Ciro Gomes político brasileiro : “Este é o pior momento da história brasileira”

PorNuno Andrade Ferreira,20 jun 2020 9:20

Foi deputado, governador, ministro e, em 2018, concorreu à presidência do Brasil. Hoje é uma das principais vozes da oposição a Jair Bolsonaro. Em entrevista exclusiva ao Expresso das Ilhas e Rádio Morabeza, Ciro Gomes fala de um país em crise, onde a pandemia de covid-19 já matou mais de 44 mil pessoas e infectou perto 900 mil.

O que aconteceu para que Brasil chegasse aos números que regista, de infecção por covid-19 e que importância terá tido a actual crise política para esta situação?

Há duas causas claras, uma é o perfil demográfico brasileiro, a nossa tragédia socio-económica. O Brasil tem 14 milhões de famílias morando em favelas. Metade dos domicílios brasileiros não têm saneamento básico e o país já vinha arrastando uma crise económica em que mais de metade da população trabalhadora estava na actividade informal. Em cima desta tragédia, que é estrutural, temos um governo que é absolutamente desastrado e criminoso. O presidente Jair Bolsonaro imitou em tudo, nos conceitos e na propaganda, a conduta negacionista do presidente Trump, nos EUA. Somos um país que entrou na pandemia com apenas 44 mil leitos de UTI [unidade de terapia intensiva, equivalente a unidade de cuidados intensivos] para uma população de 208 milhões de habitantes e o governo, até agora, não conseguiu fazer as providências, nem de saúde, nem aquelas que atenuassem os efeitos que a economia brasileira está experimentando também. Se me pedir a grande causa, é o governo e a incompetência criminosa com que o presidente Jair Bolsonaro, inclusive, desorienta a população. Até ao presente momento, ainda está a dizer que a população não deve cumprir as ordens e as orientações das agências nacionais de saúde e da ciência sobre o isolamento social.

As pesquisas demonstram uma diminuição do apoio a Bolsonaro, os protestos vão subindo de tom, nos círculos políticos parece que o presidente está a perder apoios. Temos um presidente cada vez mais isolado?

Sem dúvida. O Brasil vive hoje três crises, com muita intensidade. A crise de saúde pública: temos um presidente genocida que está a promover, no caso brasileiro, mais de uma morte por minuto, neste momento. A crise económica, que já destruiu seis milhões de postos de trabalho, 860 mil carteiras assinadas foram desfeitas apenas no mês de Abril, a economia vai cair entre 6 e 11 %, agravando pelo dobro aquilo que é a crise económica mundial. E o presidente Jair Bolsonaro, que tem uma motivação claramente fascista e anti-democrática, agita um grupo de milicianos violentos, atenta contra o regular funcionamento das instituições, confraterniza com grupos fascistas que pregam o fim da democracia, a volta da ditadura, intervenção militar, fechamento da Suprema Corte e do Congresso Nacional. São três crises muito graves simultâneas. A população está farta. Nós da oposição não estamos recomendando protestos de rua, vamos estimulando protestos pela internet, rádio. Ali por Agosto, que Deus nos ajude, a gente supera esta tragédia social e de saúde e poderemos, então, fazer prevalecer a regra da Constituição e fazer o impedimento de Jair Bolsonaro.

Parece-lhe que existem condições reais para que o impeachment seja bem-sucedido?

Hoje, não. Como sabe, o impeachment é um facto jurídico, de o presidente ter cometido crimes de responsabilidade, mas é o deslinde de um fenómeno político, dado que o julgamento desses crimes é feito pelo Congresso Nacional. Os factos políticos estão dados. Bolsonaro atenta de forma sistemática contra o regular funcionamento das instituições, impede a autonomia federativa, obstrói a justiça quando aparelha as estruturas de justiça para protecção de crimes cometidos por si e por sua família. Portanto, os crimes, sob o ponto de vista jurídico, estão formalizados e todas as evidências estão entregues. Mas o Jair Bolsonaro ainda tem ao redor de 1/4 da população brasileira o apoiando. Enquanto ele mantiver 1/4 da população, não é provável que os políticos prossigam com o pedido de impeachment. A tarefa é fortalecer, na opinião publica, o convencimento de que a democracia, a saúde publica e a economia precisam se proteger com a destituição de Bolsonaro. Creio que esta condição estará dada por volta de Agosto ou Setembro.

Tem admitido a possibilidade de Bolsonaro tentar um golpe que o ajude a manter-se no poder. Duvida, contudo, que os militares o acompanhem. Em que situação isso deixa o Brasil?

O Bolsonaro deseja o golpe, não esconde de ninguém. Tem confraternizado com grupos que têm explicita a sua agenda, que propõem, com muita clareza, sem nenhum disfarce, o fechamento do Supremo Tribunal Federal, a censura à imprensa, o fechamento do congresso nacional, pedem intervenção militar. Entretanto, as Forças Armadas Brasileiras estão muito divididas em relação ao próprio governo. No auge da pandemia, Bolsonaro ocupou o Ministério da Saúde com 23 militares, nem um deles com qualquer tipo de experiência em saúde pública. O palácio onde estão os ministros mais próximos ao presidente é ocupado totalmente por generais reformados e o coordenador da política do Bolsonaro é um general. Esse núcleo próximo não dissuade, portanto, é cúmplice dessa escalada golpista. Mas a esmagadora maioria dos militares brasileiros não querem, porque sabem que não há condição objectiva. Nem a burguesia brasileira quer esse golpe, nem a classe media, nenhum dos governadores estaduais, que apoiaram o golpe de 64 – São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, os três estados mais importantes – nenhum deles apoia o golpe. Nenhum dos órgãos mais grandes da imprensa apoiam o golpe e o cenário internacional já não é mais o cenário da Guerra Fria dos anos 60. Não vejo solução prática para um golpe militar no caso brasileiro. Entretanto, Bolsonaro está preparando uma milícia particular. Hoje tem grupos de fascistas radicalizados nas polícias militares dos estados, na polícia federal e, quebrando a hierarquia das Forças Armadas, ele também está se infiltrando para tentar produzir essa milícia particular. Precisamos estar muito atentos, mas no Brasil haverá resistência, se se tentar alguma investida anti-democrática.

Lula acusou o Ciro de querer o voto de quem odeia o PT e o Ciro Gomes também tem feito críticas ao PT e particularmente a Lula. Isto coloca em causa, em absoluto, a hipótese de uma aliança alargada, em 2022?

Muito provavelmente essa aliança não acontecerá, mas eu localizo duas tarefas para os brasileiros democratas. Uma, urgente, é proteger a democracia, garantir que a imprensa continuará livre, que os estudantes poderão se reunir sem serem reprimidos, que os trabalhadores podem reivindicar sem serem sufocados. Essa tarefa de proteger a democracia é uma tarefa de todos nós. Para que possamos construir a saída do Brasil, o que se pede é o oposto. Ao invés de grande consenso, a saída é outra. Há consciência de duas coisas que nos dividem. Uma é a consciência das causas pelas quais o Brasil chegou a esse fundo do poço. Não é possível que Lula se considere agredido apenas porque eu constato aquilo que está no imaginário de 100% da população brasileira. Eu não deixo de reconhecer que o Lula teve uma passagem boa, mas ele próprio é o responsável, porque se corrompeu, pelo desastre económico que produziu.

Mais importante do que entender as causas, precisamos sinalizar para o futuro. O Brasil vai sair deste governo de Bolsonaro destruído economicamente. Eu proponho um sistema tributário que aumente os impostos para os mais ricos. O Brasil é um dos dois países no mundo que não cobra impostos sobre o lucro dos dividendos empresariais. Enquanto os Estados Unidos cobram 29% da grande herança, no Brasil cobra 4%. O Brasil não cobra impostos sobre os grandes patrimónios e eu proponho cobrar um imposto entre 0,5% e 1% de todos os patrimónios acima de 5 milhões de dólares. São propostas concretas para dizer de onde virá o dinheiro para enfrentar a pior distribuição de rendas do mundo.

Que Brasil lhe parece que sairá desta crise?

O Brasil estará no pior momento da sua história, pela simultaneidade do colapso socio-sanitário. Nesse momento, já ocupamos o terceiro lugar do mundo em mortes e vamos, claramente, para o segundo lugar. A extensão da tragédia económica é a que mais me angustia. O desemprego se aproximará de algo ao redor de 20 milhões de pessoas e as contas publicas estão sendo absolutamente quebradas. A projecção de défice primário, este ano, é ao redor de 110 bilhões [mil milhões] de dólares, o que é cinco vezes o pior que já aconteceu em qualquer momento da história. A nossa divida está galopando para, pela primeira vez, se equivaler a 100% do PIB. Seja do ponto de vista social, emprego, fiscal, é o pior momento da história brasileira. Tudo isto me preocupa muito.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 968 de 17 de Junho de 2020. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,20 jun 2020 9:20

Editado porAndre Amaral  em  25 out 2020 23:20

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