EDITORIAL : Pôr o país num outro patamar

PorHumberto Cardoso,10 mai 2021 6:44

​A pandemia continua a sua curva ascendente. Aumentam o número de casos, o número de pessoas hospitalizadas e o número de mortes.

Evitar que o sistema de saúde dê sinais de stress e de eventual colapso passou a ser a primeira das preocupações. No domingo passado em entrevista à TCV o matemático português Oscar Felgueiras a partir da leitura dos dados da evolução do coronavírus nestas últimas semanas fez notar que “Cabo Verde tem cinco vezes o limite definido para que sejam tomadas medidas mais drásticas”. Há urgência em agir, porém só será possível com a mobilização da vontade nacional a um nível muito maior do que o até agora conseguido.

Talvez isso seja já possível agora que as eleições legislativas de Abril já deixaram saber quem vai governar nos próximos cinco anos e que ficou para trás a excessiva polarização sócio-política própria dos períodos eleitorais. Também provavelmente ajudará na adopção de uma nova atitude em relação à pandemia o que, nestes primeiros quatro meses de 2021, se tem assistido em vários países (Estados Unidos, Brasil, Índia) por causa do crescimento exponencial de casos de covid-19, muitos deles com sistemas de saúde muito mais avançados do existente em Cabo Verde. Tem sido um autêntico desastre, mas já previamente anunciado com as incoerências na tomada de posição das autoridades, ambiguidades no discurso dirigido ao público e falta de autoridade na aplicação das regras. De facto, já é tempo para se pôr de lado as diferenças, os egos e as vaidades e focalizar a atenção de todos no que realmente importa: combater a pandemia, apoiar os mais atingidos pela crise económica e social e preparar de forma estratégica o país para iniciar a retoma da economia o mais depressa possível.

Para isso é preciso que se fale claro que a gravidade da situação seja conhecida e que se aja em tempo para que o de mais grave for previsto não venha a acontecer. Poucas vezes alguém foi tão directo como Óscar Felgueiras a analisar os números da pandemia. Falou de um agravamento nos tempos próximos” justificado por “uma incidência elevada, de um crescimento forte” do número de casos, “de uma positividade acima dos 20% que indicia subnotificação”. Disse ainda que o facto de estar a circular a “nova variante do vírus (inglesa) que é mais transmissível, será difícil, por enquanto conter o aumento de novos casos”. Em poucas palavras as pessoas ficaram a saber da tendência actual de aumento de contágio, das insuficiências em detectar os casos, da presença de uma nova variante mais perigosa e da dificuldade real de travar mais infecções. Forma de comunicação similar deveria de há muito ser usada em Cabo Verde à semelhança do que se tem visto nos outros países ao longo deste um ano de pandemia.

Comunicação directa e franca cria confiança e torna as pessoas mais colaborantes. Neste sentido não foi a melhor opção a insistência das autoridades sanitárias em fazer uma comunicação mais descritiva do que explicativa da evolução da pandemia e sem grande preocupação em tornar compreensíveis as medidas tomadas no combate ao coronavírus. Essa insuficiência poderia ser suprida com informação, análises e estudos vindos de investigadores e de instituições como as universidades, mas infelizmente parece que a comunidade científica e académica do país preferiu manter-se distante. Não estranha que em pouco tempo as pessoas sem informação consistente e fidedigna do que se passava se tenham cansado de certas restrições, não tenham encontrado justificações para manter outras e acusado as autoridades de hipócritas em proibir certas actividades a uns e permiti-las a outros.

É só ver como todos vêem insistindo que o aumento dos casos nas últimas semanas é devido às campanhas eleitorais. Não se compreende que provavelmente algum ajuntamento de pessoas terá contribuído, mas que poderá não ter sido o factor principal como se pode ver a partir do exemplo de outros países que estão a passar por segundas e terceiras vagas do coronavírus e também estão numa curva ascendente de covid-19. Entretanto, tomam-se como hipócritas as recomendações das autoridades em evitar aglomerações de pessoas e há maior relutância em as cumprir. Fragilizada a confiança na comunicação, fica mais difícil levar a população a observar as novas recomendações que vão surgindo a partir de um conhecimento cada dia mais aprofundado do vírus. Numa situação em se está sempre na contingência de lidar com variantes que poderão ser mais contagiosas e mais letais, a perda de eficiência na comunicação entre as autoridades e a população pode ter efeitos catastróficos. O caso da Índia é paradigmático a esse respeito.

Confiança é fundamental para se ter comunicação eficiente e mais do que nunca o país precisa que as pessoas confiem nas autoridades sanitárias e sigam as recomendações dadas. As vacinas não são uma panaceia para resolver a epidemia como se pode constatar em vários países. Para manter a covid-19 controlada vai ser necessário a colaboração confiante da população. Até agora só com 16.000 pessoas vacinadas com primeira dose, cerca de 3% da população, Cabo Verde precisa ter a população a cumprir à risca as recomendações das autoridades para minimizar os efeitos do coronavírus. Nesse sentido é que se deve entender os resultados das eleições de 18 de Abril.

De facto, a opção do eleitorado em assegurar uma maioria estável no governo e em garantir continuidade governativa nestes tempos de emergência nacional deve ser tomada como um mandato especial. Terá sido um comando para se diminuir a crispação política, mobilizar os esforços vindos de todos os quadrantes e encontrar vias para maior convergência na prossecução dos grandes objectivos do país a curto e médio prazo e que têm a ver com o combate à covid-19 e aos seus efeitos na economia e na sociedade. Perante isso deve-se entender que mais do que nunca não dá para manter a costumeira guerrilha pós-eleitoral durante a qual quem perdeu procura razões para justificar a derrota e quem ganhou ainda se sente tentado a aprofundar a derrota do outro.

Em democracia não se pode estar em campanha permanente. Escolhida e legitimada uma opção de governação deve ela poder implementar a sua visão e as suas políticas a bem do país com contraditório no parlamento e em ambiente de liberdade e de pluralismo, mas sem lutas estéreis que bloqueiam tudo. A responsabilidade maior em garantir que a democracia funcione sem tais bloqueios cabe naturalmente ao governo que tem todos os meios para dirigir a política interna e externa e manter o país funcional e focado nos seus grandes objectivos de desenvolvimento. Do vencedor das eleições deve-se ainda esperar alguma magnanimidade que pode manifestar-se por exemplo em não ser um factor de impedimento a que uma oposição renovada se afirme como alternativa viável dentro do sistema democrático.

Tudo isso contribuíra para uma maior confiança e credibilidade nas instituições democráticas neste momento excepcional que se vive hoje em que é fundamental manter a nação focada na luta contra a covid-19. Realizadas as eleições com sucesso reconhecido, um bom começo será poder iniciar a nova legislatura e nomear o novo governo sem pressas e sem os sobressaltos que só ensombram um dos momentos altos das democracias que é o da transferência de poder de um governo para outro. Também, com maior tranquilidade e serenidade talvez se reconheça que o novo mandato não é de simples continuidade do outro, mas o de elevar o país para um outro patamar para poder vencer os enormes desafios que se lhe colocam e que as crises dos últimos anos deixaram a nu.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1014 de 5 de Maio de 2021. 

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Autoria:Humberto Cardoso,10 mai 2021 6:44

Editado porAndre Amaral  em  15 jun 2021 19:19

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