Quatro anos volvidos sobre o início da guerra, russos e ucranianos voltam a confrontar-se na mesma mesa de negociações em torno de um plano de paz proposto por Washington, embora afastados na chave para um acordo de paz, assente no futuro dos territórios reivindicados por Moscovo e garantias de segurança a Kiev que evitem uma nova agressão do Kremlin.
A próxima ronda trilateral, mediada pelo enviado da Casa Branca Steve Witkoff e por Jared Kushner, genro do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, será realizada dentro de uma semana, segundo o líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, e deverá ter lugar novamente Genebra.
Cronologia dos principais acontecimentos negociais da guerra na Ucrânia:
2022
Fevereiro -Delegações de Kiev e Moscovo encontram-se quatro dias após o início da invasão, quando as forças russas ainda ocupavam posições nas imediações da capital ucraniana, que abandonariam nos dois meses seguintes sem conseguir o seu objectivo e deixando um rasto de massacres em Irpin e Bucha.
A reunião de cinco horas é a primeira sem resultados, tal como os encontros nos dias posteriores na Bielorrússia e as conversações são encerradas em 07 de Março.
Março/Abril -As partes voltam a encontrar-se em Antalya, na Turquia, com as presenças dos chefes das diplomacias de Moscovo, Serguei Lavrov, e de Kyiv, Dmitry Kuleba, com vista a um cessar-fogo que não foi obtido nem nesta reunião nem numa segunda ocorrida em Istambul.
Julho -A ONU e a Turquia promovem um acordo de escoamento de cereais dos portos ucranianos no mar Negro, sob bloqueio da armada russa, que ameaçava a estabilidade dos preços internacionais e a segurança alimentar global.
O entendimento dura alguns meses, acabando por ser denunciado por Moscovo, levando a Ucrânia a procurar rotas alternativas de exportação, enquanto começava a afundar grande parte da frota russa do mar Negro.
Novembro -O Presidente ucraniano apresenta, durante a cimeira do G20 na Indonésia, um plano de paz, que prevê a retirada das tropas russas e o respeito pela integridade territorial do país, além de garantias de segurança nuclear, energética e alimentar, e a criação de um tribunal especial sobre crimes de guerra.
O plano inclui também a libertação de prisioneiros e deportados, protecção ambiental, prevenção de escalada e confirmação do fim da guerra.
Presente na reunião do G20, Lavrov considera as exigências de Zelensky irrealistas.
2023
Fevereiro -A China apresenta um plano de 12 pontos com vista a um cessar-fogo entre Ucrânia e Rússia, destacando "o respeito pela soberania de todos os países", numa referência à Ucrânia, mas também o fim das sanções do Ocidente entretanto aplicadas a Moscovo.
O plano de Pequim prevê medidas de segurança das instalações nucleares, corredores humanitários para a retirada de civis e acções para garantir a exportação de cereais.
O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, saúda a iniciativa dos "amigos chineses" mas não vê condições para que a resolução do conflito "possa tomar um caminho pacífico".
Junho - Uma delegação liderada pelo Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, que integra também os chefes de Estado da Zâmbia, Comores, Congo-Brazzaville, Egipto, Senegal e Uganda, visita a Ucrânia e a Rússia, em busca de "um processo pacífico para o conflito", que alegam ter repercussões nos seus países devido à escassez de alimentos.
O Presidente ucraniano rejeita reatar o diálogo com Moscovo enquanto as forças russas continuarem a ocupação, alegando que se o fizesse estaria apenas "a congelar a guerra".
Agosto -A "fórmula de paz" de Zelensky volta a centrar as atenções diplomáticas, num encontro em Jeddah promovido pela Arábia Saudita, que reúne representantes de mais de 30 países.
O evento termina sem declaração final e é criticado pela Rússia, que não foi convidada e condenara a iniciativa ao fracasso.
2024
Junho - A Ucrânia retoma a iniciativa ao promover uma "Cimeira de Paz" na Suíça, com a presença de mais de 90 países e novamente sem a Rússia, com foco na exigência da retirada das tropas de Moscovo.
O texto final reafirma os princípios da soberania, da independência e da integridade territorial de todos os Estados, incluindo a Ucrânia", e é apoiado pela maioria das delegações, mas potências regionais como Índia, Arábia Saudita e Brasil recusam-se a assinar.
2025
Fevereiro -No segundo mês desde o regresso à Casa Branca, Donald Trump conversa por telefone com o homólogo russo, Vladimir Putin, reatando os contactos entre Washington e Moscovo que eram praticamente inexistentes desde o começo da guerra.
A chamada marca o compromisso dos dois líderes em retomar o diálogo sobre a resolução do conflito, embora Zelensky avise que será inviável sem a participação de Kiev.
O líder ucraniano é destratado publicamente na Casa Branca por Trump e pelo vice-presidente norte-americano, JD Vance, num encontro tenso, em que Zelensky é acusado de ser desrespeitoso e ameaçado de ficar sozinho, porque já não tem "cartas para jogar".
Junho - Delegações ucranianas e russas participam numa série de conversações indirectas em Istambul e Kiev descreve as propostas de Moscovo como "ultimatos que não contribuem para uma paz genuína". Os encontros apenas produzem trocas de prisioneiros de guerra.
Agosto - Witkoff encontra-se com Putin, na terceira viagem a Moscovo, num contexto de um discurso errático de Trump, que tanto acusa Zelensky de intransigência como o homólogo russo por fugir de um entendimento e prosseguir a campanha militar.
Trump recebe com deferência e honras militares Putin no Alasca. O conteúdo da reunião fica largamente por conhecer, mas o líder norte-americano indica que o homólogo russo aceitou o estabelecimento de garantias de segurança exigidas por Kiev para evitar uma nova invasão como condição para um acordo de paz. Mas nada é divulgado sobre a questão de fundo dos territórios ucranianos cobiçados pela Rússia.
A cimeira do Alasca tem sequência em reuniões nos dias seguintes na Casa Branca de Trump com Zelensky, desta vez em tom mais civilizado, e com os principais lideres europeus.
Novembro -Delegações dos Estados Unidos e europeias avistam-se em Genebra, depois de divulgado um plano de paz de 28 pontos de Washington, que contempla várias exigências de Moscovo, incluindo o controlo total da região do Donbass, no leste da Ucrânia, a desistência da integração de Kyiv na NATO e a limitação do efectivo militar ucraniano.
Dezembro -Zelensky assinala progressos, durante reuniões em Berlim com os enviados norte-americanos e os principais líderes europeus, sobre garantias de segurança dos EUA, depois de Kiev ter elaborado uma versão revista do plano original da Casa Branca.
Vários parceiros europeus de Kiev estão também prontos para oferecer garantias de segurança, mas o Kremlin avisa que este envolvimento "não é um bom presságio" para um acordo.
Witkoff e Kushner insistem em dialogar, na Florida, com as partes, que continuam a divergir sobre os territórios ocupados.
2026
Janeiro/Fevereiro -Delegações da Rússia e da Ucrânia realizam os primeiros contactos directos em Abu Dhabi desde o início da guerra, num novo formato trilateral promovido por Washington, que terão rondas subsequentes na capital dos Emirados Árabes Unidos, mas que apenas resultam num novo acordo de troca de prisioneiros.
As conversações tripartidas prosseguem em Fevereiro em Genebra e, segundo Zelensky, houve avanços no enquadramento militar de um eventual cessar-fogo mas não político, lamentando que EUA e Rússia insistam na cedência do Donbass.
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