de dívidas fiscais negociadas em prestações.

Ao mesmo tempo, a dívida pública reduziu-se para 101,1% do PIB, abaixo dos 111,4% registados em 2024.

BCV mantém taxas de juro

Perante o contexto internacional incerto, o BCV decidiu manter as taxas de juro de referência nos níveis actuais. O banco central considera que o diferencial entre as taxas nacionais e as do Banco Central Europeu continua favorável à economia cabo-verdiana e sublinha que as reservas externas permanecem robustas.

O relatório indica igualmente que os ativos externos líquidos dos bancos comerciais inverteram a tendência de crescimento desde abril de 2025, refletindo os efeitos das medidas monetárias adotadas pelo BCV desde 2023 para tornar as taxas internas mais atrativas do que as da Área Euro.

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Autoria:Andre Amaral,13 mai 2026 11:53

Editado porSara Almeida  em  13 mai 2026 13:19

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