COVID-19: “No Sal, qualquer europeu corre menos risco do que no seu país”

PorSara Almeida,21 nov 2020 7:41

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Depois de uma vitória expressiva nas Autárquicas de 25 de Outubro, Júlio Lopes volta a liderar o Sal. Aquela que é a ilha mais turística de Cabo Verde é também, por causa disso “a mais afectada pela pandemia da COVID, em termos sociais e económicos”.

Numa conversa em que o ponto principal é, pois, incontornavelmente, o turismo e sua retoma, o edil destaca os pequenos operadores salenses como aqueles que de mais apoio precisam. E sublinhando ainda que todas as condições estão criadas para receber visitantes, há uma mensagem que destaca e que é preciso ecoar: o Sal é um local, não só aprazível, como sempre foi, como também, em contexto actual de pandemia, mais seguro do que todos os tradicionais países emissores de turistas.


Foi reeleito com cerca de 70% dos votos, uma vitória significativa. Na sua análise, quais os principais motivos por trás desta aprovação?

Esta aprovação é o corolário normal de uma gestão humanista, participativa e de proximidade junto das pessoas. O político, ao contrário do funcionário ou agente da administração, é aquele que é eleito. E é eleito para trabalhar para as pessoas. Se fizermos essa gestão de que falei, de modo a podermos compreender as necessidades e as expectativas das pessoas, de forma permanente e sistemática, e depois, perante isso, adoptarmos e executarmos políticas públicas, acções, iniciativas, projectos para beneficiar as pessoas, sempre numa relação próxima das pessoas, ouvindo-as, teremos aprovação. O “segredo” da nossa Câmara Municipal é essa relação com as pessoas, com as comunidades. Toda a obra que for feita no Sal tem que ter um impacto directo nas comunidades. Não vão ser obras para serem só bonitas. Não. Tudo tem de beneficiar as pessoas. Da habitação, urbanismo, à educação e formação… Por isso é que dificilmente conseguiram arranjar críticas para esta Câmara. Porque o que fizemos, em suma, foi aquilo que as pessoas pediram e eu penso que assim é que tem que ser feita política: sem populismo, sem promessas falsas – a execução também é importante – mas numa relação de amizade, com políticas factíveis e possíveis, tendo em conta todos os constrangimentos. Não podemos fazer muitas coisas, fazemos aquilo que é possível e que o povo quer, de acordo com os recursos financeiros e cumprindo-se todos os procedimentos de legalidade e de transparência. Quem faz isto e cultiva a relação com as pessoas nunca perde as eleições em Cabo Verde.

Entretanto, o Sal que agora vai liderar é um Sal muito diferente do que era há quatro anos, essencialmente por causa do actual contexto de pandemia. Como está o ambiente da ilha?

Está a pôr um problema conjuntural, que tem a ver com a pandemia de covid, que para além do seu impacto sanitário está a ter um impacto económico e social negativo. É um problema mundial, se até países como os Estados Unidos ou os países da Europa tiveram uma queda brutal ao nível do crescimento económico e de rendimentos, quanto mais um país como Cabo Verde, por sinal país em que boa parte das suas receitas e do seu desenvolvimento está ancorado no sector mais afectado: o turismo. O turismo e também as viagens. Como se sabe o turismo é o sector que mais contribui para o PIB de Cabo Verde e o Sal, como principal ilha turística e também do sector das viagens, é a ilha mais afectada economica e socialmente pela covid. Temos milhares de jovens, que trabalham em hotéis, em lay-off porque os hotéis estão fechados. Temos também outros grupos que estão sem rendimentos ou com poucos, porque no Sal quase tudo gira à volta do turismo. Mesmo o turismo que temos, o all inclusive, tem impacto nas comunidades. Por conseguinte, a situação não está fácil nem para quem está em lay-off, nem para outros sectores que beneficiam dos efeitos multiplicadores do turismo. Os artistas, os criativos, os pequenos negócios, bares, restaurantes, pequenos negócios e também vários outros profissionais que, de uma forma ou de outra, têm sua actividade afectada pelo turismo.

Com o turismo praticamente parado, bem com o hub do Sal e o programa stop over, qual o plano B para fazer face a estas perdas vitais?

São questões que o governo está a analisar, com medidas de emergência, para poder amenizar todos esses impactos negativos. Aqui, a CM, tem o seu programa municipal, que tem as suas limitações porque os recursos não são abundantes. Mas temos um programa, que vamos continuar, voltado para o apoio social para que as pessoas não vivenciem situações extremas no Sal. A CM está atenta às situações difíceis.

Mas em termos de economia, o que é que a CM, no que toca às suas competências, está a fazer?

A nível da CM, temos esse programa de emergência para apoiar socialmente as famílias mais desfavorecidas e que têm mais dificuldades. Temos um programa de apoio aos pequenos negócios, que estamos a formatar, mas, aliás, temos vindo a apoiar, por exemplo, com a isenção de pagamento de várias licenças. Não faz sentido estarmos a cobrar a um pequeno negócio as taxas de licença, as taxas de lixo… Estamos a prescindir dessas receitas para podermos apoiar os nossos pequenos negócios. Neste momento, o pequeno negócio, um dos sectores mais afectados pela pandemia, precisa de ser acarinhado, de muita amizade, muita atenção, por parte dos poderes públicos, seja da CM, seja do governo. Vamos fazer a nossa parte e esperamos que o governo também tenha em conta esse aspecto. Porque quem é funcionário público tem o seu salário, quem trabalha num hotel ou tem um trabalho com contrato, com alguma estabilidade, está no lay-off. Agora esses sectores, pequenos e micro-empresários, que trabalham por conta própria não têm. E o governo e as CM devem agora ter um programa especial para cuidar deles, cuidar com amizade.

O lay-off vai acabar no fim do ano e não se está a preconizar mais nenhum…

Sim, mas temos esperança de que a partir do próximo mês de Dezembro os voos comecem, os turistas comecem a voltar, nomeadamente, os estrangeiros que residem aqui. Com a abertura dos voos e o regresso, a situação vai começar a melhorar e oremos todos, vamos ter de orar, para que a vacina seja distribuída o mais rapidamente possível.

A retoma dos voos e do turismo também estará muito dependente de questões sanitárias. Como está a situação na ilha?

Se não há, ou há poucos voos, isto não está a depender de Cabo Verde, ou, no caso concreto, da ilha do Sal. O Sal tem sol, bom clima, boa praia de mar, bom ambiente. Quase não temos casos de covid, Agora veja-se como está a Europa, com frio e muitos casos de covid. Como pode pôr uma ilha como o Sal, numa lista negra?

Ao virem para a ilha poderão ser portadores do vírus. Dá para os dois lados.

Mas há todo um procedimento que os turistas ou quem vem para Cabo Verde ou para o Sal têm de cumprir. Têm de vir com o teste realizado. No Sal ninguém corre risco de vir apanhar o vírus. Há mais risco é no país de origem. Na Europa, por exemplo. Por conseguinte, eu acho que o governo está com uma boa estratégia, de tentar segmentar as situações ilha por ilha, e ir “vendendo” turisticamente as ilhas onde for possível avançar com o turismo: Boa Vista, Sal, Santo Antão...

Em termos de resposta na saúde, como está o Sal?

A saúde no Sal, no quadro desta legislatura, deu um salto enorme. O governo já inaugurou o Centro de Saúde de Santa Maria, que já está a funcionar e a dar o seu contributo. O hospital de Espargos foi objecto de obras de remodelação e foram contratados especialistas, inclusive já temos um cirurgião. Em 2016 havia no Sal cerca de oito médicos, hoje estamos com mais de 20. Quase quadriplicamos os enfermeiros. Ou seja, houve muito investimento na área da saúde a nível público, mais médicos, enfermeiros, mais estruturas de saúde, mais equipamentos. Sal já tem TAC…

E sistema de cuidados intensivos, se for necessário?

Há um centro de tratamento covid, que é em Santa Maria, no antigo hotel Dunas. Está a funcionar, só que não tem ninguém, porque não temos, actualmente, esses casos. Mas estamos preparados.

Testes PCR?

Não temos problemas com os PCR. São feitos [ao paciente] no prazo de 24h e têm a sua resposta. Como disse, a nível sanitário, de saúde, este governo fez um grande trabalho no Sal e o povo do Sal está satisfeito com isso. Então, mesmo para a covid, na ilha estão criadas todas as condições para os turistas, para quem quiser vir ao Sal vir e estar aqui tranquilamente. Se as pessoas não estão a vir, isso não tem nada a ver com o Sal ou com o governo. Tudo está pronto. Estamos aqui para receber, no quadro de um turismo seguro. Os restaurantes, hotéis, estão todos certificados. Você vai a um pequeno bar, ou a qualquer outro estabelecimento e vê que toda a gente cumpre as regras de higiene. Qualquer turista que venha, qualquer pessoa que venha ao Sal, neste momento não está a correr risco de contágio pelo coronavírus. Esse trabalho foi feito. Só que as pessoas têm de vir. A Europa está agora com confinamentos, esperemos que isto acabe rapidamente, para o bem de todo o mundo. Que o problema se resolva a nível mundial, ou que a vacina seja comercializada o mais rápido possível, para podermos voltar ao normal.

Com esta pandemia houve alteração também nos fluxos migratórios internos. Saiu muita gente do Sal, para as ilhas de origem?

É importante dizer a situação do transporte inter-ilhas em Cabo Verde melhorou consideravelmente, com as reformas nos transportes marítimos. Temos barcos disponíveis, que fazem dois percursos por semana e com regularidade, tirando uma ou outra situação de mau tempo ou avaria. Neste momento é fácil viajar de barco e muita gente o faz, mesmo quem antes só viajava de avião. Agora é normal estar no Sal e ir, por exemplo, para Santo Antão, São Nicolau, São Vicente, ficar lá uns dias ou umas semanas e voltar.

Assim, o que está a haver é o seguinte: de facto muitas pessoas saíram, porque uma pessoa jovem, que tem um salário no Sal e está em lay-off, pode viver melhor com esse dinheiro em Santo Antão, por exemplo, porque aqui as rendas são mais caras. E com os transportes marítimos, há mais facilidade em sair e entrar. Mas quando os hotéis reabrirem e a actividade económica voltar claro que todas essas pessoas vão voltar também.

Previsão para a reabertura? Falou em Dezembro. Acredita que será nessa altura?

Do ponto de vista de Cabo Verde e do Sal, do governo e da CM, ou mesmo do sector privado e das comunidades, estamos prontos para receber os turistas. Queremos que eles venham...

Mas ainda não há uma data concreta.

Tudo depende... dei-lhe um exemplo: aqui no Sal, qualquer europeu corre menos risco do que no país dele. É só ver o que se está a passar na Europa. Aqui estão seguros. Se os europeus soubessem como de facto está a situação no Sal eu penso que já teríamos voos, e em grande quantidade. Só que não sabem. Há todo um [problema] de comunicação, porque é muito difícil dizer a um português, por exemplo, que aqui no Sal está mais seguro do que em Lisboa. Se ele soubesse isso, se tivesse essa informação, já teríamos cá um grande número de turistas. Estamos melhor – falo concretamente do Sal – do que Lisboa, Paris, Londres, ou qualquer outra cidade europeia, ou americana. O problema é que é difícil para um país pequeno como Cabo Verde passar esta mensagem lá fora. Mas o governo está a trabalhar com as agências, depende naturalmente das decisões dos países, mas estamos optimistas que muito brevemente a situação se resolva.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 990 de 18 de Novembro de 2020. 

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Autoria:Sara Almeida,21 nov 2020 7:41

Editado porSara Almeida  em  26 nov 2020 13:19

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