Os 100 dias da guerra sem fim à vista

PorJorge Montezinho com Agências,11 jun 2022 8:04

Mortos. Destruição. Refugiados. Regresso do proteccionismo. Fantasmas da crise alimentar global. A ofensiva que começou a 24 de Fevereiro fez 100 dias no passado dia 3 deste mês. Ainda não se sabe quanto tempo mais de conflito teremos pela frente.

No dia 24 de Fevereiro, Vladimir Putin, Presidente russo, afirmava: “tomei a decisão de uma operação militar especial. Vamos esforçar-nos para alcançar a desmilitarização e a desnazificação da Ucrânia”. Era o início de um conflito com a vizinha Ucrânia que já provocou milhares de mortos e milhões de refugiados. Um dia depois, Volodymyr Zelensky, presidente ucraniano, numa comunicação a jornalistas internacionais, referia: “deixaram-nos sozinhos a defender o nosso Estado”.

No passado dia 3 deste mês, chegou o simbólico 100º dia do conflito que, nas palavras do autarca de Kiev, é “entre o bem e o mal e a bondade e a justiça ainda vencem”. Cem dias onde na Rússia a guerra não pode ser considerada guerra e a invasão não é invasão, sob pena de prisão.

Na mesma data, o Comité Internacional da Cruz Vermelha considerou que a escala de destruição na Ucrânia “desafia a compreensão”. Zelensky publicou um vídeo para assinalar o período de invasão da Rússia à Ucrânia: “Os representantes do Estado estão aqui, a defender a Ucrânia há cem dias”. O Conselho da União Europeia (UE) decidiu impor novas sanções à Bielorrússia e formalizou o sexto pacote sancionatório a Moscovo.

Quase sete milhões de ucranianos deixaram o país desde a invasão russa. É a mais grave crise de refugiados da actualidade. A guerra obrigou cerca de 15 milhões de pessoas a deixarem as suas casas, um terço da população nacional. Segundo a ONU, aos 6,8 milhões de refugiados, a maioria mulheres, crianças e idosos, juntam-se outros oito milhões de deslocados internos. A Polónia é o país que mais refugiados ucranianos recebeu (3,6 milhões), enquanto quase um milhão chegou à Roménia e outros 970 mil foram para a Rússia.

O que mudou no mundo

Com a guerra, juntamente com o lockdown na China devido à política de Covid-Zero, os países do mundo aprenderam que não devem depender apenas de um único fornecedor. Diminuiu o apelo para a globalização offshore (negócios além fronteiras) e procura-se mais uma globalização onshore (recolocação de negócios dentro das próprias fronteiras) ou nearshore (recolocação de negócios em países próximos).

O multilateralismo do pós-guerra e pós-queda do muro de Berlim nasceu e cresceu. Mas o actual contexto, da aliança entre Rússia e China e o novo tabuleiro geopolítico preocupa os agentes económicos, os políticos e a população mundial.

Os preços dos alimentos com a limitação das importações e as sanções impostas à Rússia dão o tom para um cenário económico mais complicado, com grande possibilidade de escassez de alimentos, mais inflação, mais taxas de juros e possível estagflação nos países da União Europeia e recessão noutros.

A Rússia e a Ucrânia alimentam mais de 400 milhões de pessoas em todo o mundo. Ambas são responsáveis por 28% do trigo transacionado globalmente, 29% da cevada, 15% do milho e 75% do óleo de girassol.

Uma vez que aproximadamente quatro quintos da população mundial vivem em países que são importadores líquidos de alimentos, estima-se que entre 120 a 190 milhões de pessoas podem cair na miséria e na fome, principalmente em países africanos e no Médio Oriente.

Quando acaba a guerra?

É difícil ser definitivo na resposta. Os três principais objetivos de Putin: “desnazificar” a Ucrânia, “desmilitarizar o país” e depor o presidente Volodymyr Zelensky, não foram alcançados, mas dificilmente o presidente russo regressará ao Kremlin com as mãos a abanar.

A guerra entrou num impasse. Os russos não conseguem avançar para a capital Kiev e os ucranianos, apesar da ajuda militar do Ocidente, não conseguem expulsar os russos. Não se prevê a rendição de qualquer um dos lados.

O secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, assinalou os 100 dias de guerra pedindo ao Presidente russo que cesse “imediatamente o conflito, sofrimento e agitação global causados pela sua escolha”. “O nosso objetivo é direto: os Estados Unidos querem ver uma Ucrânia democrática, independente, soberana e próspera com os meios para dissuadir e se defender contra novas agressões”, disse Blinken em comunicado.

Uma guerra a arriscar o esquecimento

Nas redes sociais o tema está longe do mediatismo que teve em Fevereiro. Temas como o julgamento de Johnny Depp e Amber Heard atraíram mais os utilizadores do que o conflito armado na Ucrânia.

Dados recolhidos pela NewsWhip para o site Axios, entre a primeira semana da guerra e a última semana de Maio, mostram uma diminuição de 22 vezes no número de interações nas redes sociais associadas a artigos sobre a guerra, entre gostos, partilhas e comentários. A variação é de 109 milhões para 4,8 milhões de interações.

A redução reflecte também uma diminuição no número de artigos publicados sobre o assunto, de 250 mil na primeira semana da invasão, para 70 mil na semana passada, refere a mesma fonte.

Em declarações à Axios, Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, sublinhou a importância da atenção mediática, para manter a pressão sobre os líderes mundiais. O responsável admitiu recear que o tema comece a entrar na rotina.

Também a primeira-dama, Olena Zelenska, em declarações à ABC News, deixou um apelo aos cidadãos dos Estados Unidos: “não se habituem a esta guerra. (...) Caso contrário, arriscamo-nos a uma guerra sem fim (...) Não se habituem à nossa dor”. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1071 de 8 de Junho de 2022.

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Autoria:Jorge Montezinho com Agências,11 jun 2022 8:04

Editado porA Redacção  em  27 set 2022 23:27

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