O método científico e o uso de cloroquina no tratamento da covid-19

PorNuno Andrade Ferreira,16 jul 2020 10:35

​No Teste Rápido desta semana, o presidente do Brasil e a ‘sua’ cloroquina e as máscaras, sempre as máscaras.

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, anunciou na semana passada ter testado positivo para SARS-CoV-2. O diagnóstico foi feito dia 7 de Julho. Nesse dia, Bolsonaro falou aos jornalistas à porta da sua residência oficial, em Brasília.

Na ocasião, explicou como se sentia, garantindo estar melhor e atribuindo a recuperação à Hidroxicloroquina, um medicamento que tem tentado promover como resposta à covid-19.

O jornal Estado de Minas ouviu a declaração do presidente do Brasil e contou o número de vezes que este falou no fármaco. No total foram 17 as referências de Jair Messias Bolsonaro.

Bolsonaro testa positivo para COVID-19 e faz campanha pró cloroquina

Jair Bolsonaro confirmou, nessa terça 07/7, que contraiu o coronavírus. E no anúncio, aproveitou para citar o remédio que vem tomando desde os primeiros sint...

No dia seguinte, Bolsonaro apareceu em novo vídeo, agora na sua página na rede social Facebook, reforçando que a toma de Hidroxicloroquina estava a produzir resultados.

"Estou tomando aqui a terceira dose da Hidroxicoloroquina, estou me sentido muito bem (... ) Sabemos que hoje em dia existem outros remédios que podem ajudar a combater o coronavírus, sabemos que nenhum tem a sua eficácia cientificamente comprovada mas mais uma pessoa que está dando certo. Eu confio na Hidroxicloroquina, e você?", questionou.


Afinal, a cloroquina é realmente eficaz?

Apesar da campanha a seu favor, não existe prova científica de que o medicamento produza efeitos. Um estudo com 821 pacientes dos Estados Unidos e Canadá, publicado na revista científica The New England Journal of Medicine, não encontrou qualquer prova da eficácia do uso de Hidroxicloroquina no tratamento da covid-19. Pelo contrário, existem evidências que a toma do remédio pode produzir efeitos secundários graves, em alguns pacientes.

Hidroxicloroquina não previne Covid-19 em pacientes, diz novo estudo

A hidroxicloroquina não é capaz de proteger contra a Covid-19, mostrou um estudo com 821 pessoas conduzido por pesquisadores dos EUA e do Canadá e publicado nesta quarta-feira (3) na respeitada revista científica americana The New England Journal of Medicine.

Bolsonaro e outros que defendem este ou outros supostos tratamentos sem comprovação científica padecem de um mesmo problema: a falta de conhecimento sobre o que é o método científico.

É através do método científico que os cientistas percebem e testam as suas hipóteses.

Fomos à Internet, à procura de uma explicação bem simples para o que é o método o científico. No canal de YouTube “Biologia Total”, o professor Paulo Jubilut apresenta o conceito. 

"O método científico, também conhecido como método hipotético dedutivo, é o conjunto de normas que devem ser seguidas para produção de conhecimento científico (...) Se você não fizer isso, ou seja, se você tentar explicar um fenómeno que acontece na natureza por um 'achismo', por aquilo que você simplesmente imagina, isso não é ciência. Na verdade, isso tem inclusive um nome, isso é chamado de senso comum", refere.

Entenda de uma vez por todas o MÉTODO CIENTÍFICO | Prof. Paulo Jubilut

Acredito que você não tenha dúvidas com relação a importância das pesquisas científicas na melhoria da tua qualidade de vida! Não seria legal, um mundo onde ...

Ou seja, é importante distinguir entre um fenómeno que acontece ‘porque’ e outro que se verifica ‘apesar de’.

Não, não e não…

Apresentamos agora Richard Rose, um veterano do exército norte-americano, de 37 anos, cuja notícia da morte começou a circular no final da semana passada, nas redes sociais.

Richard teria morrido dias depois de ser diagnosticado com covid-19 e após ter assumido publicamente, no seu perfil no Facebook, que não usaria máscara de protecção.

Esta história é verdadeira?

Sim, a história de Richard Rose é real. Rose morreu a 4 de Julho, meses depois de ter anunciado que não usaria a “porcaria de uma máscara”. “Cheguei aqui sem ceder a modas”, escreveu a 28 de Abril.

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Eram frequentes as publicações de Richard sobre as suas saídas de casa, numa altura em que era pedido o confinamento. Suspeita-se, aliás, que o homem terá contraído o vírus numa ida a uma piscina pública onde estariam várias pessoas desprotegidas.

Depois de diagnosticado, as publicações mudaram o foco, com Rose a admitir estar “sem fôlego” só de estar sentado.

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As publicações de Richard estão a ser partilhas nas redes sociais, como um alerta para quem desvaloriza a doença e os seus efeitos.

Ao canal de televisão local, Cleveland 19, um amigo da vítima disse esperar que o caso do veterano de 37 anos possa ser usado como exemplo de que o vírus é real e que são necessários cuidados.

“Quero que as pessoas vejam que é real. A minha esperança é que as pessoas vejam que isto acontece e sejam mais conscientes”, disse.

37-year-old Port Clinton war vet dies from COVID-19 complications on Fourth of July

PORT CLINTON, Ohio (WOIO) - Richard Rose was only 37 years old when he died at his home from complications due to COVID-19. He was born and raised in Port Clinton. Those who knew Rose described him as kind, funny, and caring. His family said he was very active in helping homeless vets and in preventing veteran suicide.

Rose era descrito pelos amigos como uma pessoa gentil, divertida e preocupada.

Fungos e máscaras

Novamente as máscaras. Circulam nas redes sociais novos posts sobre as máscaras enquanto responsáveis pelo surgimento de casos de infecção por fungos nos pulmões, o que já teria levado ao internamento hospitalar de pacientes.

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Será verdade?

De acordo com a Reuters, o uso de máscaras não causa infecções pulmonares. Quem já tem uma infecção poderá contaminar a máscara que está a usar, mas a máscara serve de barreira, evitando a infecção daqueles que estão ao seu redor.

CDC norte-americano, acrescenta a Reuters, recorda que o ser humano contacta diariamente com fungos, sem que necessariamente fique doente.

Contudo, os especialistas recordam que é necessário ter cuidado com a higienização das máscaras. Máscaras utilizadas para lá do tempo de vida útil das mesmas ou mal lavadas, no caso das de tecido, favorecem a acumulação de possíveis agentes infecciosos.

A Internet, sempre a Internet

Todas as informações usadas neste Teste Rápido foram obtidas na Internet e são conteúdos abertos, disponíveis a todos os utilizadores. Cabe a cada um de nós avaliar os conteúdos que consultamos e decidir que postura assumir online. Queremos ser aquele que espalha notícias falsas e contribui para a desinformação? Ou, pelo contrário, preferimos ser aquele que contribui para um debate esclarecido e esclarecedor?

Sabemos discordar de uma posição? Demonstrar a nossa opinião sem recorrer a insultos e sem perder o respeito pelo outro?

Podemos dar o nosso contributo, enquanto cidadãos comprometidos, por um melhor espaço público virtual, por exemplo, confrontando directamente todas as narrativas opressivas, pondo em causa os mitos e a autoridade em que se baseiam essas narrativas. Podemos dar voz a quem foi vítima do ódio online.

Mas não podemos responder a ódio com mais ódio, nem contribuir para a desinformação e propagação de mentiras ou ‘meias-verdades’. 

Sobre o Teste Rápido

O Teste Rápido é um projecto da Rádio Morabeza e do Expresso das Ilhas. Pode ouvir-nos na rádio (quinta-feira, depois das 11h00), recuperar-nos em formato podcast ou ler-nos aqui, no site do jornal.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,16 jul 2020 10:35

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  4 ago 2020 13:19

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